O Valor do “Feito à Mão”
Tenho pensado cada vez mais sobre isso: produzir deixou de ser diferencial. Hoje, texto, imagem, música e vídeo podem ser gerados em segundos, numa escala e volume jamais vistos. E, quando metade do conteúdo da internet passa a ser criado por máquinas, algo muda. O valor sai da quantidade produzida e migra para o intelecto de quem se deu ao trabalho de fazer.
Aquilo que é feito por um humano dedicado começa a se tornar raro. E raridade, como sempre, cria valor. Não vejo isso como um problema da tecnologia. Pelo contrário. A IA faz rápido, faz bem, faz de forma eficiente. Mas ela não “pensa”. Quando eu (ou você) crio de verdade, existe envolvimento. Existe tempo, atenção e raté mesmo risco envolvido. Existe uma identidade. E isso começa a importar mais do que um texto perfeito, mas vazio.
Walter Benjamin chamava isso de “aura”. A aura surge quando algo carrega presença, contexto e originalidade. A reprodução em massa não destrói a obra, mas esvazia essa camada invisível que conecta quem cria com quem consome. A inteligência artificial levou a reprodução a um novo patamar. E, ironicamente, devolveu valor ao que tem aura.
Num mundo de conteúdos impecáveis, o imperfeito ganha força. Num ambiente de textos corretos, aquele que carrega “vida” se destaca. Quando tudo soa genérico, que tem cores pastéis, aquilo que tem voz própria grita. Não por ser tecnicamente superior, mas por ser simplesmente humana.
O “feito à mão”, pra mim, deixou de ser nostalgia e virou diferencial. É a escolha consciente de não delegar tudo, mas sim de assumir autoria (com seus bônus e ônus). De responder pela ideia, pelo argumento, pelo silêncio entre as palavras. É decidir não viver no modo automático.
Tenho a sensação de que, muito em breve, não vamos perguntar apenas “isso é bom?”. Vamos perguntar “isso é humano?”. Quem fez? Por que fez? A tecnologia vai continuar avançando. Mas quanto mais ela exponencializa o ordinário, mais relevante fica o que é extraordinário.
Talvez o verdadeiro luxo do futuro não seja acesso, nem velocidade. Talvez seja a dedicação humana de quem teve a intenção de chegar àquele produto final. Isso não se automatiza. E exatamente por isso, tende a valer cada vez mais.



