Uma Dose de Motivação para o Empresário Brasileiro
O Brasil exige paciência. Mas quem paga o pedágio encontra um mercado que poucos oferecem.
No mês passado, participei de um jantar promovido pelo Mercado e Opinião onde estavam reunidos alguns dos maiores empresários que operam no Brasil. A conversa, como quase sempre acontece quando executivos de peso se encontram em ambientes informais, gravitou rapidamente para a mesma pergunta que assombra, irrita e fascina qualquer pessoa que investe ou pretende investir neste país: o Brasil é uma terra de oportunidades ou um “espanta empresas”? A resposta que ouvi naquela mesa, ao longo de quase três horas de conversa, não foi nem uma coisa nem outra. Foi as duas. E é justamente nessa ambiguidade, que não é contradição, mas sim a natureza real do mercado brasileiro, que reside a análise mais honesta que se pode fazer sobre o ambiente de negócios do país.
O rótulo de “espanta empresas”, obviamente, não nasce do nada. O sistema tributário brasileiro, mesmo em período de transição após a aprovação de uma reforma, continua sendo um labirinto que exige estruturas jurídicas robustas e uma paciência que poucos mercados do mundo demandam. A insegurança jurídica, os gargalos logísticos e a burocracia regulatória são obstáculos reais, documentados, mensuráveis. Negar isso seria desonesto. Mas o erro, e esse foi o ponto que mais ecoou em mim naquela conversa, é tratar a complexidade como um ponto final, quando ela funciona, na prática, como um pedágio. Um pedágio caro, demorado e muitas vezes irritante, mas que, uma vez pago, dá acesso a algo que quase nenhum outro mercado do mundo oferece na mesma escala: mais de 210 milhões de consumidores com uma alta propensão ao consumo, em um dos dez maiores PIBs do planeta, com setores inteiros ainda subexplorados.
Para além das informalidades, os números confirmam que os grandes players globais já fizeram essa mesma conta que estamos fazendo. Dados da OCDE posicionam o Brasil como o terceiro maior destino de Investimento Direto Estrangeiro do mundo, atraindo dezenas de bilhões de dólares por ano. A China, cujo pragmatismo econômico não costuma deixar espaço para sentimentalismos, retornou ao topo do ranking de investimentos no país, concentrando bilhões em energia limpa, mineração e eletromobilidade – isso é muito claro, uma vez que saímos nas ruas e o carro que mais vemos é o BYD Dolphin.
Se o Brasil fosse o ambiente inviável que a alcunha de “espanta empresas” sugere, o capital mais pragmático do mundo não estaria disputando espaço aqui com a intensidade que disputa. O dinheiro inteligente não vai aonde o risco não compensa. E ele está vindo.
Talvez nenhum setor ilustre melhor essa lógica de oportunidade camuflada por gargalos do que a aviação civil. Os números de superfície, que vemos nos jornais à noite, já são impressionantes: em 2025, os aeroportos brasileiros transportaram 129,6 milhões de passageiros, o maior volume da história, superando pela primeira vez a marca de cem milhões no mercado doméstico. Nos primeiros cinco meses de 2026, o país já movimentou cerca de 54,9 milhões de passageiros, novo recorde para o período, com crescimento em todas as cinco regiões. A tarifa média caiu mais de 10% em termos reais nos últimos três anos, e mais da metade das passagens vendidas em 2025 custaram menos de quinhentos reais. São conquistas reais, que refletem anos de investimento e expansão. Mas é quando se olha para o que está por baixo desses recordes que a dimensão verdadeira da oportunidade aparece.
De acordo com o que eu ouvi do próprio CEO da Latam no jantar, estima-se que apenas vinte milhões de brasileiros viajem de avião com alguma regularidade. Isso, em um país de 210 milhões de habitantes e dimensões continentais, onde a alternativa terrestre entre capitais pode significar dias de viagem, quer dizer que a esmagadora maioria da população ainda depende exclusivamente do transporte rodoviário ou simplesmente não se desloca entre estados.
O brasileiro faz, em média, 0,5 viagens aéreas por ano. Nos Estados Unidos, esse número supera 2,5. A Airbus projeta que o tráfego aéreo brasileiro deve crescer 145% até 2044, saltando de 108 milhões para 266 milhões de passageiros anuais, com as viagens per capita dobrando de 0,5 para 1,1. E mesmo esse cenário otimista ainda deixaria o Brasil abaixo do padrão ouro, o que significa que, mesmo após décadas de crescimento acelerado, o teto do mercado continuaria distante.
Essa lacuna entre a realidade e o potencial não é um sinal de fraqueza. É exatamente o que o mercado chama de demanda reprimida, e é precisamente onde grandes oportunidades de investimento residem. A interiorização dos voos regionais, a entrada de novas companhias aéreas de baixo custo, a ampliação da infraestrutura aeroportuária em cidades médias e a redução contínua das tarifas têm o potencial de transformar a aviação comercial no Brasil de um serviço que atende uma fração privilegiada da população em um meio de transporte de massa, como já aconteceu nos Estados Unidos e na Europa nas décadas que se seguiram à desregulamentação do setor.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do país já destina 1,8 bilhão de reais a obras em 31 aeroportos em 16 estados, priorizando justamente os regionais. Os investimentos privados no setor somaram 2,6 bilhões em 2025. O movimento já começou. A questão é que ele está apenas começando.
E a aviação, embora seja talvez o exemplo mais visual dessa dinâmica, está longe de ser o único. O mesmo padrão de oportunidade estrutural camuflada por gargalos aparentes se repete em múltiplos setores da economia brasileira. O saneamento básico, impulsionado pelo Marco Legal aprovado em 2020, abriu um mercado multibilionário de concessões para universalizar serviços que antes simplesmente não existiam para quase metade da população. A transição energética encontra no Brasil um dos terrenos mais férteis do planeta, com uma matriz que já é predominantemente renovável e com capacidade de expansão em solar, eólica e hidrogênio verde que poucos países conseguem igualar.
A infraestrutura logística, que conecta um território maior que a Europa continental com rodovias, ferrovias e hidrovias ainda incipientes em relação ao potencial, demanda aportes de capital na casa das centenas de bilhões ao longo das próximas décadas. Em cada um desses setores, o diagnóstico é o mesmo: o problema é real, mas o problema é também a medida exata da oportunidade. Onde falta cobertura, há mercado. Onde falta infraestrutura, há contrato. Onde falta serviço, há demanda.
Entre no canal Entrelinhas no WhatsApp e siga nosso Instagram: informação rápida, em tempo real, que tangibilizam as transformações.
O ponto central, e que talvez resuma melhor o que ouvi naquela mesa de jantar, é que o Brasil não é um país fácil de operar. Nunca foi, e provavelmente não será no curto prazo. Mas existe uma diferença fundamental entre um mercado difícil e um mercado sem oportunidade, e confundir as duas coisas é o erro mais caro que um líder empresarial pode cometer. A complexidade do Brasil funciona, em certo sentido, como a infraestrutura logística da Amazon: é uma barreira que exige investimento de longo prazo, paciência e escala, mas que, uma vez superada, cria um fosso competitivo que protege quem chegou primeiro. As empresas que aceitam o pedágio e entram encontram um mercado com potencial de crescimento que mercados maduros já não oferecem. As que olham de fora e veem apenas o labirinto perdem a chance de acessar o que há do outro lado.
Para que esse potencial se realize com a velocidade que o país merece, além de nós, empresários, o Estado precisa fazer sua parte: simplificar regras, garantir segurança jurídica e pavimentar o caminho institucional que ainda falta. O dinamismo do mercado e o desejo de consumir o brasileiro já possuem. O que falta, em muitos casos, é que o sistema deixe de ser o obstáculo que o próprio sistema criou. Mas mesmo com todos os “poréns”, e havia muitos naquela conversa, nenhum dos empresários ao redor daquela mesa falava em ir embora. Falavam em crescer. Falavam em investir mais. Falavam como quem já havia pago o pedágio e sabia que o que encontrou do outro lado justificava cada centavo. O Brasil não é, nunca foi e provavelmente nunca será um oceano calmo. Mas é, para quem tem a maturidade de navegá-lo, um dos maiores oceanos azuis do mundo.




