Huawei dita as Leis, Rerum Novarum da IA, Óculos Inteligentes e Carros Voadores Chegando
Bom dia! Hoje é 26 de maio. Neste mesmo dia, em 1995, Bill Gates enviava aos executivos da Microsoft o memorando “The Internet Tidal Wave”, um documento de três mil palavras que redirecionou toda a estratégia da empresa e que, em retrospecto, se tornou um dos textos corporativos mais influentes da história da tecnologia. Gates escreveu: “A internet é uma onda gigante. Ela muda as regras.”
Trinta e um anos depois, a onda que Gates identificou não só não recuou como ganhou camadas sucessivas de complexidade. A internet se tornou plataforma, a plataforma gerou dados, os dados alimentaram a inteligência artificial e a inteligência artificial, agora, redefine semicondutores, espiritualidade, interfaces visuais e até o que significa voar. As notícias de hoje mostram que, em cada um desses domínios, o tabuleiro está sendo redesenhado por forças que combinam engenharia, geopolítica e visão de longo prazo.
A China Reescreve as Leis do Silício
A Huawei anunciou, durante o Simpósio Internacional de Circuitos e Sistemas da IEEE em Xangai, o que pode ser uma das respostas mais sofisticadas já dadas por uma empresa sob sanções: uma nova metodologia de design de semicondutores batizada de “Lei de Escalonamento Tau”, desenvolvida ao longo de seis anos, que permite aumentar a densidade de transistores e reduzir atrasos de sinal sem depender exclusivamente da miniaturização física dos componentes. Em termos práticos, a Huawei encontrou um caminho alternativo à Lei de Moore1, a premissa que guiou a indústria de chips por mais de meio século, contornando, simultaneamente, as restrições americanas que a isolaram dos principais fornecedores globais de equipamentos de fabricação.
O primeiro chip a incorporar integralmente essa abordagem será da linha Kirin e equipará o smartphone topo de linha da marca ainda este ano, com planos de expansão para produtos voltados à computação em inteligência artificial. A projeção da empresa é alcançar a tecnologia de 1,4 nanômetro até 2031, posicionando-se apenas alguns anos atrás da TSMC e da Intel, que miram produções similares para 2029. É uma defasagem que, considerando o ponto de partida sob embargo, representa menos um atraso e mais uma demonstração de resiliência industrial sem precedentes recentes.
O que torna este movimento estruturalmente relevante é o contexto em que ele ocorre. Os CEOs da Nvidia e da AMD já reconheceram publicamente que os controles de exportação americanos dificultaram suas vendas na China, cedendo espaço para que a Huawei se consolidasse como principal fornecedora de chips de IA no mercado chinês. E os efeitos colaterais dessa consolidação já são visíveis: a DeepSeek anunciou neste fim de semana um corte permanente de 75% no preço de seu principal modelo de inteligência artificial, o V4-Pro, sem revelar se a redução está ligada ao aumento da oferta dos chips Ascend 950 da Huawei (mas a coincidência temporal é convincente). Se a Huawei está conseguindo escalar produção e a DeepSeek está cortando preços de forma agressiva, o ecossistema chinês de IA começa a operar sob uma lógica de abundância doméstica que independe do Ocidente.
Cada restrição americana, ao que parece, não paralisa a inovação chinesa, apenas a redireciona. E essa lição, que já vimos se repetir com trens de alta velocidade, painéis solares e veículos elétricos, deveria, a esta altura, ser tratada menos como surpresa e mais como padrão.
A Rerum Novarum da Inteligência Artificial
Um ano após assumir o pontificado, o papa Leão XIV publicou nesta segunda-feira sua primeira encíclica, intitulada Magnifica Humanitas (“Magnífica Humanidade”), dedicada inteiramente a salvaguardar a pessoa humana na era da inteligência artificial. Na tradição católica, encíclicas são os documentos mais relevantes do magistério papal, e a escolha deste tema como carta inaugural não é casual, mas é uma declaração de prioridade que posiciona a revolução tecnológica como a questão definidora deste pontificado.
O texto de 105 páginas opera em múltiplas camadas. Na mais imediata, Leão XIV reconhece a tecnologia como instrumento legítimo, mas insiste que ela não é neutra, e sim que ela “assume as características daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam”. Na camada mais profunda, a encíclica dialoga diretamente com a Rerum Novarum de Leão XIII, publicada há exatos 135 anos, que confrontou as consequências sociais da Revolução Industrial propondo uma terceira via entre o capitalismo selvagem e o socialismo materialista. A simetria é, de fato, deliberada, afinal, assim como seu antecessor enfrentou a questão operária no auge da industrialização, Leão XIV enfrenta a questão algorítmica no auge da automação cognitiva. E o diagnóstico carrega em si a mesma urgência da carta anterior: a humanidade “enfrenta hoje uma escolha decisiva”, escreve o papa, entre construir uma nova Torre de Babel ou edificar algo que preserve a dignidade como valor inegociável.
O que torna a Magnifica Humanitas especialmente relevante para o ecossistema tecnológico é a precisão de suas críticas. O papa alerta contra o oligopólio de poucas empresas sobre sistemas de IA, argumentando que concentrar tamanho poder de influência em um grupo reduzido de corporações representa um risco sistêmico para a humanidade. Aborda a terceirização cognitiva, o fenômeno pelo qual delegamos cada vez mais funções intelectuais a dispositivos, erodindo capacidades que antes definiam a experiência humana. E diagnostica que a inteligência artificial, aplicada a conflitos bélicos, não remove a desumanidade da guerra, mas a acelera e a torna mais impessoal, “reduzindo o limiar para o recurso à violência” e transformando vítimas em dados. Os três pilares que o documento defende, sendo a responsabilidade corporativa, a cooperação institucional para limites éticos e a educação digital para uso consciente, não são prescrições teológicas abstratas, mas um roteiro que dialoga diretamente com debates regulatórios em curso em Washington, Bruxelas e Pequim.
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Por fim, o simbolismo da presença de Chris Olah, cofundador da Anthropic, na apresentação da encíclica no Vaticano merece atenção particular, pois a Anthropic tem buscado se posicionar no mercado como uma desenvolvedora comprometida com responsabilidade ética, e sua presença no evento sinaliza que o Vale do Silício não apenas observa, mas leva a sério o que a Igreja está articulando. Quando uma instituição de dois milênios e uma startup de inteligência artificial convergem sobre os mesmos riscos, talvez seja hora de parar de tratar ética tecnológica como tema periférico e reconhecê-la como o que ela realmente é: infraestrutura civilizacional.
Os Óculos que Finalmente Aprenderam a Ser Usáveis
A indústria de óculos inteligentes, que durante a última década funcionou mais como buraco negro financeiro do que como categoria de produto viável, pode estar finalmente chegando ao seu ponto de inflexão. A Xreal, parceira de longa data do Google, apresentou na conferência I/O em Mountain View o Projeto Aura: um par de óculos de realidade estendida com telas OLED integradas, conectados por fio a um minicomputador portátil em formato de disco, capazes de rodar aplicativos imersivos do Google Maps, vídeos do YouTube em realidade virtual, ferramentas de pintura holográfica com rastreamento de mãos e navegação básica na web.
O que diferencia este momento dos fracassos anteriores, do Google Glass em 2013 ao Magic Leap, é a convergência de três fatores que antes nunca coexistiram. O primeiro é a validação de mercado proporcionada pela parceria da Meta com a Ray-Ban, que em 2023 provou que consumidores estão dispostos a usar óculos inteligentes desde que o formato seja socialmente aceitável e a funcionalidade ofereça benefícios tangíveis. O segundo é a maturidade da inteligência artificial generativa, que transforma óculos de meros visores em interfaces conversacionais que interpretam contexto visual em tempo real, com o Gemini do Google integrado aos óculos não sendo um acessório, mas o produto em si. O terceiro é a redução dos componentes a dimensões que permitem dispositivos genuinamente vestíveis, não protótipos de laboratório disfarçados de produto de consumo.
A ambição da Xreal, contudo, vai além do hardware. O CEO Chi Xu projeta que a empresa atinja o ponto de equilíbrio financeiro no próximo ano e prepara um IPO antes do final de 2026. Se confirmado, será um dos primeiros testes de mercado público para uma empresa dedicada exclusivamente a óculos de realidade estendida, e o apetite dos investidores dirá muito sobre a confiança do mercado nessa categoria. Enquanto isso, o Google avança em múltiplas frentes: além da Xreal, já confirmou óculos com tecnologia Gemini em parceria com a Kering para a marca Gucci em 2027. Assim, a disputa pelo rosto do consumidor, que a Meta lidera com a EssilorLuxottica, que a Apple observa com cautela após o Vision Pro e que o Google agora ataca por múltiplos ângulos, se configura como uma das corridas mais importantes para a próxima década, onde os celulares serão vestíveis. E, com isso, quem controlar essa interface controlará algo que nenhuma tela de smartphone jamais capturou: o campo de visão integral do usuário, e com ele, a camada mais íntima de dados comportamentais já coletada.
Carros Voadores Brasileiros Ganham Data de Estreia
A Revo, principal operadora de táxi-aéreo do Brasil e controlada pelo grupo português OHI, anunciou que está finalizando o mapeamento das primeiras rotas comerciais de eVTOLs em São Paulo, com projeção de início de operações no último trimestre de 2027 no cenário mais otimista. A empresa firmou contrato para a compra de até 50 unidades do Eve 100, o veículo elétrico de decolagem e pouso vertical desenvolvido pela Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, e planeja iniciar pela rota entre o centro expandido da capital e o Aeroporto de Guarulhos, hoje seu maior gerador de receita com helicópteros.
O que transforma este anúncio de uma promessa conceitual em sinal concreto é a estratégia de transição desenhada pela Revo. Em vez de lançar os eVTOLs como produto independente, a empresa pretende converter passageiros que já utilizam seus 22 voos diários de helicóptero na rota de Guarulhos. Essa abordagem reduz radicalmente o risco de adoção, afinal, o público já existe, a demanda está comprovada e a proposta de valor é incremental, proporcionando menos ruído, menor custo operacional e zero emissão de poluentes. As rotas seguintes conectariam polos como Faria Lima, Paulista, Berrini e Alphaville, desenhando uma malha de mobilidade aérea urbana que aproveita a infraestrutura de helipontos já existente na cidade que abriga a maior frota de helicópteros urbanos do mundo.
Do lado regulatório, a certificação do Eve 100 pela Anac é esperada entre o final de 2027 e o início de 2028. A subsidiária da Embraer já completou 59 voos com seu protótipo de engenharia, incluindo manobras de sustentação estacionária, e acumula cerca de 2.900 intenções de compra globais. Nos Estados Unidos, a concorrente Joby Aviation realizou neste mês o primeiro voo público de um eVTOL entre o aeroporto JFK e Manhattan, registrando menos de dez minutos para um trajeto que de carro poderia levar duas horas, e operando em parceria com a Uber com tarifas equivalentes ao Uber Black.
Para o Brasil, a oportunidade é particular e estratégica. A Embraer já provou com seus jatos regionais que o país é capaz de competir na fronteira da engenharia aeronáutica global. Se a Eve conseguir certificar e iniciar operações comerciais antes dos concorrentes internacionais, o Brasil não terá apenas um novo modal de transporte, mas terá a liderança industrial em uma categoria que ainda não tem dono definido. A janela, entretanto, é estreita, pois os desafios de infraestrutura, do licenciamento municipal à instalação de cabos de alta tensão para recarga nos vertiportos, exigem uma coordenação entre reguladores, prefeituras e operadores que o país nem sempre entrega com a velocidade que a competição global demanda. O céu, desta vez, pode ser literalmente o limite, desde que o chão coopere.
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A Lei de Moore refere-se à observação de que o número de componentes em um chip dobra a cada dois anos. Esse crescimento significa que a capacidade de processamento de informações dos computadores e outros dispositivos aumenta continuamente, tornando-os menores e mais baratos de fabricar.






