Google Aposta Tudo em IA, o Presidente-CEO dos EUA e a Netflix que Quer Virar a Disney
Bom dia! Hoje é 20 de maio. Neste mesmo dia, em 1891, Thomas Edison realizava a primeira exibição pública do cinetoscópio, um aparelho rudimentar que projetava imagens em movimento mediante a inserção de uma moeda. A maioria dos presentes tratou aquilo como uma curiosidade de feira; poucos imaginaram que estavam diante do embrião de uma indústria que, em um século, dominaria o entretenimento, a cultura e a economia da atenção global.
Cento e trinta e cinco anos depois, a lógica se repete, com o Google acabando de apresentar ao mundo um conjunto de ferramentas de inteligência artificial que, para muitos, parecerão apenas atualizações incrementais, mas que, nas entrelinhas, redesenham a forma como bilhões de pessoas buscam informação, criam conteúdo e consomem produtos. Enquanto isso, na Casa Branca, um presidente governa como se dirigisse uma holding, e a Netflix estende seus tentáculos para além das telas, tentando replicar no mundo físico o que a Disney construiu ao longo de um século. O fio que conecta tudo é o mesmo de sempre: quem controla a infraestrutura da atenção controla o valor.
Google I/O 2026: A Busca Morre, a Conversa Nasce
O Google I/O deste ano não foi apenas um evento de desenvolvedores. Foi, na prática, o anúncio de que a empresa mais importante da internet decidiu aposentar a lógica que a fundou. Desde 2001, a barra de pesquisa do Google mantinha essencialmente o mesmo formato: uma caixa retangular para palavras-chave. Agora, pela primeira vez em mais de 25 anos, essa interface foi fundamentalmente redesenhada para acomodar perguntas longas, uploads de mídia e interações conversacionais com inteligência artificial. A mudança pode parecer estética, mas é existencial, afinal, o Google está deixando de ser um mecanismo de busca para se tornar um mecanismo de resposta, e essa distinção carrega consequências profundas para toda a economia digital.
A reformulação da busca vem acompanhada pelo Gemini Spark, um agente de IA que opera ininterruptamente e foi construído sobre o Gemini 3.5 e o sistema Google Antigravity. No cotidiano prático, o Spark funciona como um assistente pessoal que organiza e-mails no Gmail, prepara anotações de reuniões, monta resumos de notícias e, em breve, atuará diretamente dentro do Chrome. Paralelamente, o Gmail Live e o Docs Live introduzem interfaces conversacionais por voz dentro do Workspace, permitindo que usuários localizem informações, estruturem documentos e criem rascunhos usando linguagem natural. Isso significa que, para centenas de milhões de trabalhadores que vivem dentro do ecossistema Google, a barreira entre pensar e executar está sendo radicalmente reduzida.
Outro anúncio com implicações diretas para o comércio digital é o Universal Cart, um carrinho de compras unificado que integra buscas, recomendações e transações em um único ambiente alimentado por IA. A proposta é que o sistema acompanhe variações de preço, monitore disponibilidade e sugira produtos com base no comportamento do usuário, efetivamente transformando o Google em uma camada de intermediação entre o consumidor e o varejo global. Quando combinado com os avanços conversacionais da busca, o resultado é um ecossistema em que a jornada do consumidor, da intenção à compra, pode acontecer inteiramente dentro do universo Google, sem que o usuário precise visitar o site de nenhum varejista. Definitivamente, o Google não quer mais apenas direcionar tráfego, ele quer capturar a transação.
Gemini Omni, US$ 190 Bilhões e a Corrida pelo Topo
Contudo, os anúncios mais ambiciosos do Google I/O foram aqueles que operam em uma camada mais profunda da revolução tecnológica em curso. O Gemini Omni, apresentado por Demis Hassabis como um modelo capaz de criar “qualquer coisa a partir de qualquer prompt”, representa um salto conceitual em relação aos modelos anteriores da empresa. Enquanto ferramentas como o Nano Banana, o Genie e o Veo já conseguiam gerar vídeos e simulações com noções de realidade e física, o Omni adiciona a compreensão de conceitos como gravidade e energia cinética, avanços atribuídos às novas capacidades de raciocínio profundo do Gemini. Na realiade, estamos diante de um modelo multimodal que não apenas gera conteúdo visual, mas compreende a lógica do mundo físico para fazê-lo, e isso muda o patamar do que a IA generativa pode entregar em áreas que vão da engenharia ao entretenimento.
O Google Pics, novo aplicativo de criação e edição de imagens baseado no Nano Banana, complementa essa visão ao permitir edições precisas em imagens geradas por IA sem exigir que o usuário recomece o processo do zero. Já no YouTube, um novo sistema de busca por IA chamado “Pergunte ao YouTube” permite pesquisas conversacionais e direciona usuários a trechos específicos de vídeos. E, no campo do hardware, a empresa detalhou dois modelos de óculos inteligentes baseados na plataforma Android XR, desenvolvida em parceria com Samsung e Qualcomm, projetados para funcionar como extensões do Gemini no mundo físico.
Em síntese, o número que amarra tudo isso é talvez o mais revelador, pois o Google espera investir entre US$ 180 bilhões e US$ 190 bilhões em despesas de capital neste ano, um salto vertiginoso em relação aos US$ 31 bilhões de 2022. O principal destino desses recursos são as TPUs, os chips de IA personalizados da empresa, divididos agora em dois tipos, um para treinamento massivo e outro otimizado para inferência rápida. Quando cruzamos esses lançamentos e investimentos com o que já sabemos, que o Google Cloud ultrapassou US$ 20 bilhões em receita trimestral, que a receita de produtos generativos cresceu quase 800% na base anual e que a Alphabet vem encurtando a distância de valor de mercado em relação à Nvidia, o padrão se torna evidente: o Google não está apenas competindo na corrida da IA, está construindo a infraestrutura para que a corrida inteira passe pelo seu território. E, dada a amplitude dos anúncios de ontem, que cobrem desde a busca até o comércio, desde modelos fundacionais até hardware vestível, a tese de que a Alphabet pode se tornar a empresa mais valiosa do mundo deixa de ser uma especulação para se tornar uma possibilidade cada vez mais concreta.
O Presidente-CEO dos Estados Unidos
Enquanto o Google transforma a infraestrutura digital do planeta, Donald Trump redesenha a infraestrutura institucional da maior economia do mundo, e faz isso com a mentalidade de quem dirige uma holding, não uma república. Em uma entrevista ampla concedida ao grupo Fortune no Salão Oval, o presidente americano expôs com clareza a lógica que governa suas decisões: acordos rápidos, informais, centrados em sua figura pessoal e orientados por uma noção de retorno sobre investimento que trata o Estado como um fundo de venture capital. O narrado feito pelo presidente se traduz em uma cena que é reveladora por si só, ao passo que Trump organiza pessoalmente o embarque de Jensen Huang no Air Force One rumo a Pequim, enquanto discute tonalidades de impermeabilização para o espelho d’água do Memorial Lincoln e compara data centers da Meta ao Pentágono.
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A estratégia que emerge dessa mentalidade tem duas pernas principais. A primeira são as tarifas globais, que Trump concebe como uma nova e significativa fonte de receita para os Estados Unidos, capaz de eventualmente dispensar aumentos de impostos sobre cidadãos americanos. Mesmo após a Suprema Corte declarar inconstitucionais cerca de metade das tarifas do “Dia da Libertação”, o presidente calcula que a arrecadação anual com importações ficará em torno de US$ 300 bilhões, além de expressar irritação por ter de devolver US$ 149 bilhões já arrecadados. A segunda perna são as participações acionárias em empresas americanas: em vez de oferecer resgates ou subsídios, o governo Trump adquire fatias de corporações em dificuldades. O caso emblemático é a Intel, na qual uma participação de 9,9% negociada por cerca de US$ 10 bilhões já vale, segundo o presidente, mais de US$ 50 bilhões em apenas oito meses.
Há, porém, uma fragilidade estrutural que o próprio Trump reconhece sem conseguir resolver. Quando confrontado com a pergunta óbvia, de como esse modelo de governança por negociação pessoal será sustentado após o fim de seu mandato, a resposta foi reveladora: “Não consigo responder a essa pergunta. Não sei. Isso não vai acontecer de novo.” É uma confissão que nenhum CEO poderia fazer sem destruir o valor de sua empresa, afinal, qualquer organização construída ao redor de uma única pessoa perde relevância estrutural quando essa pessoa sai. A Apple sobreviveu a Steve Jobs porque tinha Tim Cook e uma cultura de sucessão; os Estados Unidos de Trump, por enquanto, não têm nada equivalente. E, em um mundo onde chips são ativos de segurança nacional, onde a diplomacia comercial se confunde com vendas corporativas e onde big techs investem mais de US$ 100 bilhões ao ano cada, a pergunta que permanece não é se o modelo funciona hoje, mas o que acontece quando o negociador-chefe não estiver mais na mesa.
Netflix Quer Virar Disney
Se o Google domina a infraestrutura digital e Trump tenta redesenhar a institucional, a Netflix está empenhada em conquistar algo igualmente ambicioso: a infraestrutura cultural do cotidiano. A diretora de marketing da empresa, Marian Lee, anunciou na Licensing Expo, em Las Vegas, que a plataforma está se expandindo para os segmentos de brinquedos e doces, com parcerias estratégicas que incluem o Grupo Ferrero para levar produtos inspirados em “A Fantástica Fábrica de Chocolate” ao mercado físico, e a Moose Toys como parceira principal para linhas de brinquedos baseadas em franquias como Stranger Things e KPop Demon Hunters.
À primeira vista, chocolates e bonecos podem parecer periféricos para uma empresa de tecnologia. Mas, contextualizado na trajetória recente da Netflix, o movimento revela uma estratégia de longo prazo que ecoa diretamente o modelo construído pela Disney ao longo de quase um século, ou seja, transformar propriedade intelectual em um ecossistema de consumo que transcende a tela. A Disney não se tornou a Disney apenas por seus filmes; tornou-se a Disney porque cada personagem virou brinquedo, cada brinquedo virou parque temático, cada parque virou destino turístico, e cada destino reforçou a demanda pelos filmes. É um ciclo virtuoso de monetização em que cada camada alimenta a próxima, e a Netflix está sinalizando que pretende replicar essa lógica.
E, desde a saída de Reed Hastings do conselho de administração e a perda da disputa pela Warner Bros. para a Paramount, a Netflix opera sob uma tensão estratégica, onde o tempo que os usuários passam na plataforma não tem crescido significativamente nos últimos anos, e a competição por atenção com TikTok, YouTube e plataformas emergentes exige novas fontes de engajamento e receita. A publicidade, que deve atingir US$ 3 bilhões ainda em 2026, é uma resposta parcial. Mas produtos físicos resolvem um problema diferente e talvez mais profundo, pois eles mantêm a marca presente na vida do consumidor mesmo quando a tela está desligada. Afinal, quando uma criança brinca com um boneco de Stranger Things ou abre um chocolate da Fábrica de Wonka, a Netflix deixa de ser um aplicativo que compete por minutos de atenção e passa a ser um universo cultural que permeia o cotidiano, e essa distinção, para uma empresa que opera 200 bilhões de horas de consumo anual e já controla quase 10% dos gastos publicitários em TV conectada, pode ser a diferença entre permanecer uma plataforma de entretenimento e se tornar uma verdadeira potência de marca global.






