Apple Wearables, Ford com Novos Elétricos, a Meta Sabia dos Vícios e a China está Dançando com seus Robôs
Bom dia! Hoje é 18 de fevereiro. Neste mesmo dia, em 1930, o astrônomo americano Clyde Tombaugh descobria Plutão a partir do Observatório Lowell, no Arizona. Um objeto celeste que desafiou categorias e forçou o mundo científico a repensar o que, afinal, define um planeta.
Quase um século depois, o desafio de redefinir categorias permanece mais vivo do que nunca: o que é um dispositivo? O que é um carro? O que é vício? O que é um robô? As notícias desta quarta-feira não são sobre produtos novos. São sobre o colapso de fronteiras antigas.
A Apple no Mundo dos Wearables
Por décadas, a Apple construiu seu império sobre uma hierarquia clara: o iPhone no centro, todo resto na periferia. Entretanto, o que a Bloomberg revelou nesta semana sobre um novo trio de wearables com inteligência artificial que está em desenvolvimento pela empresa - um broche com câmera do tamanho de um AirTag, óculos inteligentes com o codinome de N50 e um AirPods com capacidades avançadas de IA - não é apenas um sinal de mudança de estratégia da Apple, que quer pensar, agora, na diversificação de portfólio, mas, também, o anúncio de uma mudança filosófica profunda que está ocorrendo em todo o mercado: o corpo humano está se tornando a próxima interface.
A urgência por trás dessa aceleração é, para nós, bastante reveladora. Afinal, a Apple raramente corre e, quando o faz, é porque percebe que seu terreno está escorregando (e, se ela não se mexer, estará em ameaça).
A Meta, com seus óculos Ray-Ban, validou um mercado que Cupertino havia subestimado; a Snap, com isso, já está preparando seus próprios Specs; e startups como a Humane e a Rewind já tentaram criar dispositivos de IA vestíveis - com resultados mistos, mas com a lição clara de que a categoria existe (especialmente diante do sucesso da Meta). A Apple, portanto, não está inovando por antecipação neste ciclo, mas reagindo por necessidade, o que torna o lançamento previsto para 2027 tanto uma aposta estratégica quanto uma corrida contra o tempo.
Por fim, o que está verdadeiramente em jogo é o controle da camada de percepção. Óculos que filmam o mundo, broches que processam contexto em tempo real e fones que interpretam o ambiente sonoro criam, juntos, uma infraestrutura de coleta de dados contínua e íntima - mais próxima do usuário do que qualquer smartphone poderia ser. Todavia, para estes acessórios funcionarem são necessários modelos de IA com eficiência consolidada, algo que a Siri ainda não conseguiu, ficando historicamente atrás de concorrentes em capacidade de raciocínio.
Se a empresa não resolver esse gargalo antes do lançamento, provavelmente entregará um hardware excelente com alma fraca, e isso, no mercado de wearables, pode ser fatal.
Eficiência é uma Filosofia, Não uma Planilha
A Ford mudou de vez sua rota para os carros elétricos - e baratos, por preferência. Contudo, o que a empresa está fazendo não é apenas desenvolver novos produtos. Ela está, nas entrelinhas, confrontando uma verdade incômoda que o setor automotivo ocidental evitou por anos: a China não ganhou o mercado de veículos elétricos apenas por subsídios (apesar de eles serem um dos grandes responsáveis), mas por obsessão em eficiência de engenharia.
Assim, a nova plataforma UEV (Universal Electric Vehicle), liderada por Alan Clarke, ex-Tesla, com especialistas da Fórmula 1, com uma redução de 20% no número de peças do veículo e um ganho de 40% no tempo de montagem dos carros (afinal, os moldes dos carros agora serão padronizados, por isso “Universal Electric Vehicle”), é a resposta americana mais séria a esse desafio até agora.
O detalhe técnico mais revelador da iniciativa está na lógica da bateria. Ao tornar a carroceria aerodinamicamente 15% mais eficiente que os rivais, a Ford conseguiu usar em seus modelos baterias menores para a mesma autonomia e, como as baterias representam cerca de 40% do custo de um veículo elétrico, essa eficiência se traduz diretamente em um preço mais acessível, sem sacrificar suas margens de lucro.
É uma inversão da abordagem tradicional americana, que historicamente tentava compensar ineficiências com mais potência de bateria. A China, enquanto isso, sempre jogou o jogo pelo outro lado: menos peso, menos peças, menos custo e mais escala.
O risco central, porém, não é técnico, mas político. A BYD e seus pares chineses operam com custos que nenhuma fábrica americana consegue replicar integralmente, mesmo com toda a engenharia de F1 do mundo. As conversas da Ford com o governo americano, porém, sobre incentivos e possíveis joint ventures revelam que a empresa sabe disso.
O campo de batalha real não será apenas nas garagens dos consumidores, ou nas concessionárias, mas nas salas de negociação entre Washington e Detroit - e, inevitavelmente, nas tarifas que moldarão quem consegue precificar um EV à US$ 30 mil de forma sustentável nos Estados Unidos.
A Meta Sabia, e o Que Isso Muda?
O que o julgamento em andamento em Los Angeles revelou sobre o “Projeto MYST” da Meta vai além de uma questão jurídica. Afinal, este estudo interno, conduzido em parceria com a Universidade de Chicago, concluiu que controles parentais e supervisão familiar têm “pouca associação” com a redução do uso compulsivo de redes sociais por adolescentes. Em outras palavras: a Meta financiou uma pesquisa que demonstrava que suas próprias ferramentas de proteção não funcionavam - e essa pesquisa nunca havia se tornado pública.
A implicação estrutural destas informações é grave. Afinal, durante anos, a narrativa das plataformas digitais em defesa contra processos e reguladores foi a mesma: “fornecemos ferramentas de controle parental; a responsabilidade é da família”. Antagonicamente, este estudo interno da Meta corrói esse argumento pela base. Pois se a própria empresa sabe que esses controles são ineficazes frente ao design compulsivo de seus produtos, então a questão deixa de ser de educação familiar e passa a ser de responsabilidade de produto - o mesmo tipo de responsabilidade que recai sobre fabricantes de cigarros, bebidas alcoólicas e remédios com potencial de dependência, por exemplo.
Isso muda o campo regulatório sobre as big techs de maneira significativa. Até agora, estas resistiram com sucesso à ideia de que algoritmos de engajamento pudessem ser tratados como mecanismos de dependência deliberada. Porém, se os tribunais americanos começarem a consolidar jurisprudência nessa direção indesejável as gigantes (especialmente com evidências internas das próprias empresas), o modelo de negócio baseado em tempo máximo de tela enfrentará uma ameaça existencial. Não por regulação externa imposta de cima, mas pela própria lógica de responsabilidade civil que moldou setores inteiros ao longo do século XX.
A pergunta que o julgamento de Los Angeles coloca para o mercado é direta: pode um produto ser projetado para viciar e ainda ser protegido pela Primeira Emenda?
O Recado da China para o Mundo
Um espetáculo televisivo em comemoração ao Ano Novo Chinês pode parecer mero entretenimento, mas, quando robôs humanoides executam sequências de artes marciais, imitam o “boxe bêbado” tradicional do país e dançam sincronizados com artistas humanos no programa de maior audiência do planeta (a Gala do Festival da Primavera da CCTV, assistida por centenas de milhões de pessoas), o que se está transmitindo não é apenas coreografia. É uma declaração de política industrial em forma de performance para todo o mundo.
Apesar do sensacionalismo da propaganda, na realidade, os números realmente sustentam a narrativa. A China respondeu por 90% dos aproximadamente 13 mil robôs humanoides vendidos globalmente em 2025, segundo a consultoria Omdia.
Empresas como Unitree, Noetix e MagicLab não aparecem no palco da CCTV por acidente: a aparição em eventos estatais de grande visibilidade funciona como certificação pública de seu sucesso em inovação industrial.
O Estado chinês, de fato, transforma o entretenimento em vitrine de política industrial, e o mercado global, vendo isso, responde com mais capital e depósitos de confiança neste modelo que, hoje, parece ser insuperável.
Para o Ocidente, e particularmente para empresas como Boston Dynamics, Tesla e seus parceiros tecnológicos, o sinal emitido por Pequim é inequívoco: a China não está apenas fabricando robôs mais baratos, mas está construindo o ecossistema completo, com cadeias de suprimentos de hardware, modelos de IA embarcada, infraestrutura de teste em escala e uma narrativa cultural que normaliza a presença de humanoides no cotidiano.
O próprio Elon Musk já reconheceu publicamente que sua maior ameaça no segmento do Optimus virá da China. O que a Gala do Ano Novo mostrou é que essa ameaça não está apenas nos laboratórios, mas já está no palco, e o público está aplaudindo.








