SpaceX na Bolsa, Revolut Vale Dois Nubanks, a AWS dos Agentes e a IA que Lê a Jogada
Bom dia! Hoje é 11 de junho. Neste mesmo dia, em 1998, a Compaq pagou US$ 9 bilhões pela Digital Equipment Corporation e fez história: foi a maior aquisição de tecnologia já realizada até então. Na época, a conta parecia óbvia. Junte a maior fabricante de PCs do mundo à dona de uma das engenharias de hardware mais admiradas do planeta e você terá, em tese, uma máquina imbatível.
A história, porém, raramente premia o óbvio. A Compaq nunca soube o que fazer com a DEC, afundou no peso da própria ambição e, quatro anos mais tarde, acabou comprada pela HP. O gigante virou presa, mas serviu como uma lição que envelheceu bem, e que vale a pena ter em mente ao ler as quatro histórias de hoje, porque todas elas são, no fundo, a mesma aposta: empresas colocando cifras astronômicas sobre a mesa na expectativa de dominar o futuro. A pergunta que separa o triunfo do fiasco nunca é quanto se aposta. É se a aposta pode, de fato, ser entregue.
As Três Apostas de Musk para a Estreia do IPO
Há algo quase irracional no clima que cerca a estreia da SpaceX na bolsa, marcada para esta sexta-feira. A empresa ainda queima caixa, grandes IPOs costumam frustrar, e o comportamento de Musk nas redes sociais seria motivo de pânico para o conselho de qualquer outra companhia. Porém, nada disso importa. Os pedidos de compra já superam de longe as ações disponíveis, e há fundos dispostos a despejar US$ 10 bilhões de uma só vez na empresa. O mercado, depois de uma década apanhando de quem apostou contra Musk, simplesmente desistiu de fazê-lo.
Mas vale a pena fazer a pergunta que o entusiasmo abafa: o que, afinal, esses investidores estão comprando? Os banqueiros da operação dizem que uma empresa de quase US$ 1,8 trilhão. Analistas independentes, mais frios, calculam algo entre US$ 825 bilhões e US$ 1,2 trilhão. A diferença, de centenas de bilhões de dólares, não está nos foguetes nem na Starlink, que são negócios sólidos e de margens invejáveis. Está inteira numa única promessa: a de levar data centers para a órbita da Terra e transformar a SpaceX numa potência de inteligência artificial. Em outras palavras, quem compra a ação no topo da faixa não está pagando pelo que a empresa já é, mas apostando no que Musk jura que ela será.
E essa promessa, como temos visto desde a fusão com a xAI em fevereiro, repousa sobre três feitos que beiram o impossível (e que precisam dar certo ao mesmo tempo). A criação de um foguete totalmente reutilizável. Uma fábrica de chips em solo americano, a tal Terafab, num setor em que até gigantes especializadas levam uma década e tropeçam. E a capacidade de fabricar satélites com IA embarcada em apenas dezoito meses, contra os dez anos que o Starlink exigiu. Cada um desses desafios, sozinho, já seria a obra de uma vida. Juntos, formam a aposta de infraestrutura mais audaciosa da era da IA.
Há ainda uma contradição que os potenciais compradores preferem não encarar. Para bancar tamanha escala, a SpaceX já vende capacidade de computação para a Anthropic e o Google, ou seja, para os rivais que pretende superar. Vender pá e picareta durante a corrida do ouro é ótimo negócio, mas levanta a dúvida que assombra todo o setor: o valor da IA vai ficar com quem fornece a infraestrutura ou com quem constrói os modelos? Musk responde do jeito mais “muskiano” possível: pretende ser as duas coisas. É a integração vertical levada ao extremo. E é exatamente aí, como a Compaq aprendeu em 1998, que a ambição costuma esbarrar no mundo real, na física, no calendário e no caixa.
Por Que o Mercado Paga Dois Nubanks por Uma Revolut
Vamos a um pequeno enigma de mercado. Imagine duas fintechs. A primeira tem o dobro de clientes da segunda, fatura quase três vezes mais, lucra mais e empresta muito mais dinheiro. Agora adivinhe qual das duas o mercado avalia em quase o dobro. Se você apontou para a maior, você errou. A resposta é a Revolut, que estuda uma venda de ações capaz de avaliá-la em US$ 115 bilhões, um próximo a avaliação de dois Nubanks, hoje cotado em torno de US$ 60 bilhões depois de uma queda de quase 30% no ano.
À primeira vista, não faz sentido. Nubank e Revolut nasceram da mesma revolução, derrubaram os mesmos bancos empoeirados e conquistaram dezenas de milhões de clientes com a mesma promessa de simplicidade digital. Mas, ao crescer, tomaram caminhos opostos, e é aí que mora a explicação, pois como bem resumiu o BTG Pactual, o Nubank depositou sua aposta no crédito: emprestar é o seu motor. A Revolut, por sua vez, foi para o outro lado, montando uma plataforma que ganha dinheiro com câmbio, pagamentos, assinaturas, investimentos e cripto. O resultado aparece de forma quase poética nos números: três de cada quatro reais que a britânica fatura vêm de serviços; no Nubank, é apenas um de cada sete.
E por que isso muda tudo aos olhos do investidor? Porque crédito é uma faca de dois gumes. Rende muito, mas exige capital pesado, sofre na recessão e tem como sócia inseparável a inadimplência. Já viver de serviços é mais leve, pois carrega menos risco, margens mais estáveis e um cliente que, no caso da Revolut, deixa em média US$ 1.000 na conta, contra US$ 320 no Nubank. O que o mercado está comprando, no fim, não é o presente, mas uma narrativa: a de uma plataforma financeira global que lucra no mundo inteiro sem precisar arriscar o balanço a cada empréstimo. É uma história sedutora, mas resta saber se ela se sustenta, porque, ao contrário do lucro real que o Nubank entrega trimestre após trimestre, a promessa da Revolut ainda terá de provar que sobrevive ao primeiro inverno econômico de verdade.
A AWS Quer Pegar o Unicórnio no Berço
Praticamente toda startup começa com a mesma decisão silenciosa e quase banal: em qual nuvem vou rodar meu produto? Parece detalhe um técnico, mas é uma das escolhas mais grudentas que um fundador faz na vida. E foi exatamente sobre essa escolha que a AWS acaba de agir, com a sutileza de quem oferece um presente. A empresa lançou duas ferramentas de IA gratuitas para startups: uma espécie de consultor virtual, o AWS Startup Advisor, que sugere como montar a arquitetura, cuidar da segurança e controlar os custos da empresa; e um sistema que automatiza a mudança de aplicações de outros servidores, como o Google Cloud, para os servidores da Amazon.
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A palavra-chave aqui é “gratuitas”, e ela não é generosidade. Como admitiu, com honestidade desarmante, a líder de startups da AWS no Brasil, dar essas ferramentas de graça desde o primeiro dia é “parte do combo de estar no ecossistema”, e a meta é não perder a chance de “estar com um unicórnio no futuro”. Traduzindo: a Amazon quer moldar a empresa enquanto ela ainda é um embrião, porque sabe que, depois que o negócio cresce, trocar de nuvem vira um pesadelo caro e arriscado. O agente de IA que hoje ajuda o fundador a economizar é o mesmo que, amanhã, o prende. A gentileza inicial que é, na verdade, a porta de uma jaula confortável.
O lado mais afiado da jogada, porém, é o segundo. A ferramenta de migração foi feita sob medida para roubar clientes da concorrência, tendo em vista que ela arrasta aplicações de outras nuvens e, mais ousado ainda, pode transportar sistemas de IA construídos sobre modelos da Anthropic, do Gemini e da OpenAI direto para o Bedrock, a casa de IA da própria Amazon. É a “guerra contra todos” que o CEO Andy Jassy declarou aos acionistas, agora convertida em produto. E há uma ironia deliciosa no meio disso tudo: entre as integrações oferecidas está o Claude Code, o assistente de programação da Anthropic. Ou seja, a Amazon usa a ferramenta de uma parceira, cujos clientes ela quer, ao mesmo tempo, atrair para o seu próprio território, para conquistar os fundadores de amanhã. No xadrez das nuvens, até o aliado vira peça.
A IA que Lê a Jogada Oito Segundos Antes
Há coisas no futebol que sempre pertenceram ao instinto. O olhar do treinador que pressente o passe antes de ele acontecer, a intuição que nenhuma planilha jamais capturou… Pois é justamente esse território sagrado que o Google decidiu invadir. A empresa anunciou uma parceria com o Palmeiras para levar ao clube o TacticAI, uma inteligência artificial criada pelo DeepMind capaz de prever o desenrolar de uma jogada com até oito segundos de antecedência. Com isso, o Palmeiras se torna o primeiro time da América Latina a usá-la, e, talvez, o primeiro a colocar a intuição de Abel Ferreira para conversar com um algoritmo.
O mais impressionante é que a ferramenta não se limita mais a bolas paradas, como faziam as versões anteriores. Ela agora acompanha os 22 jogadores em movimento, o tempo todo, tratando cada atleta como um ponto numa teia e cada passe, cada corrida, como um fio que conecta esses pontos. A partir daí, a análise de dados do clube pode arrastar virtualmente um zagueiro para outra posição e ver, na hora, como aquilo bagunçaria a defesa adversária. É a velha pergunta do vestiário, “e se a gente tivesse feito diferente?”, respondida antes mesmo de a bola rolar.
Mas seria um erro enxergar nisso apenas uma sofisticação esportiva. O futebol, aqui, é só o laboratório. O próprio Google reconhece que o TacticAI foi feito para operar no escuro, em situações de “observabilidade parcial”, em que nem tudo pode ser medido, isso quer dizer que a cabeça do jogador, por exemplo, segue sendo um mistério. E admite que o que se aprende no gramado pode migrar, como dados, para robótica, jogos e até controle de tráfego. Diante disso, o verdadeiro prêmio dessa parceira para o Google não é vencer um clássico, mas é dominar (e treinar) em sua IAs a arte de tomar decisões em ambientes caóticos, cheios de agentes se movendo ao mesmo tempo, exatamente o desafio que separa a IA de hoje da inteligência que, amanhã, pretende agir no mundo físico ou ser a tão sonha Inteligência Artificial Geral.
Resta, é claro, a pergunta incômoda. Quando o improviso passa a ser previsível, o que acontece com a magia? O TacticAI não vai aposentar nenhum treinador, mas oferece a ele um copiloto que enxerga o que o olho humano não alcança. E talvez seja essa a sua lição mais elegante. Vinte e oito anos atrás, a Compaq apostou que tamanho era sinônimo de vitória e descobriu, da pior forma, que não era. Hoje, do mercado de capitais às nuvens e ao gramado, o jogo virou: não vence mais quem é maior, e sim quem consegue ler, alguns segundos antes dos outros, as entrelinhas de para onde a bola vai rolar.








