Vender Vai Ficar Mais Difícil Antes de Ficar Mais Fácil
Há poucas mudanças na história do marketing tão profundas quanto a que está acontecendo agora. E o melhor termômetro disso não é uma startup de garagem nem uma big tech tentando se reinventar. É o próprio Google. Quando a empresa que construiu um império em cima de palavras-chave começa a liderar a transição para um mundo onde palavra-chave perde relevância, você sabe que não estamos falando de moda passageira. Estamos falando de mudança estrutural.
Durante décadas, o marketing digital girou em torno de uma lógica simples: ser encontrado. Disputar atenção em páginas de resultados. Ganhar cliques. O Google foi o grande orquestrador desse modelo. Criou o mercado de search, educou empresas a pensar em SEO, transformou palavras em ativos estratégicos. Todo mundo aprendeu a jogar esse jogo. E muita gente ficou muito grande jogando esse jogo.
Só que o próprio Google está empurrando o mercado para fora dele. Ao investir pesado em agentes inteligentes, respostas diretas, experiências sem clique e jornadas que pulam a etapa do “procurar”, a empresa está, na prática, acelerando o fim da lógica que a tornou dominante. Parece contraditório, mas não é. É sobrevivência. Quem lidera uma mudança desse tamanho não pode ficar refém do próprio legado.
O que estamos vendo é a transição do “search” para o “buy”. A pessoa não precisa mais procurar, comparar e decidir manualmente. Ela delega isso a um agente que entende contexto, histórico, preferências e executa a compra. Quando isso acontece, palavra-chave vira um artefato do passado. O agente não “pensa” em termos de termos digitados. Ele pensa em intenção, cenário, momento de vida. Ele não navega por páginas. Ele decide.
É por isso que falo que estamos entrando na era do marketing de contexto. Não se trata mais de disputar posição em resultados de busca, mas de ser a escolha lógica dentro de um contexto específico. O valor deixa de estar em aparecer e passa a estar em ser selecionável por sistemas inteligentes que atuam como compradores. Isso muda completamente o centro de gravidade do marketing. Muda como marcas estruturam seus dados, como descrevem seus produtos, como organizam suas ofertas e até como definem seu posicionamento.
Quando o Google passa a oferecer experiências que já entregam respostas prontas, recomendações diretas e fluxos cada vez mais automáticos de decisão, ele está ensinando o mercado a não depender mais de cliques. E quando ele investe em agentic commerce, ele está ajudando a construir um mundo em que o ato de buscar se torna secundário. Parece que o Google está canibalizando o próprio modelo, mas, na prática, está tentando garantir que continuará relevante quando o jogo deixar de ser “quem aparece primeiro” e passar a ser “quem é escolhido automaticamente”.
► Entenda mais sobre Agentic Commerce.
Isso é desconfortável para quem construiu toda a estratégia digital em cima de SEO. É desconfortável para quem mede sucesso por tráfego. Mas é libertador para quem entende que a próxima onda não é sobre ser visto, é sobre ser compreendido por máquinas que tomam decisões em nome das pessoas. O marketing deixa de ser só comunicação e passa a ser infraestrutura de decisão.
Quem entendeu isso mais cedo já está vendendo de um jeito diferente. Não porque abandonou tudo que funcionava antes, mas porque começou a estruturar sua presença digital para um mundo em que palavra-chave perde poder e contexto vira o ativo central. É uma virada silenciosa, mas profunda. E, como quase todas as grandes viradas, quando ficar óbvia para todo mundo, já vai ser tarde para muitos.




