A IA vai Salvar ou Afundar os Países Emergentes?
A janela para os emergentes capturarem valor na cadeia de IA está aberta. Mas janelas, como sabemos, fecham.
Recentemente, o Banco Mundial publicou o que é, até o momento, a avaliação mais abrangente sobre o que a inteligência artificial significa para os países em desenvolvimento. O título do relatório, “A Promessa da Inteligência Artificial”, já antecipa a leitura dominante da instituição: a IA poderia permitir que economias emergentes realizem em uma década o que, sem ela, levaria um século. A velocidade de difusão sustenta o otimismo, porque a máquina a vapor levou oitenta anos para alcançar países de renda mais baixa, a eletricidade levou quarenta, a internet levou vinte, e a IA generativa, medida pelo tráfego do ChatGPT, atingiu metade do seu volume global em países de renda média em menos de seis meses. Nenhuma tecnologia de propósito geral na história se disseminou tão rápido para tantos lugares ao mesmo tempo.
Porém, do outro lado do debate, um estudo do Citi Research publicado semanas antes chega a uma conclusão que aponta na direção oposta: a IA tende a aprofundar, e não a reduzir, a distância de crescimento entre economias desenvolvidas e emergentes ao longo da próxima década, porque apenas um grupo restrito de países em desenvolvimento possui as condições estruturais necessárias para transformar a tecnologia em produtividade real, enquanto a maioria enfrenta obstáculos de infraestrutura, energia, conectividade e qualificação que nenhum modelo de linguagem, por mais avançado que seja, consegue resolver sozinho.
A tensão entre essas duas leituras é, em si mesma, a análise mais honesta que se pode fazer sobre o momento, porque ambas estão certas, e a diferença entre uma e outra não é de opinião em si, mas de premissa. O Banco Mundial descreve o que a IA pode fazer se os governos agirem com velocidade para fechar as lacunas que impedem sua adoção. O Citi, do outro lado, descreve o que provavelmente acontecerá se eles não agirem. São dois cenários igualmente plausíveis, separados não pela tecnologia, que está disponível para todos, mas pelas decisões políticas, institucionais e de investimento que cada país tomar nos próximos anos. A IA, nesse sentido, funciona como um amplificador, onde quem tem infraestrutura, energia, conectividade e capital humano necessário para o desenvolvimento será amplificado para cima; quem não tem será amplificado para baixo, porque a distância entre quem adota e quem não adota cresce na mesma velocidade com que a tecnologia avança.
Os números do relatório do Banco Mundial ajudam a dimensionar essa dinâmica. Nos países de renda alta, 14,2% dos empregos existentes estão em risco direto de automação pela IA generativa, um dado que reflete a alta concentração de funções cognitivas e administrativas que os modelos de linguagem conseguem executar com uma competência que cresce mais a cada dia. Nos países de renda média e baixa, esse risco cai para 4,5%, porque a estrutura ocupacional dessas economias ainda depende fortemente de trabalho manual, presencial e em setores que a IA, pelo menos na sua forma atual, não consegue automatizar. Ao mesmo tempo, 16,2% dos empregos em economias emergentes poderiam ter ganhos significativos – ou seja, ser amplificados – de produtividade com a IA, um número surpreendentemente próximo dos 18,7% projetados para países ricos. Em outras palavras, segundo o Banco Mundial, os países em desenvolvimento têm menos a temer e quase tanto a ganhar quanto os desenvolvidos, desde que consigam criar as condições para que esse ganho se materialize.
E é nesse “desde que” que reside toda a complexidade da questão, porque as condições necessárias não são triviais. O próprio relatório reconhece que, na África Subsaariana, quase um terço das escolas rurais não tem eletricidade confiável e mais de dois terços não têm acesso estável à internet. Sem energia e sem conectividade, a promessa da IA permanece exatamente isso: uma promessa. O diretor do relatório resumiu o dilema com uma clareza que é até óbvia: “a janela para acertar é estreita”, o que significa que a oportunidade existe, mas tem prazo de validade, porque enquanto os países emergentes discutem como adotar a IA, os países que já a adotaram estão acumulando vantagens que se tornam progressivamente mais difíceis de alcançar.
É nesse contexto que o Brasil ocupa uma posição que revela-se extraordinariamente privilegiada, e é justamente por isso que a possibilidade de desperdiçá-la é tão preocupante. O país reúne, simultaneamente, um conjunto de ativos estratégicos que pouquíssimas nações no mundo possuem na mesma combinação. O primeiro é energético: o Brasil tem uma das matrizes mais limpas do planeta, com predominância de fontes renováveis, exatamente o tipo de energia que data centers de IA demandam em volumes crescentes e que se tornou fator decisivo na escolha de onde construir infraestrutura de computação. O segundo é mineral: o Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China, minerais que são insumos indispensáveis para semicondutores, turbinas eólicas, veículos elétricos, sistemas de defesa e praticamente toda a cadeia de hardware que sustenta a revolução da IA. O terceiro é geopolítico: em um mundo que se fragmenta em blocos tecnológicos, o Brasil mantém uma posição de neutralidade relativa entre Estados Unidos e China que o torna parceiro potencial de ambos os lados, em vez de refém de qualquer um deles. E o quarto é demográfico: com mais de 210 milhões de habitantes e uma população digitalmente ativa, o país oferece escala de mercado para qualquer tecnologia que consiga penetrá-lo.
O problema, e é aqui que a análise se torna desconfortável, é que o Brasil possui esses ativos mas, até o momento, fez muito pouco para convertê-los em posição real dentro da cadeia de valor da IA. O país detém 23% das reservas globais de terras raras, mas produz menos de 1% da extração mundial. Não possui cadeias significativas de separação, refino ou manufatura desses minerais. Entre 2017 e 2023, não arrecadou um centavo em royalties de terras raras, apesar da magnitude das reservas. O Projeto de Lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos foi aprovado na Câmara em maio de 2026, mas perdeu força no Senado e ficou para depois do recesso, preso a disputas políticas que nada têm a ver com a urgência estratégica do tema. Enquanto isso, a China controla cerca de 60% da extração global e quase 90% do refino, uma dominância que foi o resultado de décadas de estratégia nacional deliberada. O Brasil, que poderia ser a alternativa natural a essa concentração, observa a corrida da janela, exatamente como no, que cunhamos, paradoxo da janela do avião: de dentro, tudo parece se mover devagar, mas o painel indica 900 quilômetros por hora.
O que o relatório do Banco Mundial e o estudo do Citi, lidos juntos, dizem ao Brasil é algo que qualquer líder empresarial reconhece em seus próprios negócios: oportunidade sem execução é apenas potencial que expira. O país tem a energia que a IA precisa, os minerais que os chips exigem, a posição geopolítica que o mundo disputa e o mercado que justifica o investimento. O que não tem, até agora, é a velocidade institucional para transformar esses ativos em posição antes que a janela se feche. O BNDES prepara, para este ano, linhas de financiamento de cinco bilhões de reais para a cadeia de minerais estratégicos. Investimentos privados de 2,2 bilhões de dólares estão projetados para terras raras entre 2025 e 2029. São movimentos na direção certa, mas em um ritmo que contrasta com a velocidade do mundo que o cerca.
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Assim, para quem lidera negócios no Brasil e acompanha essas transformações, a leitura é de que a IA não vai esperar o Brasil decidir o que fazer com seus ativos. Se o país investir em infraestrutura de energia, conectividade, educação digital e processamento de minerais estratégicos com a urgência que o momento exige, pode se posicionar como um dos poucos emergentes capazes de capturar valor real na cadeia global de inteligência artificial, não apenas como consumidor de modelos desenvolvidos em outros países, mas como fornecedor de insumos que esses países precisam para construir os seus. Se não investir, ou se investir no ritmo em que tem investido, assistirá à janela se fechar com a mesma inevitabilidade com que se fechou para países que tinham petróleo e não construíram indústria, que tinham terras agricultáveis e não desenvolveram tecnologia agrícola, que tinham tudo, menos a decisão de usar o que tinham.
A IA é, ao mesmo tempo, o maior acelerador e o maior separador de destinos econômicos que o mundo já produziu. Para qual lado o Brasil será empurrado depende menos da tecnologia e mais de uma pergunta que só a liderança do país pode responder: vamos usar o que temos, ou vamos, mais uma vez, deixar o cavalo selado passar?




