Nvidia Entra na Farmacêutica, Startups Nucleares Ressurgem, Google Cria Protocolo para Agentes Compradores e Drones do Walmart Escalam
Bom dia! Hoje é 13 de janeiro. Neste mesmo dia, em 1942, Henry Ford patenteava um automóvel com carroceria feita de plástico derivado de soja em uma tentativa visionária de unir agricultura e indústria - que fracassou comercialmente, mas antecipou décadas de debates sobre materiais sustentáveis.
Ford entendia algo que muitos de seus contemporâneos ignoravam: as grandes transformações industriais nascem da convergência entre setores aparentemente desconectados. Oitenta e quatro anos depois, assistimos a movimentos semelhantes, com chips de IA entrando em laboratórios farmacêuticos, energia nuclear alimentando datacenters e agentes digitais redesenhando o comércio global.
Nvidia investe US$ 1 bilhão com a Eli Lilly
A Nvidia anunciou um investimento de US$ 1 bilhão ao longo de cinco anos em um laboratório conjunto com a Eli Lilly, a ser construído no Vale do Silício. O objetivo é acelerar o uso de inteligência artificial na indústria farmacêutica, um setor onde, atualmente, o desenvolvimento de um único medicamento pode levar mais de uma década e custar bilhões de dólares.
A parceria coloca engenheiros de IA ao lado de pesquisadores da Lilly para automatizar tarefas que hoje dependem exclusivamente de humanos: como a triagem de compostos, as simulações moleculares e a análise de dados clínicos, por exemplo.
“Os seres humanos são a principal restrição à velocidade dos laboratórios”, afirmou Kimberly Powell, Vice Presidente de saúde da Nvidia.
O movimento é estratégico para ambos os lados.
Para a Eli Lilly, significa acesso à vanguarda da computação - incluindo o supercomputador que a Nvidia anunciou em outubro, com a parceria do Departamento de Energia dos EUA, descrito como “o mais poderoso”, que, agora, estará nas mãos de uma farmacêutica.
Para a Nvidia, representa diversificação de receita. Afinal, a empresa mais valiosa do mundo depende de um pequeno grupo de gigantes de tecnologia para grande parte do seu faturamento, logo, abrir mercados mais diversificados, como em saúde, manufatura e ciência reduz essa concentração de risco.
Neste movimento, a Nvidia também está tornando seus modelos de IA para saúde open-source e trabalhando com a Thermo Fisher e a Multiply Labs (gigantes globais em ciência e biotecnologia) para conectar equipamentos de laboratório a sistemas automatizados - preparando o terreno para futuras instalações totalmente autônomas.
A promessa é sedutora: medicamentos desenvolvidos em meses, não anos; tratamentos personalizados baseados em simulações genômicas; custos drasticamente reduzidos. Mas a realidade ainda é incipiente, pois em verdade, a IA farmacêutica não produziu grandes avanços até agora - a maioria das aplicações estão em fases experimentais.
O risco acoplado a este e ao recente anúncio do “ChatGPT Médico”, é que o entusiasmo do mercado supere a capacidade de entrega. Ainda assim, a direção é inequívoca: a descoberta de medicamentos será, em grande parte, computacional.
Startups nucleares emergem novamente
A indústria nuclear está vivendo um renascimento. Nas últimas semanas de 2025, startups do setor captaram cerca de US$ 1,1 bilhão, impulsionadas pela promessa de reatores menores, modulares e mais baratos que os gigantes tradicionais.
A tese é simples: enquanto usinas convencionais como Vogtle 3 e 4 atrasaram oito anos e estouraram o orçamento em mais de US$ 20 bilhões, reatores compactos podem ser produzidos em série, escalados conforme a demanda e instalados mais perto dos centros de consumo - como datacenters famintos por energia estável e limpa.
O então otimismo dos investidores, porém, esbarra em desafios estruturais, afinal, como alertou Milo Werner, sócia da DCVC e ex-executiva da Tesla: “não construímos nenhuma instalação industrial nos Estados Unidos nos últimos 40 anos”.
A cadeia de suprimentos nuclear americana está atrofiada, com materiais críticos que precisam ser importados, escassez de profissionais experientes em manufatura especializada, e uma curva de aprendizado para produção em massa pode levar uma década. Werner compara a situação de otimismo no reavivamento desta indústria como o ato de “levantar do sofá após 10 anos e tentar correr uma maratona”. Capital não falta - o problema é capital humano.
A boa notícia é que a abordagem modular permite começar pequeno e iterar. Startups estão construindo protótipos perto de suas equipes técnicas, coletando dados de fabricação e refinando processos antes de escalar. Se a estratégia funcionar, reatores nucleares compactos poderão se tornar a espinha dorsal energética da economia de IA - oferecendo eletricidade 24/7 sem as intermitências de solar e eólica.
Para datacenters que consomem megawatts ininterruptamente, essa estabilidade é ouro. O nuclear, outrora vilão ambiental, ressurge como solução climática e tecnológica. A ironia histórica é evidente, e o mercado está apostando bilhões nela.
Google lança protocolo universal para agentes de IA
O Google anunciou o Universal Commerce Protocol (UCP), um padrão aberto desenvolvido com Shopify, Etsy, Walmart, Target e Wayfair para permitir que agentes de IA operem em todas as etapas do processo de compra - desde a descoberta do produto ao suporte pós-venda.
A ideia é que um único agente possa navegar diferentes plataformas, comparar preços, aplicar descontos personalizados e finalizar transações sem que o usuário precise alternar entre sites ou aplicativos. O Google já planeja integrar o UCP aos anúncios no modo de IA da busca e no Gemini, permitindo checkout direto via Google Pay e Google Wallet.
O movimento representa uma mudança de paradigma no comércio digital. Hoje, o consumidor pesquisa, compara e decide; amanhã, o agente fará isso por ele, com um acesso a histórico de preferências, orçamento, estilo de vida e contexto em tempo real.
A promessa vem com uma conveniência radical. O risco, porém, é que decisões de consumo sejam terceirizadas para algoritmos otimizados para métricas que nem sempre coincidem com o interesse do comprador.
Ainda neste contexto, há uma dimensão ainda mais profunda que precisa ser abordada: quem controla o protocolo, controla o fluxo. Assim, o Google, ao estabelecer o padrão, posiciona-se como infraestrutura base de um novo comércio agentic - cobrando por transações, dados e visibilidade.
Tanto a Amazon quanto a OpenAI e a Meta também disputam a ocupação desse espaço que, inequivocamente, aponta para um único futuro: crescimento acelerado e adoção em massa. Não por acaso, em 2025, a Adobe reportou que o tráfego proveniente de IA generativa para sites de varejistas cresceu 693% na última temporada de festas - embora ainda não se saiba quanto desse volume efetivamente se converteu em vendas reais.
O e-commerce do futuro será mediado por agentes que negociam entre si, aplicam descontos dinâmicos e decidem compras com base em perfis que conhecem melhor que nós mesmos. Diante disso, a pergunta que nos resta será: quando o agente escolhe por você, quem realmente está comprando?
Wing expande entregas por drone e acelera logística do futuro
A Wing, empresa de drones da Alphabet, anunciou a expansão de sua parceria com o Walmart para mais 150 lojas nos Estados Unidos, com uma implementação prevista até 2027. Após a conclusão, o serviço estará presente em mais de 270 unidades Walmart, cobrindo mercados como Los Angeles, Miami, Houston e St. Louis - alcançando cerca de 10% da população americana.
Este crescimento acelerado da empresa sugere que a entrega por drones está deixando de ser apenas uma curiosidade tecnológica para se consolidar como um novo padrão possível na logística e no cotidiano dos consumidores. Mais do que uma aposta pontual de grandes empresas, o modelo começa a demonstrar viabilidade prática em escala, impulsionado pelo aumento do volume de pedidos e pela recorrência de uso.
Como resumiu Heather Rivera, diretora de negócios da Wing, “o volume está definitivamente impulsionando nosso crescimento” - um indicativo de que a adoção não é mais experimental, mas fruto de demanda real e comportamento consolidado.
A expansão, porém, levanta questões que vão além da logística, pois convenhamos, drones sobrevoando bairros residenciais geram preocupações sobre privacidade, ruído e segurança do espaço aéreo.
Reguladores, sob este viés, ainda estão aprendendo a lidar com um cenário em que milhares de aeronaves autônomas operam simultaneamente sobre áreas urbanas, o que impõe desafios inéditos de segurança, controle e responsabilidade. Soma-se a isso a dimensão trabalhista: cada drone que substitui uma entrega por carro reduz a demanda por motoristas - uma profissão que emprega milhões de pessoas nos Estados Unidos.
Diante desse contexto, o futuro que antes parecia ultrafuturista começa a se materializar mais rapidamente do que muitos imaginavam. A questão, portanto, já não é mais se esse modelo vai se consolidar, mas como a sociedade irá se adaptar a ele.










