Meta e Google no Banco dos Réus, Cerveja em Declínio, Robôs que Pensam e Lenovo Apostando no Brasil
Bom dia! Hoje é 12 de fevereiro. Neste mesmo dia, em 1809, nascia Charles Darwin, o naturalista britânico cuja teoria da seleção natural revolucionou nossa compreensão sobre a evolução das espécies.
Mais de dois séculos depois, assistimos a uma nova forma de seleção em curso: não mais biológica, mas algorítmica. As plataformas digitais que hoje moldam comportamentos, preferências e até patologias psíquicas de uma geração inteira estão, finalmente, sendo questionadas sobre os mecanismos que as fizeram prosperar.
O Julgamento que Pode Redefinir a Responsabilidade das Big Techs
A Meta e a Google enfrentam, neste momento, o que pode se tornar o caso mais consequente da história recente da tecnologia. Em um tribunal americano, as duas gigantes são acusadas de projetar deliberadamente, em suas redes sociais, sistemas que viciam crianças e adolescentes para, assim, maximizar lucros.
A estratégia jurídica dos acusadores contra as empresas é muito sagaz: ela replica, quase literalmente, a abordagem que desmantelou a indústria do tabaco nas décadas de 1990 e 2000. A tese central é que redes sociais deixaram de ser plataformas neutras de hospedagem de conteúdo e se tornaram produtos ativamente desenhados para criar dependência.
O caso gira em torno de uma jovem de 20 anos que atribui às redes sociais o desenvolvimento de depressão, ansiedade e pensamentos suicidas. Mas o que está realmente em julgamento transcende sua história individual: é a própria arquitetura dos algoritmos de recomendação. Quando uma plataforma decide o que você vê, quanto tempo permanece em cada conteúdo e quais estímulos emocionais recebe, ela deixa de ser um mero intermediário e passa a ser, na prática, um curador ativo de experiências psicológicas.
A questão que o júri precisa responder é se essa curadoria, quando direcionada a menores de idade, constitui negligência passível de responsabilização.
As implicações de uma decisão desfavorável às empresas seriam sísmicas. Se o júri estabelecer que plataformas podem ser responsabilizadas pelos efeitos de seus algoritmos, cria-se um precedente que forçaria uma revisão estrutural dos modelos de negócio baseados em maximização de tempo de tela.
O efeito cascata seria global (e já vemos movimentos que se assemelham ao tema, como a proibição das redes sociais para menores de 16 na Austrália): reguladores europeus, asiáticos e latino-americanos teriam um caso concreto para fundamentar legislações mais restritivas.
No Brasil, onde o ECA Digital já começa a vigorar em março com exigências de verificação de idade mais rigorosas, uma vitória dos acusadores aceleraria a pressão por medidas ainda mais duras. O que está em jogo não é apenas uma indenização, mas a própria legitimidade do modelo de atenção como commodity que sustenta o Vale do Silício há duas décadas.
O Crepúsculo da Cerveja e a Ascensão das Bebidas de Nicho
A Heineken anunciou o corte de até 6 mil empregos globais e projetou crescimento menor para 2026, seguindo um padrão que já atinge, também, seu concorrentes como a Carlsberg. O diagnóstico é claro: a demanda por cerveja está em queda e, para infelicidade das cervejarias, não se trata de um ciclo conjuntural. O que estamos testemunhando é uma reconfiguração profunda dos hábitos de consumo de bebidas alcoólicas, especialmente entre as gerações mais jovens.
Os sinais dessa transformação estão por toda parte. Aqui pelo nosso Brasil, um vinho português barato e adocicado tornou-se fenômeno de vendas ao apostar em miniaturas de 187 ml que mimetizam o formato de uma long neck, mirando diretamente o público jovem em eventos como o Carnaval. Paralelamente, o “sabor energético” da Mansão Maromba, um drink alcoólico idealizado pelo influenciador Toguro, viralizou com engajamento orgânico e memes, provando que a lógica de plataforma já colonizou até o mercado de bebidas.
Esses produtos não vencem pela tradição cervejeira, mas pela capacidade de habitar o ecossistema digital onde seus consumidores vivem.
A lição estratégica para o setor é dura, mas inequívoca. Cervejarias tradicionais construíram impérios sobre economias de escala, distribuição capilarizada e décadas de branding massivo. Mas quando o consumidor jovem escolhe bebidas por afinidade com influenciadores, viralidade de memes ou adequação a contextos específicos de consumo, essas vantagens históricas se tornam menos relevantes.
O mercado de bebidas alcoólicas está se fragmentando em nichos cada vez menores, onde agilidade, autenticidade percebida e presença digital superam a força bruta da publicidade tradicional. A Heineken não está apenas cortando custos, está reconhecendo que o jogo mudou.
Apptronik e a Corrida Bilionária pelos Robôs que Raciocinam
A Apptronik, startup de robôs humanoides nascida na Universidade do Texas, acaba de levantar US$ 935 milhões em uma rodada que eleva sua avaliação a aproximadamente US$ 5 bilhões. O número impressiona, mas o que realmente importa é o que ele sinaliza: a convergência entre inteligência artificial e robótica deixou de ser promessa de laboratório e se tornou aposta concreta de capital institucional.
Investidores da startup, como Google, Mercedes-Benz e B Capital não estão financiando uma tese de ficção científica, estão posicionando-se para a próxima infraestrutura produtiva global.
O diferencial da Apptronik (e da nova corrida da IA) reside no conceito de “IA incorporada”, ou seja, robôs capazes de perceber o ambiente, raciocinar sobre ele e executar ações físicas sem depender de instruções pré-programadas. Seu robô Apollo está sendo desenvolvido para descarregar caminhões, separar itens em armazéns e operar máquinas, tarefas que exigem adaptação contínua a contextos imprevisíveis.
A parceria com o Google DeepMind é central nessa arquitetura: enquanto a Apptronik domina a engenharia mecânica e a integração de sensores, o DeepMind fornece os modelos de raciocínio que transformam um autômato em algo próximo de um agente autônomo.
Mas a ambição vai além de fábricas e armazéns. O CEO da Apptronik, Jeff Cardenas, aponta o envelhecimento populacional como uma das fronteiras mais promissoras para a robótica humanoide. À medida que sociedades envelhecem e mais idosos desejam viver de forma independente, robôs capazes de auxiliar em tarefas domésticas, desde carregar compras até preparar refeições, podem se tornar não apenas conveniência, mas necessidade.
O Japão, com sua pirâmide demográfica invertida, por exemplo, será provavelmente o primeiro laboratório em escala real dessa transição. Se a Apptronik e seus concorrentes entregarem o que prometem, a próxima década verá robôs humanoides deixarem de ser curiosidade tecnológica para se tornarem parte do tecido social, com todas as implicações econômicas, trabalhistas e éticas que isso carrega.
Lenovo Aposta no Brasil como Laboratório de IA Corporativa
A Lenovo, líder global em PCs com quase 25% do mercado, anunciou uma estratégia agressiva de crescimento no Brasil centrada em três pilares:
Equipamentos corporativos com inteligência artificial embarcada;
Expansão de serviços avançados; e o
Lançamento da Qira, sua assistente pessoal de IA.
O movimento revela uma leitura precisa do momento brasileiro: enquanto o mercado de computadores pessoais permanece estável, a demanda corporativa por infraestrutura de IA está em franca aceleração.
Os números reais sustentam essa aposta. Uma pesquisa da IDC com 250 CEOs brasileiros indica que mais de 60% das grandes empresas estão em fase de implementação de soluções de IA, com 54% já utilizando alguma forma de IA generativa. As áreas de finanças, recursos humanos e supply chain lideram a adoção, gerando uma demanda crescente por hardware capaz de processar modelos localmente, sem dependência total da nuvem. Diante deste cenário, a Lenovo buscar se posicionar com seus notebooks e workstations com IA embarcada exatamente nesse nicho.
E o que torna a estratégia particularmente interessante é a proposta de sua expansão para serviços. A Lenovo está migrando de uma lógica de venda de hardware para um modelo de relacionamento contínuo, oferecendo gestão de parques de TI, help desk terceirizado e contratos de pagamento por uso, como o True Scale para servidores.
Essa transição espelha um movimento mais amplo na indústria de tecnologia: o valor está migrando do produto físico para o serviço recorrente. A Qira (novo assistente de IA inerente aos novos produtos da Lenovo), ao integrar notebooks, smartphones e tablets em uma experiência unificada de produtividade assistida por IA, é a materialização dessa visão.
Se bem executada, a estratégia pode transformar a Lenovo de fabricante de computadores em plataforma de produtividade corporativa, um reposicionamento que vale ordens de magnitude a mais em valor de mercado.









