Musk une a SpaceX e a xIA e Leva Dados ao Espaço, Escritórios estão sendo Reprogramados e o Novo Banco Central sem Território
Bom dia! Hoje é 3 de fevereiro. Neste mesmo dia, em 1966, a sonda soviética Luna 9 realizava o primeiro pouso suave na Lua, transmitindo as primeiras imagens da superfície lunar para a Terra.
Sessenta anos depois, o espaço deixa de ser destino de exploração científica para se tornar infraestrutura crítica de processamento de dados. Enquanto isso, aqui embaixo, as bases tradicionais de poder, como território, capital físico e moedas soberanas, passam por uma silenciosa mas profunda reconfiguração.
A Empresa de US$ 1,25 Trilhão que Quer Processar o Mundo da Órbita
A fusão entre SpaceX e xAI, anunciada ontem, não é apenas mais uma movimentação corporativa de Elon Musk, mas é a formalização de uma nova fronteira estratégica do nosso mundo moderno: a computação orbital.
A empresa agora combinada, avaliada em US$ 1,25 trilhão, torna-se a companhia privada mais valiosa da história, mas o número impressionante é secundário diante das implicações estruturais dessa integração sem precedentes.
A lógica industrial do negócio é extremamente elegante (e futurista) em sua ambição. Afinal, a SpaceX já domina o acesso ao espaço com custos dramaticamente inferiores aos concorrentes; a Starlink - subsidiária da SpaceX - opera a maior constelação de satélites privados da história; e a xAI desenvolveu modelos de inteligência artificial que competem diretamente com OpenAI e Anthropic.
Ao fundir essas capacidades, Musk cria um ciclo de retroalimentação para todas as suas cadeias produtivas que, agora, estão sob o mesmo guarda-chuva:
Com satélites que transportam cargas de computação, mais especificamente data centers para o espaço - tornando-os mais resistentes em relação a todos os outros que operam em solo terrestre (pois, em órbita, estes irão deter energia solar 24/7 e não sofrerão com atritos ou oxidações físicas);
Com Foguetes que garantem manutenção contínua e o amplo transporte de materiais;
E modelos de IA que otimizam e são beneficiados por toda a operação pois, ao fim, o avanço da IA de Musk é o objetivo real de todas estas movimentações.
A integração com o X, adquirido pela xAI no ano passado, adiciona ainda uma camada de distribuição e coleta de dados em tempo real que poucos concorrentes conseguem replicar.
Ou seja, de acordo com os planos descritos sob um ângulo tecnológico, a proposta é implacável.
Contudo, essa mesma blindagem levanta questões inéditas sobre soberania: quem regula informações armazenadas a 550 quilômetros de altitude? Qual jurisdição prevalece quando o satélite cruza dezenas de países em uma única órbita? A infraestrutura, como sempre, precede a legislação - e Musk sabe disso.
Para concorrentes como Amazon, Google e Microsoft, a fusão representa uma ameaça existencial de longo prazo. Essas empresas dependem de data centers terrestres massivos, com custos energéticos crescentes e pegadas de carbono cada vez mais escrutinadas - algo que é muito mal visto por toda a elite política ocidental.
Se Musk demonstrar viabilidade econômica para computação orbital - alimentada por energia solar abundante e refrigeração natural do vácuo -, o modelo tradicional de cloud computing enfrentará uma alta pressão diante de tamanho avanço pela parte do bilionário.
Assim, caso os planos de Musk deem certo, a corrida do século XXI não será por territórios lunares, mas por supremacia em infraestrutura de processamento. Nasce, portanto, uma nova categoria de ativo para investidores: infraestrutura civilizacional.
O Escritório Não Morreu, Foi Reprogramado
Se no espaço a disputa é por onde processar dados, em terra firme outra transformação muda o que significa ocupar espaço físico. A narrativa de que o home office sepultaria os escritórios corporativos encontra um contraponto muito relevante nos recentes números de São Paulo: com uma absorção de 834 mil metros quadrados em 2025 e valorização agressiva na Faria Lima, com alguns edifícios superando R$ 350 por metro quadrado.
Esses dados, porém (antes que vocês se assustem), não representam um retrocesso ao modelo pré-pandemia, mas revelam, na verdade, um processo de seleção natural.
O que está (e se mantém) realmente em declínio é o espaço genérico, mal localizado e tecnologicamente defasado. O que prospera agora, com esta nova grande demanda, são os imóveis de alto padrão que funcionam como uma extensão da marca corporativa.
A mudança na metragem por funcionário - de 7 para 15 metros quadrados - traduz essa transformação filosófica: o escritório deixou de ser o local onde o trabalho acontece para se tornar o ambiente onde a cultura se manifesta, onde relações se constroem e onde a criatividade colaborativa encontra condições de emergir. Empresas não pagam R$ 290 por metro quadrado para acomodar planilhas de Excel; mas pagam para criar experiências que justifiquem o deslocamento de profissionais que poderiam trabalhar de casa.
Os movimentos de Nubank e Netflix ilustram essa lógica com nitidez. Afinal, como a própria fintech afirma, seu investimento de R$ 2,5 bilhões em escritórios não contradiz sua identidade digital - ao contrário, reconhece que escala exige presença física coordenada.
Da mesma forma, a Netflix quintuplicar sua área em São Paulo, migrando para Pinheiros, sinaliza que produção de conteúdo local demanda infraestrutura que o modelo remoto não comporta. Há, portanto, uma dimensão menos óbvia nessa equação: em um mundo cada vez mais mediado por IA, inovações complexas e transformadoras de verdade ainda exigem certa proximidade humana, troca informal e densidade criativa.
Para investidores imobiliários, a mensagem do mercado é inequívoca: a polarização entre imóveis premium e o restante do mercado deve se intensificar. Fundos expostos a edifícios de padrão inferior enfrentarão um processo de vacância prolongada, enquanto ativos de ponta em localizações estratégicas operarão próximos da capacidade máxima.
A lógica, afinal, é similar à da tecnologia: plataformas ruins não desaparecem, mas tornam-se irrelevantes.
Tether: A Stablecoin que Cobiça o Posto de Banco Central Global
Enquanto Musk reorganiza a infraestrutura de dados e as empresas reconfiguram seus espaços físicos, uma terceira revolução avança silenciosamente nas camadas financeiras do sistema global. Para entendê-la, é preciso primeiro compreender o que uma empresa chamada Tether faz - e por que isso importa.
Em essência, a Tether - maior emissora de stablecoins do mundo - emite o USDT, uma moeda digital cujo valor está atrelado ao dólar americano na proporção de 1 para 1. Cada USDT em circulação corresponde, em tese, a um dólar mantido em reserva pela empresa. Essa aparente simplicidade esconde uma operação de escala monumental: hoje, US$ 187 bilhões em USDT circulam pelo mundo, utilizados por 536 milhões de pessoas.
Para colocar em perspectiva, esse número de usuários supera a população de qualquer país da América do Sul e rivaliza com a base de clientes dos maiores bancos do planeta.
A diferença crucial entre a criptomoeda e o dinheiro convencional, contudo, é que a Tether não é um banco. Não possui agências, não concede empréstimos, não responde a um banco central. Funciona, na prática, como uma infraestrutura monetária paralela, uma espécie de sistema circulatório financeiro que permite a pessoas em qualquer lugar do mundo enviar, receber e armazenar valor em dólares digitais, sem depender de instituições tradicionais.
Para um comerciante na Argentina fugindo da inflação, um trabalhador nas Filipinas enviando remessas à família, ou um empreendedor na Nigéria fechando negócios internacionais, o USDT resolve um problema concreto: acesso ao dólar sem burocracia bancária e censura estatal.
E, diante deste cenário, a Tether, por anos, operou nas margens do sistema, tolerada mas não aceita pelo establishment financeiro. Entretanto, isso está mudando. O lançamento da USAT - uma nova stablecoin em conformidade com as regras federais americanas - marca a tentativa da empresa de sair da zona cinzenta e disputar espaço no coração do sistema. Paolo Ardoino, CEO da Tether, tem aparecido em todos os veículos de mídia relevantes com uma mensagem provocadora: stablecoins são mais transparentes e rastreáveis do que dinheiro físico, e mais seguras do que depósitos em bancos tradicionais.
O argumento tem fundamento técnico. Quando você deposita R$ 100 em um banco, a instituição empresta a maior parte desse dinheiro a terceiros - é o chamado sistema de reservas fracionárias, que funciona bem até que muitos clientes queiram sacar ao mesmo tempo. Já a Tether afirma manter reservas integrais: para cada USDT emitido, existe lastro correspondente. Além disso, como todas as transações em blockchain são públicas, o fluxo de dinheiro pode ser auditado em tempo real. A empresa, como demonstração prática das afirmações do CEO, relata que já congelou bilhões de dólares em fundos ilícitos em cooperação com agências de segurança americanas -algo impossível de fazer com malas de dinheiro vivo.
Muito além de a moeda ser apenas um dólar digital, o que torna a Tether verdadeiramente singular é o que ela faz com os lucros dessa operação. A empresa nos últimos anos acumulou cerca de US$ 24 bilhões em ouro físico (140 toneladas), posicionando-se entre os maiores detentores privados do metal no mundo. Investiu em robótica, adquiriu participação na rede social Rumble, financiou projetos de satélites, data centers e até agricultura. Esse portfólio diversificado não se parece com o de uma fintech; assemelha-se ao de um fundo soberano, daqueles que países como Noruega e Emirados Árabes usam para administrar sua riqueza nacional.
A diferença é que a Tether não representa nenhum país. É, em certo sentido, um banco central privado sem território - emitindo moeda, acumulando reservas, diversificando ativos, tudo sem responder a eleitorado ou parlamento. Howard Lutnick, atual Secretário de Comércio dos Estados Unidos, tornou-se um defensor público da empresa, o que ilustra o prestígio que a Tether conquistou nos círculos de poder.
Ainda sob este império pouco comentado, seu movimento mais recente ampliou ainda mais o escopo de atuação da empresa. A Tether lançou a Qvac, uma plataforma de IA descentralizada com uma premissa ambiciosa: permitir que smartphones simples executem modelos de inteligência artificial localmente, sem depender de assinaturas caras como ChatGPT ou Gemini. A lógica é a mesma que fundamentou o USDT: bilhões de pessoas no Sul Global não têm acesso a serviços que o mundo desenvolvido considera básicos.
Se a visão se materializar, a Tether terá construído algo sem precedente: uma infraestrutura que oferece simultaneamente moeda digital estável, reservas sólidas e inteligência artificial acessível, tudo isso fora do controle de governos e grandes corporações.
O mais revelador, porém, é que essa arquitetura já não é vista apenas como alternativa marginal. Vozes influentes em Washington começam a tratar o USDT como candidato natural à substituição do dólar físico, argumentando que stablecoins podem projetar a hegemonia americana de forma mais eficiente do que cédulas impressas. Se essa tese prevalecer, a Tether deixará de ser uma empresa que imita funções de banco central para se tornar, efetivamente, um braço digital da política monetária dos Estados Unidos.









