Há pouco, aqui no Entrelinhas, propusemos um teste: abrir o LinkedIn e observar como textos de pessoas diferentes estavam ficando parecidos. A mesma microhistória dramática, as mesmas frases curtas construindo suspense, a mesma reflexão sobre propósito e o mesmo fechamento inspiracional. Tudo gramaticalmente correto, tudo bem organizado e, quase sempre, intercambiável. Bastava trocar o nome de quem assinava para perceber que nada naquele texto permitia reconhecer seu autor.
A análise, portanto, tratava de um risco que vai além da qualidade das publicações. Tratava das Entrelinhas deste fenômeno, isto é, sobre o fato de que quando milhões de pessoas recorrem aos mesmos modelos de inteligência artificial para formular argumentos e expressar ideias, parte das diferenças entre elas desaparece no caminho. Assim, experiências distintas de vidas e pessoas reais entram no modelo, mas saem vestidas com estruturas semelhantes, de tal modo que a ferramenta que deveria ajudar cada pessoa a se expressar acaba fornecendo uma mesma voz que todos compartilham, eliminando qualquer traço de originalidade em algo que deveria ser personalíssimo.
E nas relações humanas, essa diferença tem uma função. A maneira como alguém conta uma história, escolhe um exemplo ou explica uma discordância nos ajuda a conhecer quem está falando. Por causa disso, quando essas marcas são suavizadas, o texto ganha sim um maior acabamento gramatical, mas perde parte da sua capacidade de apresentar uma pessoa. Lemos o argumento sem conseguir enxergar quem está por trás dele.
É nesse contexto que um movimento aparentemente banal ganha outro significado. Uma reportagem do Business Insider mostra profissionais que estão usando selfies e vídeos espontâneos no LinkedIn para transmitir personalidade e construir conexão. Os entrevistados relatam oportunidades de trabalho, convites e maior visibilidade associados à sua presença visual na plataforma. Alguns apontam a proliferação de textos polidos por IA como razão direta para mostrar mais de si mesmos.
Uma selfie pode parecer um detalhe pequeno diante de uma transformação tão grande. Mas talvez seja justamente nesse detalhe que esteja a resposta. Se o texto já não permite distinguir facilmente uma pessoa da outra, o rosto, a voz, os gestos e as peculiaridades oferecem outros caminhos para reconhecê-la. Aquilo que antes poderia parecer informal demais para uma rede profissional passa a carregar um valor inesperado: devolver uma presença humana à comunicação.
Podemos interpretar esse movimento como uma espécie de contrarrevolução silenciosa à IA. A reportagem não demonstra que a IA tenha causado, sozinha, a chegada das selfies ao LinkedIn, mas ilustra uma reação coerente com o diagnóstico: quanto mais a comunicação profissional se aproxima de um padrão, maior se torna o interesse por sinais de individualidade. Depois de tanto esforço para fazer todos parecerem impecáveis, começa a haver espaço para lembrar que as pessoas também são interessantes pelo que têm de particular.
Imagine dois profissionais comentando um problema que você enfrenta no trabalho. O primeiro publica um texto bem organizado, com recomendações que poderiam ter sido escritas por qualquer pessoa. O segundo conta, com sua própria voz, como viveu aquele problema, qual decisão tomou e onde errou. O que aproxima você do segundo não é necessariamente a câmera ou a qualidade da informação. É a possibilidade de reconhecer uma experiência concreta e alguém que responde pelo que está dizendo. É por isso que, nesses casos, a imagem ajuda a tornar essa pessoa visível e, consequentemente, mais autêntica.
Contudo, vale salientar que um vídeo “por fazer” também não é o suficiente – afinal, principalmente nós que estamos afiados com textos de IA diariamente, conseguimos notar quando um vídeo feito por um ser humano é claramente roteirizado por uma máquina que deu ao texto lido o mesmo tom robótico de uma postagem comum do LinkedIn. Portanto, a autenticidade depende também do que se revela ali: uma perspectiva própria, uma experiência que sustenta o argumento, uma maneira de falar que corresponde à maneira de agir. Sem isso, apenas acrescentamos uma fotografia à mesma comunicação padronizada.
Essa distinção importa porque seria fácil transformar a reação em mais uma fórmula. Se todos passarem a publicar a mesma selfie, acompanhada da mesma história de vulnerabilidade e da mesma lição profissional, voltaremos ao ponto de partida, pois, apesar de mais custoso, a aparência de proximidade também pode ser reproduzida em escala. O valor do movimento está menos no formato que ele populariza e mais na necessidade que ele expõe: queremos encontrar alguém reconhecível do outro lado. Tal necessidade, aliás, não termina quando fechamos o LinkedIn. Ela acompanha a escolha de um fornecedor, a contratação de um profissional, a conversa com um cliente e a relação entre uma liderança e sua equipe. Em todas essas situações, comunicar com clareza é importante, mas a confiança exige algo que se constrói ao longo do tempo, que é perceber que aquela pessoa conhece o que diz, assume suas decisões e mantém alguma coerência entre suas palavras e suas atitudes.
Pense, por exemplo, num prestador de serviços que envia uma proposta impecável, mas não consegue explicar como resolveria o seu problema específico, comparado com outro que apresenta uma proposta igualmente clara e consegue conversar sobre todos os escopos e limites do seu trabalho. Nesse caso, ambos, atualmente, têm acesso às mesmas ferramentas para preparar uma proposta e é exatamente por isso que a roupagem formal dos serviços deixa de explicar, sozinho, por que você escolheria um deles. A diferença aparece na relação.
É daí que podemos extrair a implicação mais direta para quem lidera negócios. Quanto mais fácil fica produzir uma comunicação polida, menos esse atributo consegue distinguir quem a produz. Um bom texto continua sendo útil, mas já não oferece o mesmo sinal de repertório, cuidado ou capacidade de julgamento que oferecia antes. Esses atributos precisam aparecer também na conversa, nas decisões e na experiência que sustenta o discurso. Assim, a autenticidade se torna valiosa justamente porque dá substância a essa diferenciação. Um profissional que conhece seu campo, desenvolve uma perspectiva própria e consegue explicar por que pensa daquela maneira oferece ao outro mais elementos para confiar. Sua história não precisa ser extraordinária. Sua personalidade não precisa ser expansiva. Há autenticidade em alguém reservado que fala com precisão, assim como em alguém bem-humorado que torna uma conversa mais próxima. O que importa é haver uma pessoa ali, e que seja possível reconhecê-la.
Isso também ajuda a entender por que o uso da IA não precisa eliminar a autoria. A ferramenta pode organizar uma proposta, revisar um argumento ou melhorar a clareza de uma explicação, mas é a experiência do profissional que permite avaliar se aquilo faz sentido. É seu julgamento que sustenta a recomendação. E é ele quem terá de responder quando a realidade não seguir o roteiro. A qualidade da relação depende dessa presença, mesmo quando parte da comunicação foi preparada com ajuda de uma máquina.
As selfies do LinkedIn são, portanto, um sinal pequeno de uma questão maior. Num ambiente em que as palavras começam a soar semelhantes, as pessoas buscam maneiras de recuperar aquilo que permite distinguir uma relação humana de uma sequência de mensagens bem produzidas. Mostrar o rosto é uma dessas maneiras. Ter algo próprio a dizer, escutar com atenção e agir de forma coerente são outras, e provavelmente mais duradouras.
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Talvez essa seja uma das consequências menos óbvias da expansão da inteligência artificial: quanto mais acessível se torna a capacidade de produzir uma boa apresentação, mais precisamos olhar para a pessoa que se apresenta. A tecnologia eleva o acabamento da comunicação de todos. Mas isso torna ainda mais importante preservar aquilo que nenhum modelo consegue fabricar, isto é, a experiência e a personalidade de cada um.
Por fim, para quem trabalha, lidera ou constrói negócios, a conclusão é bastante clara. Ser autêntico se torna um ativo valioso justamente quando parecer competente fica fácil. Num mundo em que tantas mensagens podem ser produzidas da mesma maneira, ter uma voz própria e sustentá-la nas relações oferece uma razão concreta para ser lembrado e escolhido. A era da IA pode nos fazer redescobrir algo que a busca pela perfeição vinha escondendo: ser humano é mais importante do que nunca.




