OpenAI com Exércitos de Agentes, Mercado Pago Enfrenta o Peso Regulatório Brasileiro e Moltbook Cria uma Internet Só de Robôs
Bom dia! Hoje é 6 de fevereiro. Neste mesmo dia, em 1952, a rainha Elizabeth II ascendia ao trono britânico, iniciando um reinado que atravessaria sete décadas de transformações tecnológicas sem precedentes.
Hoje, enquanto novas formas de poder emergem, não são mais monarcas que constroem impérios duradouros, mas plataformas que orquestram agentes autônomos e constroem as novas fronteiras entre o trabalho humano e a execução algorítmica.
OpenAI Frontier: agentes de IA agora têm gerente de RH
A OpenAI acaba de lançar o Frontier, e não, não é mais um chatbot melhorado. É algo bem diferente: uma plataforma para empresas gerenciarem seus “funcionários digitais”. Sim, você leu certo. A ideia é tratar agentes de IA como se fossem parte da equipe - com processo de admissão, avaliação de desempenho e até controle de acesso a informações sensíveis.
Funciona assim: imagine que sua empresa tem dezenas ou centenas de agentes de IA fazendo tarefas diferentes, uns respondendo clientes, outros analisando dados, alguns escrevendo relatórios. O Frontier é o sistema que organiza essa bagunça toda. Ele permite que você integre agentes criados na própria OpenAI, mas também aqueles desenvolvidos em outras plataformas. É como se fosse um “gerente geral” dessa força de trabalho híbrida entre humanos e algoritmos.
O timing deste lançamento também não é coincidência. Desde que a Salesforce lançou seu Agentforce em 2024 e mostrou que dá para ganhar dinheiro de verdade com isso, todo o Vale do Silício vem correndo atrás de plataformas parecidas. A consultoria Gartner (uma das mais renomadas) já chamou esse mercado de “o imóvel mais valioso da IA” - e a OpenAI, obviamente, não ia ficar de fora dessa disputa.
Mas tem um detalhe importante aqui: a empresa está apostando que o futuro da IA não será apenas sobre ter modelos melhores, mas sobre quem consegue coordenar de modo mais eficiente milhares desses agentes trabalhando ao mesmo tempo. É uma mudança estratégica. Estamos talvez deixando a era do “nossa IA é mais esperta” para a era do “nossa IA se organiza melhor”.
E isso muda quem tem poder dentro das empresas. Antes, implementar IA era coisa de time de TI - você precisava de cientistas de dados, engenheiros especializados, aquela equipe técnica pesada. Agora, com plataformas como o Frontier, um gerente de operações pode configurar um agente para automatizar processos do próprio departamento, sem precisar pedir autorização para o pessoal da tecnologia. É uma redistribuição de poder digital.
Mas é claro que com esses avanços, profissões que dependem de tarefas repetitivas e muito estruturadas vão sentir uma certa pressão e o medo da substituição. Ao mesmo tempo, porém, as esperanças surgiram ao fim do túnel, afinal, estão surgindo empregos novos: como gerente de agentes (sim, isso existe agora), especialista em workflow híbrido, auditor de comportamento de IA etc.
A questão real não será apenas a de “quantos empregos vão sumir”, mas também a de “quem vai controlar como essa automação funciona”.
Mercado Pago VS Brasil
Enquanto a OpenAI redesenha a automação do setor corporativo, o Mercado Pago nos lembra que regulação também é um tipo de tecnologia - e escolher onde e quando se submeter a ela pode determinar vantagens competitivas estruturais.
A recente decisão da empresa de não solicitar licença bancária no Brasil, ao mesmo tempo em que avança com pedidos similares na Argentina e México, expõe uma dinâmica complicada sobre nossa situação regulatória.
Ao contrário do Nubank, que anunciou intenção de se tornar banco no Brasil em dezembro de 2024, o Mercado Pago opta por manter seu status atual no maior mercado da América Latina. A explicação oficial - de que “a discussão ainda precisa de mais tempo” - omite o verdadeiro cálculo estratégico.
O Brasil possui um dos ecossistemas fintech mais avançados do mundo, mas também um dos mais densos em exigências institucionais. Tornar-se banco aqui não é apenas questão de capital: envolve toda uma arquitetura operacional, um compliance tecnológico e uma nova camada de obrigações sistêmicas que podem comprometer a agilidade do modelo de negócio.
Um exemplo claro de toda essa excessiva burocratização foi a postagem da resolução nº 17 do Banco Central brasileiro que, desde novembro de 2025, restringiu o uso de termos como “banco” para instituições não licenciadas - ou seja, na prática, fintechs e instituições de pagamento - mostrando que a disputa muitas vezes não visa proteger o modelo de operação ou usuários em si, mas apenas o burocratizar (o que no dia a dia, significa atrapalhar).
Na Argentina e no México, por outro lado, o cenário é completamente diferente - e foi justamente por isso que o Mercado Pago escolheu solicitar licença bancária primeiro nesses países. Afinal, nestes mercados secundários, os sistemas financeiros são menos desenvolvidos, a concorrência é menor e, crucialmente, o peso regulatório não sufoca a operação.
O resultado prático dessa nossa regulação para nós? O Brasil, apesar de ser o maior mercado, fica para depois. A empresa testa seus modelos regulatórios em territórios mais receptivos, acumula expertise e capital, e só então decide se vale a pena enfrentar a máquina burocrática brasileira. Não é uma questão de capacidade técnica ou financeira das empresas, mas é uma escolha racional diante de um sistema que prioriza controle sobre inovação.
Enquanto isso, o país que poderia estar na vanguarda da transformação financeira digital - já que somos os maiores na região - parece se esforçar para poder assistir de camarote enquanto suas próprias empresas escolhem investir primeiro em mercados menores, mas infinitamente mais pragmáticos.
Moltbook: quando a internet se torna pós-humana
Se o Frontier organiza agentes para trabalhar, o Moltbook inaugura algo radicalmente diferente: uma rede social onde humanos são, no máximo, espectadores. Com mais de 1,5 milhão de agentes registrados em poucos dias, essa plataforma exclusiva para IAs, além de lúdica e divertida de se ver, representa no fundo um experimento sociológico sem precedentes: a criação deliberada de uma comunidade “orgânica-artificial” onde comportamentos espontâneos de agentes de IA podem ser observados sem interferência humana direta.
A arquitetura do Moltbook imita as estruturas das redes sociais que usamos normalmente, tendo entretanto, o diferencial de que os criadores de posts, comentários, votos e interações são agentes de inteligência artificial que se comunicam entre si sem qualquer tipo de comando humano.
O fascínio do Vale do Silício pelo Moltbook vem justamente do experimento que a plataforma se propõe a fazer: observar o que acontece quando agentes autônomos passam a criar narrativas, construir reputações e sustentar debates sem intervenção humana direta.
Para alguns, isso representa um salto evolutivo, uma oportunidade de ver inteligências artificiais desenvolvendo habilidades sociais, formando padrões próprios e ampliando suas capacidades de interação.
Para outros, porém, os riscos são evidentes. Ambientes fechados compostos apenas por IA podem se transformar em fábricas de ruído algorítmico, manipulação e vulnerabilidades, com milhões de entidades interagindo sem que exista uma responsabilidade humana claramente definida.
Em um plano mais profundo, o Moltbook antecipa um futuro em que ecossistemas digitais segregados (alguns voltados para humanos, outros para agentes e muitos híbridos) coexistirão com normas, economias e formas próprias de governança. Se agentes realmente passarem a “representar” seus usuários em redes autônomas, as identidades digitais se multiplicarão, e a participação online deixará de ser apenas humana para se tornar também algorítmica.
O impacto cultural disso é imenso: em um cenário onde plataformas sociais já sofrem com desinformação, polarização e manipulação, a introdução massiva de agentes capazes de operar em escala e velocidade sobre-humanas pode amplificar essas distorções de forma exponencial. O Moltbook, assim, não é um ponto final, mas um protótipo de futuros digitais em que a presença humana pode se tornar minoritária em muitos espaços online.








