Bom dia! Hoje é 24 de setembro. Neste mesmo dia, em 1852, o engenheiro francês Henri Giffard decolava de Paris a bordo de um dirigível movido a vapor e percorria 27 quilômetros a dez quilômetros por hora, completando o primeiro voo controlado da história. A façanha pode parecer modesta ao lado de um jato moderno, mas a inovação de Giffard não foi voar, afinal balões já faziam isso havia décadas. Foi controlar a direção. Antes dele, quem subia ao céu ia para onde o vento mandava. Depois dele, quem subia ao céu decidia para onde queria ir. A diferença entre um balão e um dirigível não é a altura. É o leme.
Cento e setenta e quatro anos depois, a pergunta mais importante da economia digital é exatamente a mesma que Giffard respondeu naquela tarde em Paris: quem controla a direção? As notícias de hoje giram, todas elas, em torno dessa disputa pelo leme. O YouTube anuncia que os usuários poderão criar seus próprios algoritmos, descrevendo em linguagem natural o que querem ver, e, ao fazer isso, transfere uma parcela do poder que o definiu como plataforma nas mãos de quem, até ontem, era apenas passageiro. A Microsoft investe mais de US$ 10 bilhões em data centers no Oriente Médio em plena guerra com o Irã, porque decidiu que a direção estratégica não muda por causa do vento, mas muda apesar dele. E Altman e Amodei sobem ao púlpito do Conselho de Segurança da ONU para pedir que alguém, por favor, construa um leme para a inteligência artificial antes que ela voe rápido demais para ser controlada, enquanto Trump, na mesma cidade, chama o pedido de “esquema globalista” e se recusa a ceder o controle a quem quer que seja. Em todos os casos, a tecnologia não é o problema. O problema é quem dirige.
O YouTube Muda a Mão do Controle do Algoritmo
Durante quinze anos, a relação entre o YouTube e seus dois bilhões de usuários funcionou sob um contrato implícito que ninguém assinou, mas todos aceitaram: você assiste, e nós decidimos o que você vê a seguir. O algoritmo de recomendação, que é a caixa-preta que determina quais vídeos aparecem na sua página inicial, em qual ordem e por quanto tempo, era o ativo mais valioso da plataforma, mais do que qualquer criador individual, mais do que qualquer vídeo viral. Era o leme. E pertencia exclusivamente ao YouTube. A partir desta semana, isso mudou. No evento Made On YouTube, a empresa anunciou que os usuários poderão criar feeds personalizados escrevendo, em linguagem natural, o que querem que o algoritmo recomende, e é o Gemini quem montará o feed de acordo com a descrição do usuário, fixando-o como uma aba na página inicial.
A mudança pode parecer incremental, sendo vista, por muitos, como mais um recurso, mais uma aba. Mas, nas Entrelinhas, ela altera a dinâmica que sustenta toda a economia de atenção. Isso porque quando o algoritmo decide o que você vê, a plataforma controla sua atenção e a vende a anunciantes. Mas, quando você descreve o que quer ver e a IA monta o feed sob medida, a plataforma deixa de ser um tipo de curadora e passa a ser uma serviçal, de modo em que o valor, com isso, migra da capacidade de decidir para sua capacidade de executar ações do usuário.
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É a mesma transição que o X iniciou ao abrir o código de seu algoritmo, só que o YouTube vai mais longe: não apenas mostra como o algoritmo funciona, mas permite que o usuário o reescreva. Diante disso, a pergunta que essa mudança levanta é se, ao entregar o leme, o YouTube ganha ou perde. A resposta mais provável é que ganha, porque o usuário que constrói seu próprio feed tem mais motivos para abrir o aplicativo do que o que recebe um feed genérico. Mas a resposta mais incômoda é que, se o usuário pode descrever o que quer ver, o poder de curadoria que justificava as taxas de publicidade premium da plataforma começa a se diluir. E quem paga menos pelo anúncio é o anunciante que percebe que o público já não está onde o algoritmo o colocava.
Além disso, o pacote anunciado pelo YouTube vai além dos feeds e revela uma transformação mais ampla, onde a empresa também aprensou ferramentas de edição de vídeo por IA, onde o criador descreve o que quer e o sistema monta o corte desejado; miniaturas e títulos gerados automaticamente pelo Gemini com base no conteúdo do vídeo; e o Ask YouTube transformado em assistente de compras que organiza comparações de produtos e guia o consumidor até a decisão - tudo isso dentro da plataforma, sem sair para o Google, sem abrir outra aba.
Estes novos aníncios são, lidos em conjunto, as peças de uma plataforma que não quer mais ser apenas um repositório de vídeos, mas quer ser o lugar onde se cria, se descobre, se decide e se compra, e onde a IA faz, por baixo de cada etapa, o trabalho que antes exigia horas de edição, minutos de pesquisa ou a paciência de rolar um feed infinito. O YouTube de 2026 não é o YouTube de 2016. É, cada vez mais, uma plataforma de IA que, por acaso, exibe vídeos.
A Microsoft Investe US$ 10 Bilhões numa Região em Guerra
A maioria das empresas, diante de uma guerra ativa na região onde opera, reduziria investimentos, protegeria ativos e esperaria o conflito terminar. A Microsoft fez o oposto: anunciou que ampliará para mais de US$ 10 bilhões os investimentos em infraestrutura de nuvem e inteligência artificial nos Emirados Árabes Unidos, na Arábia Saudita, no Catar e no Kuwait até 2030, além de US$ 400 milhões adicionais em conectividade submarina e terrestre na região. A guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã, que já dura meses e que, como o mundo tem visto, encarece energia, frete e matérias-primas no mundo inteiro, não alterou os planos da Microsoft. Ampliou-os.
A lógica é menos contraintuitiva do que parece quando se olha para o que os países do Golfo oferecem (e para o que buscam). Terras abundantes, energia barata, ambição declarada de diversificar suas economias para além do petróleo e governos dispostos a financiar a transição com cheques que democracias ocidentais não podem emitir.
A própria Dubai, por exemplo, já automatizou integralmente a aprovação de licenças de construção com IA agêntica. Os Emirados mantêm participação na G42, na qual a Microsoft investiu US$ 1,5 bilhão. E a Arábia Saudita compete abertamente com os Emirados por sediar os maiores data centers de IA do mundo. À evidência disso, portanto, para a Microsoft, que precisa expandir sua capacidade de nuvem em ritmos cada vez mais acelerados para atender a demanda da OpenAI e de seus próprios clientes corporativos, o Golfo oferece o que os Estados Unidos e a Europa não conseguem mais oferecer com a mesma velocidade: terreno, energia e aprovação regulatória sem fila de espera.
O detalhe que conecta o investimento ao contexto mais amplo é o conceito de “resiliência digital” que a Microsoft incluiu no anúncio. A empresa está ajudando governos do Golfo a proteger dados críticos contra ataques, inclusive contra ataques que, na prática, podem vir de aliados circunstanciais tanto quanto de adversários declarados. Quando a AWS teve instalações no Bahrein e nos Emirados atingidas durante o conflito, a fragilidade da infraestrutura digital em zonas de instabilidade se tornou tangível. Assim, a Microsoft responde a essa fragilidade não recuando, mas se tornando indispensável, de tal modo que se os governos do Golfo dependem da sua nuvem para operar serviços essenciais, proteger dados e processar IA, o custo de perder a Microsoft é maior do que o custo de qualquer tarifa ou sanção.
É uma lógica bastante clara nos mercados: quem se torna infraestrutura não precisa competir. Precisa apenas garantir que sair custe mais do que ficar.
Os Dois Maiores Rivais da IA Subiram Juntos ao Púlpito da ONU
Sam Altman e Dario Amodei sentaram-se lado a lado diante do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU) nesta quarta-feira e fizeram algo que, numa indústria definida pela competição implacável entre seus líderes, quase não tem precedente: pediram, juntos, que governos participem das decisões sobre o futuro da inteligência artificial. Os CEOs da OpenAI e da Anthropic, que são empresas que disputam clientes, talentos, investidores e a liderança da corrida por modelos de fronteira, alinharam publicamente suas posições sobre a necessidade de padrões globais de segurança, supervisão compartilhada e comunicação rápida de incidentes entre laboratórios e governos com ferramentas de IA. Altman comparou o momento ao da energia nuclear: “Houve momentos em que países que competem entre si e nem sempre se gostam conseguiram se unir em torno de interesses compartilhados diante de uma poderosa nova tecnologia. Acreditamos que este deve ser um desses momentos.”
A presença de Clément Delangue, CEO da Hugging Face, na mesma sessão acrescentou ao debate o peso de quem viveu, na prática, o risco que Altman e Amodei descrevem na teoria. A Hugging Face foi alvo do ataque autônomo de agentes de IA que cobrimos em julho, que foi, também, o incidente que levou a OpenAI a desenvolver um kill switch e que abriu o debate sobre desaceleração que tomou conta dos noticiários nas últimas semanas.
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Delangue, contudo, recusou o papel de vítima que o palco lhe oferecia. Em contraposição, ele alertou contra “narrativas baseadas no medo” e disse, talvez, a frase mais equilibrada da sessão: “Fomos atacados por IA, mas, mais importante, nos defendemos com IA.” É a posição de quem entende que o risco é real, mas se recusa a deixar o pânico definir a resposta, uma distinção que é exatamente a que separa a prudência da histeria.
A contradição que paira sobre a sessão inteira, porém, é a que conecta cada seção desta edição e cada edição das últimas semanas deste Entrelinhas: os mesmos executivos que pedem coordenação global para conter os riscos da IA são os que lideram empresas que investem dezenas de bilhões para torná-la mais poderosa, mais autônoma e mais difícil de controlar. Altman, por exemplo, negocia US$ 250 bilhões em garantias com a Nvidia e prepara um IPO trilionário. Amodei, por sua vez, protocola o maior IPO da história enquanto publica ensaios sobre desaceleração. E Trump, que horas antes do discurso de ambos classificou o pedido de coordenação como um “esquema globalista”, articula uma cúpula com Xi Jinping onde a IA é a peça central da negociação.
A sessão na ONU foi, portanto, menos um momento de consenso e mais um espelho, onde cada participante disse o que precisava dizer para proteger sua posição. Altman e Amodei pedem regras porque preferem escrevê-las a ter regras escritas por outros. Trump rejeita regras porque não aceita que outros as imponham. E Delangue defende equilíbrio porque sabe que, se o pânico vencer, o código aberto que sustenta a Hugging Face será o primeiro a ser regulado.
Enfim, Giffard provou em 1852 que controlar a direção era possível. A sessão na ONU provou, em 2026, que saber para onde ir é outra conversa inteiramente diferente.





