OpenAI Prepara Primeiro Dispositivo, o "Novo" Modelo de Trabalho Espacial e a Era dos Programadores que Não Sabem Programar
Bom dia! Hoje é 20 de janeiro. Neste mesmo dia, em 1961, John F. Kennedy tomava posse como presidente dos Estados Unidos e, em seu discurso inaugural, desafiava os americanos: “Não perguntem o que seu país pode fazer por vocês, perguntem o que vocês podem fazer por seu país.” Meses depois, Kennedy lançaria o programa Apollo, prometendo levar um homem à Lua antes do fim da década.
Sessenta e cinco anos depois, a corrida espacial ressurge, mas, agora, conduzida por bilionários, não por nações, e com perguntas incômodas sobre quem herdará o império das estrelas.
OpenAI e seu primeiro dispositivo para o segundo semestre de 2026
Em nosso atual contexto de transformação acelerada, a OpenAI prepara um movimento que pode tornar ainda mais tangível como interagimos com inteligência artificial. A empresa está “no caminho certo” para lançar seu primeiro dispositivo físico no segundo semestre de 2026, confirmou Chris Lehane, diretor de assuntos globais da empresa, durante o Fórum de Davos.
Embora os detalhes permaneçam vagos, relatos indicam que pode ser um wearable - seja um fone de ouvido, um dispositivo de pescoço ou até uma caneta com ChatGPT integrado. No entanto, as possibilidades não se limitam apenas a isso, afinal, a contratação de Janum Trivedi, ex-designer de interface do iPadOS na Apple, reforça uma aposta em um tipo de hardware ainda mais sofisticado.
O projeto dos dispositivos também conta com a colaboração de Jony Ive, lendário designer que moldou a estética da Apple por décadas.
O movimento marca uma dobra estratégica para a OpenAI. Até agora, a empresa dependia de plataformas de terceiros - smartphones, navegadores, assistentes de voz - para entregar seus modelos aos usuários. Um dispositivo próprio, porém, eliminaria a necessidade de intermediários e criaria um canal direto de interação com a IA, com a OpenAI tendo o controle de ponta à ponta de toda essa cadeia produtiva.
Se o formato for algum tipo de wearable discreto com interface conversacional, a OpenAI poderá competir diretamente com o Bee da Amazon, os óculos Ray-Ban da Meta ou os futuros produtos vestíveis da Apple e do Google.
A aposta de todas essas empresas tem nos mostrado que a IA generativa exige novos formatos, não apenas apps em telas, mas companheiros sempre presentes.
O risco, porém, é considerável. Hardware é um negócio de margens apertadas, cadeias de suprimentos complexas e ciclos de desenvolvimento longos - um tipo de território onde a OpenAI não tem experiência. A parceria com Jony Ive mitiga parte desse risco, mas não o elimina.
Empresas de software que tentaram se tornar fabricantes de hardware, de Google a Amazon, acumulam mais fracassos do que sucessos. A OpenAI parece apostar que a integração profunda entre seus modelos inteligentes e dispositivos criará uma experiência impossível de se replicar por seus concorrentes e, caso ela esteja certa, poderá entrar com o pé direito na categoria. E se estiver errada, terá queimado recursos preciosos em uma distração cara.
Quem trabalhará nas estrelas?
Recentemente Jeff Bezos previu que milhões de pessoas viverão no espaço nas próximas duas décadas. Will Bruey, fundador da Varda Space Industries, foi mais específico: em 15 a 20 anos, será mais barato enviar um “humano da classe trabalhadora” à órbita por um mês do que desenvolver robôs para fazer o mesmo serviço.
A frase passou quase despercebida no TechCrunch Disrupt (uma das principais conferências globais de tecnologia e startups), mas, nas entrelinhas, ela carrega implicações que merecem um pouco mais de atenção. Se Bruey e Bezos estiverem certos, o espaço não será povoado por astronautas heroicos, como estamos acostumados a ver em filmes ou nas antigas expedições Apollo - mas será povoado por operários comuns, que literalmente estarão dependentes de seus empregadores até mesmo para respirar.
Mary-Jane Rubenstein, professora de ética espacial na Universidade Wesleyan, desenha o cenário com crueza. “Os trabalhadores já têm dificuldades para pagar suas contas e se manterem seguros na Terra”, disse ela. “Essa dependência aumenta drasticamente quando você depende do empregador não apenas para o salário, mas para o acesso a alimentos, água e ar.”
No espaço, não há sindicatos, não há fiscalização trabalhista, não há para onde fugir. A romantização da “nova fronteira” esconde uma realidade menos glamorosa: quem não puder pagar a passagem de volta estará, na prática, preso.
A questão, portanto, não é apenas tecnológica, mas profundamente política e jurídica. Quem regula o trabalho no espaço? Quais leis protegem esses trabalhadores? O Tratado do Espaço Exterior, de 1967, proíbe a apropriação nacional do espaço, mas diz pouco sobre exploração econômica privada, relações trabalhistas interplanetárias ou direitos fundamentais fora da Terra. O vácuo regulatório é tão real quanto o vácuo físico.
Se a humanidade caminha para uma era de industrialização orbital, precisamos decidir agora se ela será construída sobre novos direitos ou sobre velhas assimetrias. Caso contrário, corremos o risco de exportar para fora do planeta o pior do nosso modelo econômico: concentração de poder, dependência extrema e precarização - só que, desta vez, a milhares de quilômetros de qualquer possibilidade de socorro.
A colonização do espaço avança. A pergunta que permanece é: vamos permitir que ela aconteça sem qualquer debate democrático sobre quem manda, quem lucra e quem paga o preço?
A era em que pessoas comuns criam seus próprios apps com IA
Rebecca Yu não é desenvolvedora. É uma pessoa comum que, em apenas sete dias, usando ferramentas como Claude e ChatGPT, criou o Where2Eat, um aplicativo que recomenda restaurantes com base nas preferências do seu grupo de amigos. Este pequeno caso usado como exemplo faz parte de uma tendência silenciosa, porém transformadora, que vem crescendo rapidamente: cada vez mais pessoas sem formação técnica estão criando seus próprios aplicativos para resolver problemas específicos, apoiadas por ferramentas de programação assistida por IA como Lovable, Bolt e Claude Code.
Durante décadas, o software foi algo que se comprava ou se assinava. Alguém (uma empresa ou um desenvolvedor) criava o produto, e o usuário precisava se adaptar a ele. Se o aplicativo resolvia 80% da sua necessidade, restava aceitar os 20% de frustração. Essa assimetria, porém, começa a dar lugar a novas ideias e soluções propostas por um número gigante de pessoas (muitas delas que nem mesmo são especializadas na área).
Hoje, qualquer pessoa pode descrever em linguagem natural o aplicativo que deseja e receber, como resposta, um código funcional. A distância entre “ter uma ideia” e “ter um produto” nunca foi tão curta.
O que está surgindo não é apenas um novo jeito de programar, mas uma nova relação com a tecnologia. Até aqui, fomos sobretudo consumidores de ferramentas criadas por outros. Agora, começamos a nos tornar autores das nossas próprias. A analogia mais clara talvez seja com o Shopify: antes dele, abrir uma loja online exigia desenvolvedores, capital e infraestrutura; depois, passou a ser acessível a qualquer pessoa. Algo semelhante acontece agora com o software.
À medida em que o tempo passa, a programação deixa de ser uma habilidade técnica restrita e passa a se tornar uma forma de expressão pessoal - tão acessível quanto montar uma playlist, tão específica quanto escrever um diário. E, quando qualquer pessoa puder criar exatamente o software de que precisa, a pergunta inevitável surge: qual será o futuro dos aplicativos genéricos, projetados para servir a todos e, no fim, não servir perfeitamente a ninguém?
E mais importante, essa autonomia das IAs será tão alta a ponto de substituir milhares de programadores? O futuro é incerto, mas qualquer alternativa viável para a classe girará em torno de um convivência pacífica (e colaboradora) entre inteligência artificial e programador. A fórmula clara para manter a relevância e não ser “trocado pelo ChatGPT”, mas sim usá-lo a seu favor, é: Inteligência Humana + Inteligência Artificial = Inteligência Exponencial.









