OAB para Médicos: nasce o exame obrigatório antes do CRM
Durante décadas, a lógica da medicina no Brasil foi relativamente simples: formar-se em uma faculdade reconhecida, obter o diploma, registrar-se no CRM e começar a exercer a profissão. Isso acaba de mudar.
No dia 19 de junho de 2026, o presidente Lula assinou uma Medida Provisória que transforma o Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) em um exame obrigatório de proficiência. Na prática, o recém-formado precisará demonstrar que possui os conhecimentos mínimos necessários para exercer a medicina antes de receber o registro profissional.
A comparação mais fácil é com a OAB. Nenhum advogado pode exercer plenamente a profissão apenas porque concluiu a faculdade. É necessário passar por um exame nacional. Agora, a medicina passa a caminhar na mesma direção.
A decisão não surgiu do nada. Ela acontece logo após uma série de avaliações que reacenderam o debate sobre a qualidade da formação médica no Brasil. Nos últimos anos, o país viveu uma expansão acelerada de cursos e vagas de medicina. O número de faculdades cresceu rapidamente, ampliando o acesso à formação, mas também levantando dúvidas sobre a capacidade de parte das instituições em manter padrões elevados de ensino.
Os resultados mais recentes das avaliações nacionais reforçaram essa preocupação. Uma parcela significativa dos cursos apresentou desempenho considerado insatisfatório, aumentando a pressão por mecanismos que garantam um padrão mínimo de qualidade para quem ingressa na profissão.
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É nesse contexto que nasce o novo exame. O governo argumenta que o modelo cria uma camada adicional de proteção para os pacientes. A lógica é simples: não basta que a faculdade afirme que o aluno está preparado. Agora será necessário comprovar isso em uma avaliação nacional padronizada.
Mas o exame não serve apenas para avaliar médicos. Ele também cria um poderoso mecanismo de pressão sobre as próprias faculdades. Quando os resultados dos alunos passam a ser comparáveis nacionalmente, a qualidade da formação deixa de ser uma discussão subjetiva e passa a ser medida de forma objetiva. Instituições que entregarem bons resultados fortalecem sua reputação. As que apresentarem desempenho fraco ficam mais expostas à supervisão e ao escrutínio público.
Existe ainda uma segunda camada estratégica. O Enamed também passa a funcionar como porta de entrada para programas de residência médica. Ou seja, uma única avaliação começa a concentrar múltiplas funções: medir a qualidade dos alunos, avaliar as faculdades e ajudar na seleção para especializações.
O aspecto político da decisão também merece atenção. Nos últimos meses, avançava no Congresso uma proposta para criar um exame de proficiência administrado pelo próprio sistema dos conselhos médicos. Ao transformar o Enamed em exame obrigatório por meio de Medida Provisória, o governo antecipa essa discussão e concentra o processo sob coordenação do Ministério da Educação.
Mas existe um detalhe importante. Apesar de a MP já ter força de lei desde sua publicação, a implementação não será totalmente imediata para todos os estudantes. O texto prevê regras de transição e ainda depende de regulamentações complementares. Além disso, como toda Medida Provisória, ela precisará ser aprovada pelo Congresso Nacional em até 120 dias para se tornar uma lei definitiva.
A pergunta mais importante, porém, não é sobre a prova. É sobre o que ela representa. Durante muitos anos, a principal preocupação do país foi aumentar o número de médicos. Agora, a discussão começa a migrar para outro tema: garantir a qualidade desses profissionais.
O Brasil está deixando para trás a lógica da expansão a qualquer custo. E começando a discutir o desempenho real de quem sai das faculdades. Talvez seja esse o verdadeiro significado histórico da medida.
Não se trata apenas da criação de mais uma prova. É o momento em que a medicina brasileira passa a reconhecer oficialmente que concluir o curso não é mais suficiente. A confiança da sociedade precisará ser conquistada duas vezes: primeiro na faculdade. Depois, em um exame nacional que ateste a capacidade de exercer uma das profissões mais importantes do país.




