Trump Taxa Chips e Taiwan Responde com US$ 250 Bi, Wikipédia Fecha com Big Techs e OpenAI Investe em Fusão Cérebro-IA
Bom dia! Hoje é 16 de janeiro. Nesta data, em 1969, o estudante tcheco Jan Palach realizou um protesto dramático na Praça Venceslau, em Praga, contra a invasão soviética da Tchecoslováquia. Seu gesto, aos 20 anos, marcou profundamente a sociedade e se tornou um símbolo duradouro da resistência à dominação estrangeira, levantando uma pergunta que segue atual: até onde vai o direito de um povo decidir seu próprio destino?
Passados cinquenta e sete anos, a disputa por soberania mudou de cenário. Saem os tanques e entram os semicondutores. Agora, a dominação é feita por quem controla a produção de chips - e os Estados Unidos acabam de movimentar peças decisivas nesse tabuleiro.
Trump impõe tarifa de 25% sobre chips e Taiwan responde
O presidente Donald Trump anunciou tarifas (14/01) de 25% sobre chips avançados de inteligência artificial, incluindo o H200 da Nvidia e o MI325X da AMD. A medida, baseada em uma investigação de segurança nacional de nove meses, tem escopo restrito - não atinge datacenters, startups ou aplicações de consumo -, mas envia um sinal inequívoco: os EUA querem manter sua política de trazer cada vez mais a produção de semicondutores para dentro de suas fronteiras.
A resposta não demorou. No dia seguinte (15/01), Taiwan assinou um acordo para investir US$ 250 bilhões diretamente na indústria americana de chips, além de US$ 250 bilhões adicionais em garantias de crédito. O movimento representa mais uma vitória estratégica para a política industrial de Trump.
Os números justificam a urgência americana: atualmente, apenas 10% dos semicondutores são produzidos em solo estadunidense, enquanto Taiwan fabrica mais da metade da produção global. A dependência de cadeias de suprimentos estrangeiras, especialmente em uma região sob tensão geopolítica permanente, é reconhecida pelo próprio governo como “risco significativo para a economia e a segurança nacional”. As tarifas funcionam como alavanca de negociação: ao encarecer importações, forçam parceiros comerciais a transferir produção e capital para os EUA - que são o maior polo de inovação do mundo neste setor.
Há, porém, complexidades no caminho. A Nvidia e a AMD não fabricam seus próprios chips e dependem diretamente da taiwanesa TSMC para suas produções, o que limita a margem de manobra das próprias empresas diante das decisões de Washington. Uma outra exigência recente de que chips com destino à China façam escala nos Estados Unidos para testes - o que os submete automaticamente à tarifa de 25% - mostra como medidas regulatórias aparentemente técnicas podem ser usadas como instrumento de pressão geopolítica para a “nacionalização” desses produtores.
A reação das empresas foi cautelosa, como era de se esperar: a AMD declarou que segue as regras americanas de controle de exportações, enquanto a Nvidia preferiu o silêncio. Mais do que uma disputa comercial pontual, o episódio revela uma mudança estrutural. A política industrial dos Estados Unidos passa a interferir diretamente na lógica da globalização tecnológica, redesenhando cadeias de suprimentos e forçando empresas e países a escolherem lados. A guerra por semicondutores já é uma realidade e seus efeitos devem se estender muito além do setor de chips.
Wikipédia celebra 25 anos e fecha parcerias com as Big Techs
Enquanto os Estados Unidos redesenham a geopolítica dos semicondutores, outro pilar da infraestrutura digital global celebra um marco significativo. A Fundação Wikimedia anunciou, como parte das comemorações de 25 anos da Wikipédia, uma série de parcerias comerciais com as maiores empresas de IA do mundo. Além do Google, parceiro desde 2022, a organização revelou acordos com Amazon, Meta, Microsoft, Mistral AI e Perplexity para uso do Wikimedia Enterprise - produto que permite reutilização em larga escala do conteúdo da enciclopédia. Outras parcerias incluem Ecosia, Pleias, ProRata, Nomic e Reef Media.
A relevância permanece impressionante: a Wikipédia se mantém entre os 10 sites mais visitados do mundo, com 65 milhões de artigos em mais de 300 idiomas, que são visualizados 15 bilhões de vezes por mês. Os acordos representam uma resposta pragmática à era da IA generativa. Modelos de linguagem como GPT, Gemini e Claude foram treinados em grande parte com conteúdo da Wikipédia, e frequentemente sem compensação direta. Ao formalizar parcerias comerciais, a Wikimedia garante sustentabilidade financeira e acesso estruturado aos dados, enquanto Big Techs obtêm conteúdo confiável em volume e velocidade adequados às suas necessidades.
“A Wikipédia demonstra que o conhecimento é humano e que o conhecimento precisa de humanos”, afirmou Selena Deckelmann, diretora de produto da Wikimedia. “Especialmente agora, na era da IA, precisamos do conhecimento humano da Wikipédia mais do que nunca.”
A ironia é evidente: a mesma IA que ameaça a relevância da Wikipédia - ao fornecer respostas instantâneas sem que usuários visitem o site - agora paga para acessar seu conteúdo. A enciclopédia livre, construída por voluntários ao longo de um quarto de século, tornou-se base de dados crítica para sistemas que geram bilhões em receita. A relação é simbiótica, mas assimétrica: a Wikipédia precisa das Big Techs para sobreviver; as Big Techs precisam da Wikipédia para parecerem confiáveis. O equilíbrio dessa dependência mútua pode esboçar o futuro do conhecimento verdadeiramente aberto.
OpenAI investe US$ 250 milhões em interface cérebro-computador
Se a Wikipédia representa a infraestrutura do conhecimento coletivo, o próximo movimento da OpenAI aponta para algo mais íntimo: a fusão direta entre mente humana e inteligência artificial.
A OpenAI liderou uma rodada seed (primeira captação formal) de US$ 250 milhões na Merge Labs, startup de interface cérebro-computador, cofundada por Sam Altman. A empresa, avaliada em US$ 850 milhões, propõe conectar “inteligência biológica e artificial” de forma não invasiva, usando moléculas em vez de eletrodos e ultrassom para transmitir informações ao cérebro. Entre os cofundadores estão Alex Blania, da Tools for Humanity (criadora dos orbes World que escaneiam íris), pesquisadores do Caltech e fundadores da Forest Neurotech.
O investimento intensifica a competição de Altman com Elon Musk, cuja Neuralink, avaliada em US$ 9 bilhões, exige cirurgia invasiva para implantação. Mas a visão da Merge Labs vai além de aplicações médicas. A empresa fala em “expandir o que podemos imaginar e criar com o auxílio de inteligência artificial avançada” - linguagem que evoca a fantasia do Vale do Silício de fundir humanos e máquinas: o transumanismo.
A OpenAI, em seu blog, afirmou que os cérebro-computadores “criarão uma maneira natural e centrada no ser humano para que qualquer pessoa interaja perfeitamente com a IA”. O objetivo implícito é transparente: se a Merge Labs funcionar, poderá se tornar o controle remoto para os modelos da OpenAI - um canal direto entre pensamento humano e inteligência artificial.
A circularidade do negócio levanta questões sérias de governança. Altman é CEO da OpenAI, que investe em uma startup da qual ele é cofundador, usando recursos de uma empresa que ele administra para aumentar o valor de outra que ele possui.
Essa não é a primeira vez que a OpenAI já firmou acordos com a Helion Energy (fusão nuclear) e a Oklo (fissão nuclear), ambas ligadas a Altman. A concentração de poder em um único indivíduo - que controla simultaneamente a principal empresa de IA do mundo, uma startup de identidade biométrica e agora uma de interface neural -deveria incomodar reguladores mais do que aparente incomodar.
Por ora, a única resposta é a crença de Altman de que a fusão homem-máquina é o “melhor cenário” para a sobrevivência humana frente à superinteligência. Das tarifas sobre chips à conexão direta entre cérebros e algoritmos, o controle sobre o futuro tecnológico está se concentrando em cada vez menos mãos - e essas mesmas mão, aparentemente, querem controlar até mesmo nossos cérebros…







