Em março deste ano, durante o processo de falência da Spirit Airlines, um leilão judicial colocou à venda algo que, até pouco tempo atrás, nenhuma empresa teria considerado um ativo valioso: os e-mails, as mensagens de chat, os calendários, as planilhas, as apresentações, os documentos financeiros, as auditorias e os registros internos acumulados pela companhia aérea ao longo de anos de operação. Não eram patentes. Não eram rotas. Não eram aviões. Eram, na definição mais prosaica possível, os subprodutos administrativos de uma empresa funcionando. E o Google venceu o leilão, pagando dez milhões de dólares por aproximadamente cem milhões de e-mails e quinhentos milhões de mensagens trocadas pelo Microsoft Teams, com a declaração explícita de que pretende utilizar esse material para aprimorar seus produtos e modelos de inteligência artificial.
A transação, em si, é modesta para os padrões do mercado de IA, onde rodadas de financiamento se medem em bilhões. Mas o que ela sinaliza é de uma importância que transcende (e muito) o valor do cheque, porque marca o momento em que dados corporativos internos, aqueles que durante décadas foram tratados como registro burocrático, arquivados por obrigação legal e consultados apenas em auditorias ou litígios, passaram a ser explicitamente precificados como matéria-prima para a construção de inteligência artificial. Um juiz atribuiu valor de mercado ao acúmulo de conversas, decisões, erros, rotinas e interações humanas de uma empresa inteira. E o Google pagou não pelo que esses dados dizem, mas pelo que uma inteligência artificial pode aprender com eles.
Essa distinção é o ponto de partida para uma análise que vai muito além da Spirit Airlines, porque ela toca em uma transformação cuja escala a maioria das organizações e das pessoas ainda não absorveu plenamente. Vivemos em um mundo que nunca produziu e armazenou tantos dados quanto hoje: a internet está abarrotada de informação, e com a própria IA generativa contribuindo para essa produção, o volume disponível cresce de forma exponencial a cada ano. Paradoxalmente, porém, é justamente nesse momento de abundância que determinados tipos de dados estão se tornando mais valiosos, não menos, porque o recurso realmente escasso deixou de ser “informação” em sentido genérico e passou a ser algo muito mais específico: dados exclusivos, contextualizados, confiáveis, autenticamente humanos e difíceis de reproduzir.
A explicação para esse paradoxo é mais intuitiva do que parece quando explicada com clareza. Os modelos de IA mais avançados já foram treinados com praticamente toda a informação pública disponível na internet: páginas da Wikipédia, artigos de jornal, livros digitalizados, fóruns, código-fonte aberto, documentos acadêmicos… Esse material foi útil, e continua sendo, para dotar os modelos da capacidade generalista que os tornou populares. Mas à medida que os laboratórios buscam tornar seus sistemas mais precisos, mais confiáveis e mais capazes de operar em contextos específicos, a internet pública deixa de ser suficiente, porque o que falta não é volume de dados em si, mas profundidade. Uma base pública gigantesca pode ser menos estratégica do que alguns milhões de registros altamente específicos sobre como uma empresa real funciona, como decisões reais foram tomadas, como problemas reais foram resolvidos e como pessoas reais se comunicam no dia a dia de uma organização. É exatamente esse tipo de dado que a Spirit Airlines possuía e que o Google acaba de comprar.
E é aqui que vale a pena abandonar o clichê de que “dados são o novo petróleo”, porque a analogia, embora tenha sido útil no começo da então “Era da IA”, já não captura a natureza do que está em jogo. Petróleo é uma commodity fungível, ou seja, um barril é, para todos os efeitos práticos, igual a outro barril. Por outro lado, dados, na era da IA, são o oposto disso. Cada conjunto carrega um contexto irreproduzível, e o valor está justamente naquilo que o torna único. Talvez a analogia mais precisa seja a de que dados são tipos de “experiências fossilizadas”. Cada e-mail trocado entre funcionários da Spirit Airlines registra como alguém pensou sobre um problema. Cada planilha reflete como a empresa organizava suas operações. Cada mensagem de chat documenta como decisões foram tomadas sob pressão, como conflitos foram mediados, como informação fluía, ou não fluía, entre departamentos. Um manual corporativo mostra como uma organização deveria funcionar. Milhões de conversas internas mostram como ela realmente funcionava. E quando uma inteligência artificial aprende a partir desses registros, ela não está absorvendo informações ou fatos no sentido convencional. Ela está, na realidade, assimilando fragmentos da experiência humana e organizacional que os produziu, com toda a riqueza, as contradições e a imprevisibilidade que caracterizam o comportamento real de pessoas reais trabalhando juntas.
Essa compreensão do que os dados efetivamente representam abre caminho para uma reflexão sobre algo que pode estar surgindo como uma nova categoria econômica, e que pode ser útil para qualquer empreendedor, como nós, que pensamos no valor de longo prazo dos ativos da sua organização. Por muito tempo, construímos mercados sofisticados para negociar direitos intangíveis, sendo estes: direitos autorais, patentes, royalties, licenciamento de imagens, músicas e conteúdos. Cada um desses mercados nasceu quando a sociedade reconheceu que determinado tipo de criação intelectual possuía valor econômico que merecia proteção e precificação. Contudo, o que a compra dos dados da Spirit Airlines sugere é que um novo tipo de direito pode estar se formando: o direito de treinamento, o direito de permitir que uma máquina aprenda com determinada informação. Não se trata, necessariamente, de possuir ou publicar o dado, mas de deter a autorização para utilizá-lo no treinamento, no ajuste ou no aprimoramento de sistemas de inteligência artificial. Se esse direito se consolidar como categoria econômica, e a trajetória atual indica que sim, poderemos assistir ao surgimento de empresas, contratos e mercados inteiros nos quais uma parcela relevante do valor estará no controle de bases exclusivas e nos direitos para permitir que modelos aprendam com elas. O Reddit, por exemplo, já licencia seus dados ao Google por sessenta milhões de dólares anuais. Editoras e veículos de mídia negociam acordos semelhantes com OpenAI e Anthropic. E o que a Spirit Airlines acrescenta a esse cenário é a demonstração de que o mesmo princípio se aplica a dados corporativos internos, e que esses dados, quando leiloados, encontram compradores dispostos a pagar.
E então chegamos ao indivíduo (nós, sob outro prisma), porque se os dados de uma empresa aérea em falência valem dez milhões de dólares para o Google, a pergunta que devemos nos fazer é sobre o quanto vale o nosso próprio rastro digital. Todos nós produzimos, continuamente, um volume de dados que, fragmento por fragmento, parece irrelevante: uma pesquisa no Google revela uma curiosidade, uma compra no cartão revela uma preferência, uma entrada no calendário revela uma prioridade, uma mensagem no WhatsApp revela um relacionamento, um documento de trabalho revela um conhecimento, uma interação com um assistente de IA revela uma dúvida, um problema, uma forma de raciocinar… Sozinha, são registros banais. Agregados, contudo, eles formam algo que vai muito além da soma das partes: uma representação cada vez mais precisa de quem somos, do que queremos, de como pensamos e de como tomamos decisões.
A dimensão que a inteligência artificial acrescenta a essa realidade é profunda, porque durante anos a discussão sobre privacidade digital esteve concentrada em uma única pergunta: quem consegue acessar meus dados? Era uma questão de perímetro, de quem está dentro e quem está fora. A IA acrescenta uma segunda pergunta que é, potencialmente, mais consequente: o que uma máquina consegue aprender sobre mim a partir dos dados que já tem? Porque o poder dos dados, na era dos modelos de linguagem e dos sistemas de aprendizado profundo, não reside apenas na informação explicitamente contida em cada registro, mas nas correlações, nos padrões e nas inferências que esses sistemas conseguem extrair quando milhares ou milhões de registros são combinados, cruzados e analisados em conjunto. Um e-mail sozinho diz pouco. Cem milhões de e-mails, processados por um modelo treinado para encontrar padrões, podem revelar a cultura inteira de uma organização, a dinâmica de poder entre departamentos, os processos que funcionam e os que falham, os funcionários que influenciam decisões e os que são sistematicamente ignorados. A informação bruta é a mesma. O que muda é a capacidade de quem a lê.
Entre no canal Entrelinhas no WhatsApp e siga nosso Instagram: informação rápida, em tempo real, que tangibilizam as transformações.
Quando conectamos essa reflexão ao que temos analisado ao longo das edições do Entrelinhas, os fios se encontram de uma forma que ilumina a escala do que está em jogo. Quando analisamos o alerta de Nadella sobre empresas que pagam “duas vezes” por seus modelos de IA, uma com dinheiro e outra com o conhecimento que entregam ao modelo, estávamos descrevendo como dados corporativos fluem, voluntariamente, de quem os produz para quem controla a plataforma. Quando descrevemos, também, como o Google está eliminando cliques para sites externos ao sintetizar respostas com IA, estávamos descrevendo a extração de valor de conteúdo alheio sem devolver o tráfego que o financiava. E quando vimos sobre a homogeneização da linguagem provocada pelo uso massivo de modelos, estávamos descrevendo o que acontece quando a IA processa experiência humana e devolve uma versão padronizada dela. Em todos esses casos, o denominador comum é o dado, o registro da experiência humana, e a questão central é sempre a mesma: quem o produz, quem o controla e quem captura o valor que ele gera.
A compra dos dados da Spirit Airlines pelo Google é, sob essa lente, menos um evento isolado e mais um marco na consolidação de uma economia que já opera, em grande medida, sem que a maioria das pessoas e organizações perceba a totalidade das suas implicações. Estamos entrando em uma era em que experiências, decisões, comportamentos e conhecimento, registrados digital e continuamente por bilhões de pessoas e milhões de empresas, podem ser transformados em inteligência artificial. E a pergunta que essa era coloca, mais do que técnica ou regulatória, não é sequer econômica no sentido convencional. É, antes de tudo, uma pergunta sobre consciência: sabemos o quão poderosos, e o quão valiosos, são os dados que produzimos todos os dias? Porque se a experiência fossilizada de uma companhia aérea em falência vale dez milhões de dólares, o valor do que cada empresa em operação e cada pessoa conectada gera, diariamente, ainda nem começou a ser calculado.




