Meta Deixa Metaverso em Segundo Plano, o App que Monitora Solidão, IA Matemática, Datacenters Rumo aos US$ 3 Trilhões e a IA na Saúde
Bom dia! Hoje é 15 de janeiro. Neste mesmo dia, em 2001, a Wikipédia era lançada por Jimmy Wales e Larry Sanger: uma aposta radical de que o conhecimento humano poderia ser organizado colaborativamente, sem editores profissionais ou controle centralizado. Vinte e cinco anos depois, a enciclopédia livre conta com mais de 60 milhões de artigos em centenas de idiomas, desafiando modelos tradicionais de curadoria.
A lição permanece: tecnologias que democratizam acesso e participação frequentemente vencem as que tentam controlar. É precisamente esse movimento que observamos hoje: IA resolvendo problemas matemáticos antes reservados a gênios, aplicativos cuidando de quem vive só, e bilhões de dólares redesenhando a infraestrutura do mundo.
Meta e a hibernação do Metaverso
A Meta demitiu cerca de 1.500 funcionários do Reality Labs, divisão responsável pelo metaverso, representando aproximadamente 10% da equipe. O movimento não surpreende: segundo o Wall Street Journal, a empresa já planejava reduzir o orçamento da área desde dezembro, reconhecendo que o setor “não cresceu como esperado”.
Os números contam a história de uma aposta que não decolou: o Horizon Worlds, plataforma imersiva que deveria ser o coração do metaverso da Meta, que contava com apenas 200 mil usuários em 2022 - uma fração microscópica dos 3 bilhões do Instagram. Desde 2021, a empresa perdeu US$ 71 bilhões com o projeto, com pouco a mostrar além de headsets que o público simplesmente não quis comprar.
Enquanto isso, a atenção de Zuckerberg migrou definitivamente para a inteligência artificial. A empresa anunciou US$ 600 bilhões em investimentos em datacenters de IA nos EUA e nomeou Dina Powell McCormick, ex-assessora de Trump, como presidente - com foco explícito em captar financiamento para infraestrutura de IA.
Os cortes no Reality Labs não significam abandono completo do metaverso, mas um recalibramento pragmático de rota: em vez de insistir nos headsets volumosos que o público rejeitou, a Meta agora aposta nos óculos inteligentes Ray-Ban, que tiveram recepção bem mais favorável. Como observou um analista, “os consumidores estão dizendo em alto e bom som que ele deve começar com o menor formato”.
Esperar que Zuckerberg desista completamente do metaverso seria ingênuo. Ele permanece convicto de que, eventualmente, a realidade mista completa caberá em armações indistinguíveis de óculos comuns. Mas o caminho até lá será mais longo e tortuoso do que o previsto em 2021. A Meta aprendeu, a duras penas, que visão de futuro não basta; é preciso que o mercado esteja pronto para acompanhá-la. Por ora, a IA paga as contas enquanto o metaverso espera seu momento.
App “Você Morreu?” expõe a solidão da sociedade hiperconectada
Enquanto a Meta persegue o futuro da conexão virtual, na China, um aplicativo simples expõe um paradoxo inquietante da era digital. O “Você Morreu?” tornou-se um dos apps mais vendidos no país. Seu funcionamento é direto: se o usuário não fizer login em 48 horas, um alerta é enviado ao contato de emergência.
Criado pela Moonscape Technologies, o app é apresentado como “ferramenta de segurança para quem mora sozinho”. O nome provocativo - um trocadilho com um popular app de delivery - gerou controvérsia, mas também engajamento massivo. Os números explicam o fenômeno: em 2024, pessoas que moram sozinhas já representavam 20% dos lares chineses, contra 15% uma década antes.
O sucesso do aplicativo revela uma tensão contemporânea profunda: vivemos na era mais conectada da história, mas a solidão cresce em escala epidêmica. Idosos isolados, jovens profissionais em megacidades, trabalhadores remotos sem redes de apoio presencial… todos compartilham o medo de que algo aconteça e ninguém perceba. O app transforma esse medo em funcionalidade: um lembrete diário de que alguém, em algum lugar, será notificado se você desaparecer. É tecnologia como rede de segurança emocional, não apenas utilitária.
A reação nas ruas de Pequim foi mista. Alguns consideram o nome “violento”; outros argumentam que “é bom enfrentar o tema da morte”. Hu Xijin, ex-editor do Global Times, sugeriu rebatizar para “Está Vivo?” - mais suave para idosos. A empresa respondeu que “consideraria seriamente” a mudança. Independentemente do nome que prevaleça, o fenômeno expõe uma realidade que a tecnologia pode mitigar, mas não resolver: a arquitetura social das cidades modernas produz isolamento em massa. Apps como esse são sintomas de um problema estrutural e, ao mesmo tempo, tentativas imperfeitas de endereçá-lo.
IA resolve 11 problemas matemáticos de Erdős
Se a tecnologia pode expor nossas fragilidades sociais, também está demonstrando capacidades que há pouco pareciam ficção científica. Desde o Natal, 15 problemas da famosa coleção de conjecturas do matemático Paul Erdős foram movidos de “em aberto” para “resolvidos” - e 11 das soluções creditam especificamente modelos de IA como participantes do processo.
O engenheiro Neel Somani testou o GPT 5.2 com um problema aberto, deixou o modelo processar por 15 minutos e obteve uma prova completa que, após formalização, mostrou-se correta. O matemático Terence Tao, de Stanford, documentou oito problemas em que modelos de IA obtiveram “avanços autônomos significativos”.
O resultado surpreende até céticos. A linha de raciocínio do ChatGPT enumera axiomas como a fórmula de Legendre, o postulado de Bertrand e o teorema da Estrela de Davi, combinando conhecimento formal com busca em bases de dados matemáticas. Em um dos casos, o modelo encontrou uma solução de 2013 do matemático de Harvard Noam Elkies e a estendeu para resolver uma versão mais completa do problema. “O GPT 5.2 é anecdoticamente mais habilidoso em raciocínio matemático do que versões anteriores”, observou Somani.
Para Tudor Achim, fundador da Harmonic, o mais significativo não é o número de problemas resolvidos, mas o fato de que “os maiores matemáticos do mundo estão começando a levar essas ferramentas a sério”. Claro, ainda estamos longe de sistemas que fazem matemática sem intervenção humana, mas a fronteira está se movendo. A IA não substituirá matemáticos - mas está se tornando uma ferramenta que amplifica o que humanos conseguem alcançar.
Mercado global de datacenters deve alcançar US$ 3 trilhões até 2030
Essa ampliação das capacidades humanas pela IA exige, naturalmente, infraestrutura sem precedentes. O relatório da Moody’s Ratings projeta que investimentos globais em datacenters ultrapassarão US$ 3 trilhões até 2030, impulsionados pela expansão da IA, computação em nuvem e digitalização de serviços.
Apenas em 2026, seis hyperscalers americanos - Microsoft, Amazon, Alphabet, Oracle, Meta e CoreWeave - devem direcionar cerca de US$ 500 bilhões para infraestrutura de dados. Para 2027, a projeção sobe para US$ 600 bilhões. A construção física das instalações deve consumir entre US$ 700 bilhões e US$ 1 trilhão; o restante vai para equipamentos de computação e infraestrutura operacional.
A corrida por datacenters está em seus “estágios iniciais”, segundo a Moody’s, e deve ganhar força nos próximos 12 a 18 meses. O driver é transparente: modelos de IA exigem capacidade computacional sem precedentes, e a demanda por processamento cresce mais rápido que a oferta. Empresas que controlarem infraestrutura - energia, refrigeração, conectividade - terão vantagem estrutural na economia cognitiva que está se formando. Não é coincidência que Meta, Microsoft e Amazon estejam investindo simultaneamente em datacenters e em fontes de energia limpa.
Para países como o Brasil, o cenário representa oportunidade estratégica. Matriz energética renovável, recursos hídricos para refrigeração e mercado consumidor hiperconectado posicionam o país como destino natural para expansão de hyperscalers. A Hitachi Energy já anunciou planos de dobrar operações no Brasil em três anos; e outras devem seguir. A questão central é se o país conseguirá capturar não apenas investimento, mas conhecimento e capacidade tecnológica - transformando datacenters de “salas de máquinas” em centros de inovação. A próxima década definirá esse destino.
IA na saúde: chatbots dividem médicos
Toda essa infraestrutura e capacidade computacional encontra aplicações que vão muito além da matemática pura. O lançamento do ChatGPT Health pela OpenAI reacendeu o debate sobre o papel da IA na medicina. Mais de 230 milhões de pessoas já usam o ChatGPT semanalmente para perguntas de saúde - um volume que formalizou uma realidade inevitável. Para o Dr. Sina Bari, cirurgião e líder de IA na iMerit, a formalização é positiva: “É algo que já está acontecendo, então implementar salvaguardas tornará o processo mais eficaz.” Mas ele mesmo presenciou pacientes apresentando estatísticas alucinadas do ChatGPT como argumento contra prescrições médicas.
A tensão é estrutural. Chatbots de IA são propensos a alucinações (e o GPT-5 da OpenAI, segundo a Vectara, alucina mais que modelos do Google e Anthropic). Ao mesmo tempo, o sistema de saúde dos países (inclusive o nosso) enfrenta filas de três a seis meses para consultas de atenção primária.
E diante disso, a IA surge com um facilitador óbvio, afinal, se você tivesse que escolher entre esperar seis meses por um médico de verdade ou conversar com alguém que não é médico, mas que pode fazer algumas coisas por você, qual escolheria?
Mas o caminho mais promissor, segundo especialistas, está no lado do prestador, não do paciente. Tarefas administrativas consomem metade do tempo de médicos de atenção primária - tempo que poderia ser dedicado a atender mais pacientes. Ferramentas como o ChatEHR, de Stanford, permitem que médicos interajam com prontuários de forma mais ágil. A Anthropic lançou o Claude para saúde, focado em automatizar autorizações prévias para seguradoras. No fim, a IA que libera médicos para serem apenas médicos pode ter um impacto maior do que a IA que tenta substituí-los.








