Apple Se Rende ao Gemini, Amazon Aposta em Wearable de IA, Robôs Aprendem a Ver o Mundo e X Promete Algoritmo Aberto
Bom dia! Hoje é 14 de janeiro. Neste mesmo dia, em 2005, a sonda Huygens pousava em Titã, lua de Saturno, tornando-se o objeto humano mais distante a tocar o solo de outro mundo. A missão, fruto da colaboração entre NASA, ESA e ASI, levou sete anos para cruzar o sistema solar - um lembrete de que grandes conquistas tecnológicas exigem paciência, cooperação e visão de longo prazo.
Vinte e um anos depois, as parcerias que moldam o futuro já não atravessam planetas, mas redefinem quem controla a inteligência artificial que passará a habitar nossos dispositivos, corpos e lares.
Apple fecha parceria com Google e adota Gemini como base de sua IA
Está oficial: a Apple escolheu o Google como parceiro para fornecer os modelos fundamentais que sustentarão recursos de IA como a Siri. O acordo plurianual, estimado em cerca de US$ 1 bilhão segundo reportagens anteriores, marca uma inflexão estratégica para uma empresa historicamente obcecada por integração vertical de cadeia, de ponta a ponta.
“Após uma avaliação cuidadosa, determinamos que a tecnologia do Google oferece a base mais sólida para os modelos fundamentais da Apple”, disseram as empresas em comunicado conjunto.
Antes de fechar com o Google, a Apple considerou tecnologias da OpenAI e da Anthropic - um sinal de que a corrida pela IA generativa está forçando até os players mais autossuficientes a buscar alianças.
A parceria expõe uma realidade desconfortável para a Apple: seus esforços em IA ficaram aquém do esperado. O Apple Intelligence, lançado em 2024, trouxe melhorias incrementais - como busca em fotos e resumos de notificações - mas sem o “fator uau” do ChatGPT ou do Gemini. A reformulação profunda da Siri, prometida há anos, foi adiada sucessivas vezes. Agora, a empresa promete uma atualização relevante ainda este ano, impulsionada pela infraestrutura do Google. A Apple afirma que manterá seus padrões de privacidade, com processamento no dispositivo ou em ambientes rigorosamente controlados - mas, agora, em uma base terceirizada, o que inevitavelmente cria dependências e brechas de confiança.
Há também uma dimensão concorrencial relevante que se consolida neste último ato das empresas. Em agosto de 2024, um juiz federal americano decidiu que o Google agiu ilegalmente para manter seu monopólio em buscas no Safari (navegador nativo do iPhone), ao pagar bilhões à Apple por posições de pesquisa padronizadas em seus dispositivos.
A nova parceria em IA, embora não exclusiva, reforça essa simbiose entre as duas gigantes e levanta a pergunta: até onde vai a colaboração antes de se transformar em concentração de mercado? Ou ainda: quais outros projetos em conjunto estão por vir?
A Apple, que construiu sua identidade sobre independência e controle, agora depende do Google para não se tornar irrelevante na era da IA.
Amazon adquire Bee e avança nos wearables de IA
A Amazon apresentou na CES sua mais recente aquisição: o Bee, um dispositivo vestível de IA que pode ser usado como broche ou pulseira. Diferentemente da Alexa, focada no ambiente doméstico, o Bee foi concebido para acompanhar o usuário fora de casa - gravando conversas, reuniões, aulas, e atuando como um assistente pessoal contextual.
A IA aprende com essas interações e integra-se a serviços como Gmail, Google Agenda e Apple Health, construindo ao longo do tempo um verdadeiro “grafo de conhecimento” sobre o usuário.
A estratégia da Amazon, nas entrelinhas desta aquisição, é transparente: capturar dados e contexto em todos os momentos da vida do consumidor.
“O Bee entende o que acontece fora de casa, e a Alexa entende o que acontece dentro de casa. É claro que haverá um futuro em que essas duas coisas se unirão”, afirmou Maria de Lourdes Zollo, cofundadora da Bee.
Daniel Rausch, vice-presidente da Amazon Alexa, também reafirmou a posição de que a convergência entre os sistemas é apenas questão de tempo - e que o produto disso, será o nascimento de um assistente de IA onipresente, capaz de acompanhar o usuário 24 horas por dia.
O movimento também responde a fracassos anteriores, tendo em vista que os wearables com Alexa embarcada, como fones e óculos, não conseguiram competir com AirPods e Ray-Ban Meta. Neste cenário, o Bee surge com uma proposta distinta: um dispositivo discreto, voltado à memória e à produtividade pessoal, e não ao entretenimento - se assemelhando muito ao Plaud Note.
Entre os primeiros casos de uso de clientes reais estão estudantes, idosos com dificuldades de memorização e profissionais que preferem não tomar notas manualmente. A aposta da Amazon é que a combinação entre gravação contínua, transcrição e IA contextual criará uma proposta de valor em um mercado que ainda não foi totalmente dominado - mas seu sucesso dependerá de superar preocupações legítimas sobre privacidade e vigilância permanente.
1X lança “modelo de mundo” para ensinar robôs humanoides
A 1X, fabricante do robô humanoide Neo, apresentou o 1X World Model, um sistema de IA projetado para permitir que robôs compreendam a dinâmica do mundo real e aprendam novas tarefas a partir de vídeos e instruções.
A inovação se trata de um passo relevante rumo à geração de máquinas que não dependerão exclusivamente de programação prévia: o Neo, nesta nova proposta, poderia assistir a um vídeo, receber um comando e, progressivamente, aprender a executar tarefas para as quais não foi treinado originalmente.
Este conceito explorado de “modelo de mundo” é central (e disruptivo) para a próxima geração da robótica. Em vez de programar cada movimento, o robô que tiver este nível de complexidade de aprendizado construirá uma representação interna de como o mundo físico funciona - com a noção real de gravidade, fricção e consequências de ações - e utilizará essa compreensão para generalizar comportamentos.
A promessa é bastante ambiciosa: robôs capazes de aprender sozinhos a “dominar praticamente qualquer coisa que você possa imaginar”.
É preciso, contudo, calibrar as expectativas. O modelo atual não permite que o Neo execute uma tarefa imediatamente após assistir a um vídeo. Os dados são coletados, enviados ao modelo de mundo e redistribuídos à rede de robôs, aprimorando gradualmente sua compreensão. Trata-se de um processo iterativo, não mágico.
Ainda assim, a direção é inequívoca: robôs humanoides que ocuparão lares, escritórios e fábricas precisarão aprender continuamente em ambientes abertos e imprevisíveis. O 1X World Model é apenas uma peça desse quebra-cabeça - e a corrida para resolver as demais está apenas começando.
Musk promete abrir o algoritmo do X em uma semana
Elon Musk anunciou que o X tornará seu algoritmo de recomendação código aberto em sete dias, incluindo o sistema que define quais postagens e anúncios são exibidos aos usuários. “Isso será repetido a cada quatro semanas, com notas detalhadas para desenvolvedores”, escreveu Musk na plataforma.
Se cumprida, a promessa representaria um nível de transparência inédito entre grandes redes sociais, permitindo que pesquisadores, reguladores e usuários compreendam como o feed é estruturado.
O anúncio, contudo, ocorre em meio a crescentes pressões regulatórias sobre as redes sociais em geral. Recentemente, autoridades europeias intensificaram a fiscalização sobre desinformação e moderação de conteúdo, com a França solicitando acesso ao algoritmo no contexto de investigações sobre manipulação e o Reino Unido ameaçando bloquear serviços que descumpram sua legislação interna.
As ferramentas de geração de imagens do Grok, chatbot do X, também foram criticadas após uma onda de conteúdo sexualizado, o que levou a Indonésia a bloquear o acesso ao sistema. Nesse contexto, a abertura do algoritmo pode ser tanto um gesto genuíno de transparência quanto uma estratégia para antecipar exigências regulatórias.
Ao fim, essa promessa de abrir o algoritmo parece surgir como resposta direta a este ambiente cada vez mais hostil ao X. Entre bloqueios internacionais, investigações sobre manipulação informacional, críticas à moderação e controvérsias envolvendo o próprio Grok, a plataforma enfrenta um desgaste midiático crescente de credibilidade institucional.
Nesse cenário, a retórica do “código aberto” funciona também como ferramenta política: um gesto simbólico para sinalizar cooperação, reduzir pressões regulatórias e reposicionar a empresa no debate público. A questão central deixa de ser se o código será publicado, e passa a ser se essa abertura terá impacto real sobre práticas, governança e responsabilidades da empresa.










