Bom dia! Hoje é 25 de setembro. Neste mesmo dia, em 1513, o explorador espanhol Vasco Núñez de Balboa chegava ao topo de uma serra no istmo do Panamá e se tornava o primeiro europeu a avistar o Oceano Pacífico a partir do continente americano. A travessia durou semanas pela selva mais densa que seus homens já haviam enfrentado, e ninguém na expedição sabia o que encontraria do outro lado. Quando Balboa viu a água se estendendo até o horizonte, entendeu que o mundo era maior do que qualquer mapa europeu desenhava, e que o limite que todos aceitavam como borda do conhecimento era, na verdade, apenas o ponto a partir do qual o conhecimento real começava.
Quinhentos e treze anos depois, as notícias de hoje são todas sobre empurrar limites que pareciam definitivos. O Mercado Livre cruza a última fronteira do varejo farmacêutico brasileiro: a partir de hoje, vende medicamentos com retenção de receita (incluindo antibióticos e GLP-1) e entrega qualquer produto em até uma hora na Grande São Paulo. Mark Zuckerberg se torna a quinta pessoa mais rica do mundo, impulsionado pelo Muse, que atingiu 2,8 milhões de downloads e transformou o ceticismo dos investidores em euforia, embora, como cobrimos na semana passada, parte da inteligência do agente ainda venha de humanos nos bastidores. O Google envia chips de IA ao espaço na próxima semana para testar se data centers orbitais são viáveis, enquanto a SpaceX planeja operar um milhão de satélites de IA: um milhão. E Trump e Xi jantam esta noite na Casa Branca com Huang, Altman, Nadella, Cook, Pichai e Bezos à mesa, numa cena que resume, num único salão, a disputa que define a economia do século XXI. Em todos os casos, alguém olha para o limite que o mapa desenhava e decide que não é um limite, mas é um ponto de partida.
O Mercado Livre Agora Venderá o Seu Ozempic
Há um tipo de compra que o brasileiro sempre fez com desconforto: a que exige ir a uma farmácia, entregar uma receita a um desconhecido, explicar o que precisa e esperar enquanto o atendente verifica o documento. Medicamentos para saúde sexual, tratamentos para dependência de nicotina, antibióticos, canetas emagrecedoras… todas essas são categorias em que a privacidade pesa tanto quanto o preço do produto em si. A partir de hoje, porém, essa compra pode ser feita pelo celular, pois o Mercado Livre lançou seu marketplace farmacêutico que, agora, venderá medicamentos sujeitos a retenção de receita, incluindo os GLP-1, antibióticos e outros que antes exigiam presença física do consumidor.
Essa nova estratégia se explica porque, segundo a própria empresa, a taxa de conversão de buscas em compras para medicamentos já é superior à de suplementos, o que significa que essa demanda já existia antes deste novo canal. O Mercado Livre, então, apenas abriu a porta.
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E abriu junto com outra porta que muda, e muito, sua operação logística inteira: o Chega Agora, serviço que entrega produtos de qualquer categoria em no máximo uma hora na Grande São Paulo, usando uma rede própria de entregadores. A combinação entre farmácia com receita e entrega em 60 minutos é a fórmula que transformará o Mercado Livre de um marketplace de eletrônicos em, cada vez mais, uma plataforma de conveniência diária, o tipo de serviço que o consumidor abre não quando quer comprar algo especial, mas quando precisa de algo agora.
Com isso, a empresa encerrará 2026 com 72 centros logísticos de grande porte no Brasil, vinte a mais do que no ano passado, e a ofensiva sobre o varejo farmacêutico acontece no exato momento em que a última milha brasileira se tornou o campo de batalha mais disputado do comércio digital - afinal, iFood, 99 e, agora, o Mercado Livre correm juntos em um mesmo mercado.
A Entrelinha que conecta essa notícia ao arco que percorre nossas edições há meses é a dos GLP-1. Quando o Mercado Livre começa a vender canetas emagrecedoras com retenção de receita, online, com entrega em uma hora, ele está eliminando a última barreira de atrito entre o consumidor e o medicamento que, como documentamos, já derrubou o preço global do açúcar, alterou o mercado de etanol, encolheu os tamanhos da Track&Field, impulsionou a Spaten Pro da Ambev e provocou cinco novos genéricos aprovados pela Anvisa.
Assim, cada barreira de acesso que cai desbloqueia uma onda de novos usuários cujo corpo, cujo apetite e cujo padrão de consumo mudam, gerando efeitos cascata que se espalham do supermercado ao agronegócio. Enfim, o Mercado Livre não está apenas vendendo remédio, mas está, de fato, acelerando uma transformação que já estava em curso, e cada hora a menos no prazo de entrega é um mês a mais de antecipação no impacto que ela produz.
Zuckerberg É o 5º Mais Rico do Mundo (Por Causa do Muse)
Dois anos atrás, Zuckerberg estava queimando dezenas de bilhões no metaverso, os investidores, por isso, exigiam cortes de gastos, e os memes sobre o Horizon Worlds com gráficos de PlayStation 2 dominavam a internet. O consenso era de que a Meta havia perdido o rumo. Nesta quarta-feira, porém, Zuckerberg se tornou a quinta pessoa mais rica do planeta, com um salto de mais de US$ 4 bilhões em seu patrimônio num único dia, impulsionado pela valorização das ações que acompanha o entusiasmo do mercado com o Muse, que é o agente pessoal de IA que, em menos de duas semanas, acumulou 2,8 milhões de downloads e desbancou o ChatGPT no topo da App Store americana.
Nesse ambiente de excitação, o Meta Connect, evento da empresa que acontece hoje, deve ampliar a onda com novos produtos de IA e óculos inteligentes.
O que separa Zuckerberg de outros bilionários que surfam altas momentâneas é que a valorização da Meta não vem de um produto isolado, mas vem da convergência de decisões que, lidas em sequência, desenham uma estratégia mais ambiciosa do que qualquer uma que a empresa já executou. Em primeiro lugar, o Meta One transformou o Instagram, o WhatsApp e o Facebook numa plataforma de assinatura paga. Em segundo, o Muse conecta essa plataforma a um agente que gerencia a vida digital do usuário, do e-mail às compras ao banco. Em ato contínuo, os óculos Ray-Ban Meta adicionam câmera, áudio e IA ao rosto de milhões de pessoas. E, por fim, os anúncios do ChatGPT Ads, que a OpenAI começou a testar com seus agentes, forçam a Meta a provar que sua máquina de publicidade (que é a mais lucrativa do mundo) é mais poderosa do que um chatbot que conversa com o consumidor em nome das marcas, uma vez que o Muse, literalmente, intermedia a relação entre o usuários e os possíveis patrocinadores da Meta.
Deste modo, a pergunta que a fortuna de Zuckerberg levanta, contudo, é a mesma que fizemos quando o Muse atingiu o topo da lista de downloads: o entusiasmo reflete substância ou momento? Outros produtos de IA, como o Sora, da OpenAI (sendo o exemplo mais citado) também tiveram lançamentos explosivos e perderam tração semanas depois. Somado a isso, a revelação de que a Meta usa funcionários terceirizados para realizar parte das tarefas que o Muse promete executar por IA, como reportou a Reuters, continua sem uma resposta pública satisfatória por parte da empresa.
Portanto, Zuckerberg é a quinta pessoa mais rica do mundo porque o mercado acredita que o Muse é o começo de algo, não o pico. Se for o começo, a Meta terá feito a transição mais improvável do setor de tecnologia: de rede social a plataforma de agentes de IA que domina o cotidiano de bilhões de pessoas. Se for o pico, o patrimônio de Zuckerberg será o primeiro a sentir. E, por incrível que pareça, a distância entre os dois cenários é exatamente o que torna a Meta, neste momento, a aposta mais fascinante, e mais arriscada, do mercado de tecnologia.
O Google Vai Testar IA no Espaço
Existe um problema que nenhum data center na Terra resolve: a eletricidade acaba. A demanda por energia de inteligência artificial cresce a um ritmo que as redes elétricas terrestres não conseguem acompanhar, e cada novo data center que a Amazon, a Microsoft ou o Google constroem no Texas ou na Virgínia disputa watts com hospitais, fábricas e residências que já estavam lá. A solução que o Google e a SpaceX estão explorando, cada um à sua maneira, é levar os computadores para o único lugar onde a energia é gratuita, ilimitada e não compete com ninguém: o espaço.
Com efeito, na próxima semana, o Google enviará um satélite protótipo à órbita baixa da Terra carregando seus chips TPU (os mesmos processadores que rodam o Gemini em data centers terrestres) para testar como eles se comportam sob radiação solar, no vácuo, sem circulação de ar para resfriamento e depois de um lançamento de dez minutos que submete cada componente a cenários extremas. O projeto, chamado Suncatcher, prevê dois satélites em órbita já em 2027 e, eventualmente, constelações inteiras de processadores conectados que executam cargas de trabalho de IA em conjunto, alimentados por painéis solares que, no espaço, recebem luz 24 horas por dia.
A SpaceX, que possui os mesmos planos, opera em outra escala, e com outra paciência: ela planeja operar até um milhão de satélites de IA usando o Starship, transformando a órbita terrestre no maior data center já concebido.
A ironia de a SpaceX fornecer o lançamento para o Google, sendo que ambas pretendem dominar a computação orbital, é a Entrelinha mais reveladora deste anúncio. No curto prazo, a SpaceX lucra vendendo viagens ao espaço para quem, no longo prazo, será seu concorrente direto - o Google. Mas Musk calcula, com razão, que o mercado de computação em órbita é grande o suficiente para acomodar ambos, e que cada lançamento bem-sucedido do Falcon valida a infraestrutura que o Starship usará para uma escala incomparavelmente maior.
Diante disso, para investidores, a questão permanece em aberto: ninguém sabe se rodar IA no espaço será mais barato do que na Terra, porque os custos de resfriamento no vácuo, manutenção de satélites e latência de comunicação entre órbita e superfície são incógnitas que só testes reais responderão. O que não é incógnita é que a demanda energética de IA na Terra atingirá, nos próximos anos, um limite físico que nenhuma rede elétrica foi projetada para suprir. E quando o limite é físico, a única saída é ir para onde a física não impõe a mesma restrição. Balboa olhou para o Pacífico e viu um oceano que não estava no mapa. O Google e a SpaceX olham para o céu e veem data centers que não precisam de tomada.
O Jantar que Reúne os Dois Presidentes e Todos os CEOs
Quando se tenta imaginar a mesa de jantar mais poderosa do planeta em setembro de 2026, não é preciso ir muito longe: ela está na Casa Branca, nesta quinta-feira à noite, com Donald Trump e Xi Jinping nas cabeceiras e, ao redor, Jensen Huang, Sam Altman, Satya Nadella, Tim Cook, Sundar Pichai, Cristiano Amon, Elon Musk e Jeff Bezos. São as duas pessoas que comandam os dois países mais poderosos do mundo sentadas com as oito pessoas que comandam as oito empresas mais valiosas do mundo. E o assunto principal da noite é quem vende chips para quem, e sob quais condições.
A cúpula acontece num momento em que cada fio geopolítico que o Entrelinhas acompanha há meses converge para a mesma mesa. Os Estados Unidos restringem o acesso chinês aos chips mais avançados da Nvidia, e Huang pressiona pessoalmente a Casa Branca para afrouxar as regras. A China acusa laboratórios americanos de quererem sabotá-la, enquanto seus modelos abertos (o Kimi K3 e o DeepSeek, por exemplo) ganham mercado no Ocidente cobrando muito menos do que os americanos.
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Nesse cenário, o governo Trump rejeitou, ontem na ONU, qualquer coordenação internacional para IA, chamando-a de “esquema globalista”. E Xi chega a Washington com uma trégua comercial que vence em novembro e uma agenda que inclui chips, terras raras, Taiwan e o Irã. A inteligência artificial, portanto, não é um item da pauta, mas é a própria pauta da reunião.
A Entrelinha mais importante do jantar, contudo, não é o que será dito, mas é o que a composição da mesa revela sobre como o poder se organiza em 2026. Numa era anterior, cúpulas entre chefes de Estado envolviam diplomatas, generais e ministros. Nesta, envolvem CEOs cujas empresas valem, juntas, mais do que o PIB da maioria dos países presentes na Assembleia-Geral que acontece no mesmo prédio, a poucas quadras dali.
Ainda, a presença de Huang, Altman e Cook ao lado de Trump e Xi é, mais do que uma cortesia, uma necessidade. Porque as decisões que definem a corrida da IA não são mais tomadas por governos sozinhos nem por empresas sozinhas. São tomadas na interseção entre os dois, isto é, num jantar onde o preço de um chip é, ao mesmo tempo, questão de comércio, de segurança nacional e de quem lidera a tecnologia que redesenha a economia do planeta. Balboa cruzou o Panamá para ver o que havia do outro lado. Os homens sentados naquela mesa já sabem o que há. A questão é quem fica com a maior parte.






