O Diário que Vale mais do que o Filme
Em um mundo com mais conteúdo do que qualquer pessoa pode consumir, o recurso escasso não é o filme. É saber qual vale a pena.
Existe uma pergunta que, à primeira vista, não faz sentido nenhum: por que empresas que faturam dezenas de bilhões de dólares por ano disputariam a compra de um aplicativo onde pessoas anotam quais filmes assistiram e dão notas de uma a cinco estrelas? O Letterboxd, fundado em 2011 na Nova Zelândia por dois desenvolvedores, é exatamente isso: um diário de cinema digital, uma rede social de nicho onde trinta milhões de cinéfilos registram o que assistiram, escrevem resenhas, montam listas e seguem o gosto de amigos e desconhecidos cuja opinião aprenderam a respeitar. Não produz conteúdo. Não tem catálogo de filmes para assistir. Não é, sob nenhuma métrica convencional, uma potência de mídia. E no entanto, segundo fontes do mercado, Netflix, Sony, Paramount , os fundos de private equity RedBird e TPG e até o cofundador do Reddit, Alexis Ohanian, estão todos sentados à mesa de negociação para adquiri-lo. O preço pedido é de 250 milhões de dólares, cinco vezes a avaliação de apenas três anos atrás.
A desproporção entre o que o Letterboxd é e o que estão dispostos a pagar por ele só faz sentido quando se entende o que mudou na indústria do entretenimento nos últimos anos, porque o que mudou não foi a oferta, que continua crescendo, mas a natureza da escassez. Durante a primeira década do streaming, a guerra era por catálogo. Quem tivesse mais filmes e mais séries atrairia mais assinantes. Netflix, Disney, HBO, Amazon e Apple despejaram centenas de bilhões de dólares em produção de conteúdo, e o resultado é que, em 2026, existe mais coisa para assistir do que qualquer ser humano conseguiria consumir em várias vidas. O catálogo, porém, deixou de ser o diferencial. E quando o conteúdo se torna abundante, o recurso escasso passa a ser outro: saber o que vale a pena assistir.
Essa é a função que o Letterboxd exerce, e que nenhuma plataforma de streaming conseguiu replicar internamente. Quando você abre a Netflix, o que encontra é um algoritmo que tenta adivinhar o que você quer ver com base no que já viu. É uma recomendação mecânica, calibrada para maximizar o tempo de tela, não necessariamente para conectar o espectador com algo que o surpreenda, que desafie seu gosto ou que ele nunca teria descoberto sozinho. Quando você abre o Letterboxd, o que encontra é uma comunidade. São pessoas reais, com nomes e históricos de consumo visíveis, cujas opiniões você pode avaliar ao longo do tempo e decidir se confia ou não. A descoberta, nesse ambiente, não é algorítmica, mas é inteiramente social. E a diferença entre as duas coisas é a diferença entre um sistema que diz “você provavelmente vai gostar disso” e uma pessoa cujo gosto você respeita dizendo “você precisa ver isso”. A segunda tem um poder de influência que nenhum algoritmo de recomendação, por mais sofisticado que seja, consegue igualar.
É esse poder de influência que está na mesa de negociação, não as resenhas em si. O Letterboxd se tornou, nos últimos anos, uma das poucas plataformas onde conversas genuínas sobre cinema acontecem em escala, com a credibilidade que nasce de uma comunidade que existe pelo amor ao assunto, não porque foi construída para vender assinaturas. Quando uma lista de “melhores filmes de terror dos anos 90” viraliza no Letterboxd, os filmes daquela lista registram picos de audiência nas plataformas de streaming. Quando um título independente ganha tração na comunidade, ele se torna assunto em redes sociais, podcasts e veículos de cultura. Charli XCX e Jack Harlow, um dos principais nomes da nova geração do hip-hop norte-americano, publicam resenhas ali. Diretores como Barry Jenkins e Greta Gerwig têm perfis ativos. É, como descreveu um analista do setor, “um tipo de relevância cultural que não se compra”, o que, ironicamente, é exatamente o que todos estão tentando comprar agora.
Para a Sony, a aquisição faria parte de uma estratégia maior que já está em curso. No ano passado, a empresa comprou a Alamo Drafthouse, a rede de cinemas de Austin conhecida por sessões temáticas, festivais curados e uma cultura de reverência ao cinema que a transformou em destino, não em commodity. Juntar a Alamo Drafthouse com o Letterboxd significaria construir algo que nenhum outro estúdio tem: um ecossistema cinéfilo completo, do digital ao presencial, onde a descoberta acontece na plataforma, o engajamento se aprofunda na comunidade e a experiência se materializa na sala de cinema.
Para a Netflix, a equação é diferente e mais complexa. A empresa perdeu a disputa pela compra da Warner Bros. Discovery, que a Paramount arrematou por 111 bilhões de dólares no início do ano, pagando inclusive uma multa de 2,8 bilhões à Netflix pela quebra do acordo anterior. Frustrada na tentativa de adquirir o maior catálogo de propriedade intelectual do entretenimento, a Netflix pode estar buscando aquisições menores que resolvam problemas específicos. E o problema mais específico que a Netflix enfrenta hoje, é que seu modelo produz um tipo de consumo intenso, mas não produz uma comunidade. Espectadores assistem, falam sobre a série por três dias e esquecem. O Letterboxd, ao contrário, é uma plataforma onde o engajamento se acumula ao longo do tempo: cada resenha, cada lista, cada follow constrói uma identidade cinematográfica que o usuário tem interesse em manter e expandir. É o tipo de aderência que a Netflix, por design, nunca conseguiu criar.
Contudo, e aqui está a tensão que nenhum dos compradores conseguiu resolver, adquirir o Letterboxd carrega um risco que é, em si mesmo, o argumento mais forte contra a aquisição. O valor do Letterboxd reside inteiramente na percepção de independência. Seus usuários confiam nas recomendações da comunidade porque sabem que nenhuma empresa está pagando para que um filme apareça no topo de uma lista. No momento em que o Letterboxd pertence à Netflix, à Sony ou à Paramount, essa confiança é colocada em xeque. O espectador que hoje segue uma lista de “melhores filmes do ano” acreditando que ela reflete o gosto genuíno de cinéfilos passaria a se perguntar se os resultados estão sendo influenciados pelo catálogo do dono da plataforma.
É o mesmo dilema que toda aquisição de comunidade enfrenta: o ato de comprar aquilo que é valioso pode ser, em si, o que destrói o valor. O cofundador do Letterboxd, Matthew Buchanan, mantém poder de veto sobre qualquer comprador, o que sugere que ele entende esse risco melhor do que a maioria.
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O que esse episódio revela, quando visto em perspectiva, é uma mudança de fase na economia da atenção que temos acompanhado ao longo das edições do Entrelinhas. A disputa pelo Letterboxd é, em essência, a mesma disputa que analisamos quando a Shopee entrou no ChatGPT, quando a Novo Nordisk escolheu o Mercado Livre em vez das farmácias, quando a Amazon transformou a venda de Ozempic em um programa de saúde: a batalha não é mais pelo produto. É por quem controla o momento em que o consumidor decide. No streaming, esse momento é a descoberta, o instante em que alguém decide o que vai assistir esta noite. E o Letterboxd, por mais modesto que pareça ao lado de empresas que valem centenas de bilhões, é uma das poucas plataformas que influenciam esse momento com credibilidade genuína, construída ao longo de uma década por uma comunidade que ninguém pagou para criar.
A pergunta que resta é se essa credibilidade sobrevive à aquisição. Porque se não sobreviver, os 250 milhões compram uma marca, uma base de dados e uma interface. Mas não compram o que realmente importa: a confiança de trinta milhões de pessoas que, até agora, acreditavam que ali era o único lugar onde ninguém estava tentando lhes vender nada. E confiança, como qualquer líder experiente sabe, é o ativo mais valioso de qualquer negócio, justamente porque é o único que não pode ser adquirido. Só pode ser construído. Ou destruído.



