Embraer Supersônica, BigTech-Cracia, Disney em Turbulência e a Revolução do TikTok
Bom dia! Hoje é 26 de março. Neste mesmo dia, em 1953, o virologista americano Jonas Salk anunciava ao mundo que havia desenvolvido com sucesso uma vacina contra a poliomielite, uma conquista que salvaria milhões de vidas e provaria que soberania nacional se constrói, antes de tudo, com capacidade científica e industrial própria.
Sete décadas depois, a lição permanece intacta, mas os domínios mudaram: soberania, hoje, se mede menos em vacinas e mais em semicondutores, caças supersônicos, algoritmos de inteligência artificial e no controle das plataformas que moldam o consumo de bilhões de pessoas. As notícias de hoje mostram que quem domina tecnologia não apenas compete, mas define as regras do jogo.
O Brasil Agora Produz Caças Supersônicos
A apresentação do primeiro caça supersônico F-39 Gripen produzido inteiramente em solo brasileiro, na planta da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, é um daqueles marcos que transcendem a esfera militar e tocam diretamente a questão da identidade industrial de um país.
O programa, avaliado em US$ 4 bilhões para 36 aeronaves, não é apenas uma compra de equipamento de defesa, mas é mais um passo rumo a construção de uma capacidade que coloca o Brasil em um grupo restritíssimo de nações aptas a fabricar, manter e evoluir aeronaves de combate de última geração. Essa linha de produção, vale lembrar, é a primeira fora da Suécia desde a fundação da Saab, em 1937, algo que diz tanto sobre a confiança depositada na engenharia brasileira quanto sobre a ambição que sustenta o projeto.
O que torna esse feito ainda mais relevante é o modelo de transferência tecnológica que o viabilizou. Com mais de 350 profissionais brasileiros, (técnicos, engenheiros e pilotos) foram treinados pela Saab para dominar todo o ciclo de vida da aeronave, da fabricação à manutenção. Isso significa que o Brasil não adquiriu apenas um produto, mas internalizou um ecossistema de conhecimento. A diferença entre comprar um caça e saber construí-lo é a mesma que separa dependência de soberania. E, como Francisco Gomes Neto, presidente da Embraer, fez questão de sinalizar, a planta de Gavião Peixoto já está preparada para fabricar o Gripen para outros países, abrindo uma avenida de exportação que, se bem executada, pode transformar o Brasil em fornecedor de defesa para mercados emergentes que buscam alternativas aos tradicionais fornecedores americanos e europeus.
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A Embraer, aliás, vive um momento raro de convergência positiva. Além do F-39, o KC-390, um avião militar de transporte que vem ganhando tração internacional, e a recente encomenda de até 74 aeronaves comerciais pela Latam reforçam a posição da empresa como uma das poucas campeãs nacionais que operam com competitividade genuína em escala global.
Em um país que historicamente exporta commodities e reimporta tecnologia, a Embraer é a prova viva de que é possível construir valor na ponta mais sofisticada da cadeia industrial. O desafio, como sempre, é garantir que esse tipo de capacidade não fique restrito a um caso isolado, mas se torne modelo replicável para outros setores estratégicos que nós insistimos em negligenciar.
O Vale do Silício na Mesa do Poder
A nomeação de Mark Zuckerberg, Sergey Brin, Jensen Huang, Larry Ellison e Marc Andreessen para o conselho consultivo de ciência e tecnologia do presidente Trump (o PCAST) pode ser lida, à primeira vista, como um gesto protocolar. Não é. O que está em curso é a formalização de uma aliança entre poder estatal e poder corporativo tecnológico que, embora não seja inédita na história americana, nunca operou com tanta profundidade e tão pouca mediação. Afinal, os maiores nomes do Vale do Silício não estão apenas aconselhando o governo, mas estão, na prática, co-desenhando a política industrial, regulatória e geopolítica dos Estados Unidos na era da inteligência artificial.
O contexto do segundo mandato de Trump torna essa convergência ainda mais significativa. A reaproximação entre as Big Techs e a Casa Branca, que começou com gestos de conciliação e doações de campanha, evoluiu para uma simbiose funcional, onde as empresas obtêm um ambiente regulatório favorável, proteção tarifária contra concorrentes chineses e acesso privilegiado a contratos governamentais. Já o governo, em contrapartida, assegura que a liderança americana em IA, semicondutores e infraestrutura digital se mantenha sob sua esfera de influência.
É um arranjo em que ambas as partes ganham poder, mas o contribuinte e o cidadão comum ficam, no mínimo, com o direito de perguntar: quem, afinal, regula quem?
A questão que emerge desse alinhamento é estrutural e vai além da política americana. Pois, quando os mesmos indivíduos que controlam as plataformas de comunicação global, os chips que alimentam a IA e os modelos fundacionais que reorganizam mercados inteiros passam a também influenciar diretamente a política de Estado, a fronteira entre interesse público e interesse corporativo se dissolve de forma potencialmente irreversível. Desse modo, não se tratando de conspiração, mas de arquitetura institucional, podemos chegar a conclusão de que decisões sobre regulação de IA, privacidade de dados, antitruste e política comercial serão tomadas por um governo cujos conselheiros mais próximos são, simultaneamente, os maiores beneficiários dessas mesmas decisões.
Para o restante do mundo, e particularmente para países que dependem de tecnologia americana, o recado é claro: a política tecnológica dos EUA agora é, explicitamente, a política das Big Techs. Adaptar-se a essa realidade, ou construir alternativas, deixou de ser escolha e passou a ser necessidade.
Quando Apostas Bilionárias Desmoronam na Primeira Semana
Josh D’Amaro mal completou uma semana como CEO da Disney e já viu duas de suas apostas estratégicas mais ambiciosas entrarem em colapso quase simultâneo. O primeiro golpe veio da OpenAI, que anunciou o encerramento do Sora, seu aplicativo de geração de vídeos, desfazendo uma parceria de US$ 1 bilhão que previa o uso de mais de 200 personagens da Disney em conteúdo gerado por inteligência artificial. O segundo veio da Epic Games, que demitiu mil funcionários após o fracasso de novas versões do Fortnite, justamente a plataforma na qual a Disney havia investido US$ 1,5 bilhão para construir um universo digital interativo com seus personagens. Duas apostas bilionárias. Dois reveses em menos de 24 horas.
O episódio é revelador não apenas sobre os riscos de D’Amaro, mas sobre uma tensão mais ampla que atravessa toda a indústria do entretenimento: a promessa da tecnologia como extensão natural do conteúdo ainda não encontrou um modelo de negócio que se sustente. A parceria com o Sora representava a aposta de que vídeo gerado por IA seria o próximo canal de consumo de narrativas. O recuo da OpenAI, contudo, sugere que a tecnologia de geração de vídeo ainda não atingiu a maturidade necessária para justificar investimentos dessa magnitude, e que até mesmo as empresas mais capitalizadas do setor estão reavaliando onde concentrar recursos.
Já o caso da Epic expõe uma realidade mais dura, onde o engajamento em plataformas de jogos é brutalmente volátil, e transformar um fenômeno cultural como o Fortnite em veículo permanente de entretenimento de marca é mais difícil do que qualquer apresentação a investidores faria parecer.
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Para a Disney, portanto, as implicações vão além das perdas financeiras imediatas. D’Amaro assumiu o cargo com a promessa de transformar o Disney+ em um portal para experiências interativas, jogos e conteúdo personalizado por IA. Essa visão agora perde seus dois pilares inaugurais antes mesmo de sair do papel. O risco estratégico é que a empresa, ao tentar perseguir a próxima fronteira tecnológica, perca de vista aquilo que sempre sustentou seu império: a propriedade intelectual e a capacidade de contar histórias que atravessam gerações.
A tecnologia, em si, não é o produto, ela é o meio. E quando o meio se revela instável, o que resta é a força da narrativa. A Disney ainda tem, provavelmente, o maior acervo de propriedade intelectual do entretenimento global. A questão é se seu novo líder saberá proteger esse ativo enquanto busca, com mais cautela, os parceiros tecnológicos certos para amplificá-lo.
O TikTok Reescreveu as Regras do Jogo e Agora Todos Correm Atrás
A decisão da Meta de lançar ferramentas de comércio eletrônico integradas ao Instagram e ao Facebook, permitindo que criadores de conteúdo adicionem links de compra diretamente em vídeos e publicações com parceiros como Mercado Livre, Amazon, Temu e eBay, não é inovação, mas é uma confissão. O TikTok Shop, que transformou a plataforma chinesa em um dos canais de venda mais dinâmicos do mundo digital, provou que o comércio social não era uma moda passageira, mas uma nova realidade permanente da forma como pessoas descobrem, desejam e compram produtos. A Meta, que durante anos tratou o e-commerce como funcionalidade secundária em suas plataformas, agora corre para replicar um modelo que seu principal concorrente já validou com números impressionantes.
O que o TikTok Shop revelou, e que a Meta agora tenta absorver, é que a fronteira entre entretenimento, influência e transação comercial desapareceu de forma definitiva. O consumidor não quer mais ser interrompido por um anúncio; ele quer que o produto apareça dentro do conteúdo que já está consumindo, apresentado por alguém em quem confia, com um botão de compra a um toque de distância. Essa fusão entre atenção e conversão muda radicalmente a equação para marcas, que agora precisam investir menos em campanhas publicitárias tradicionais e mais em parcerias com criadores capazes de gerar demanda orgânica. Para os próprios criadores, a mudança é igualmente profunda, afinal, eles deixam de ser veículos de exposição para se tornarem canais de venda direta, com comissões proporcionais ao engajamento real que geram.
Em paralelo, outra transformação que vem se tornando cada vez mais evidente é o fenômeno dos microdramas, ou seja, o formato séries curtas com roteiros originais pensados exclusivamente para consumo vertical em smartphones. Mesmo que o setor ainda seja parcialmente nichado, o aplicativo ReelShort, líder desse segmento, faturou US$ 1,2 bilhão em gastos de consumidores apenas no último ano, provando que formatos nativos de dispositivos móveis não são pontos experimentais, mas mercados bilionários em consolidação.
O que conecta o TikTok Shop aos microdramas é a mesma lógica estrutural de que o celular, há algum tempo, deixou de ser um intermediário para o consumo e se tornou o próprio ambiente onde entretenimento, comércio e cultura se fundem em uma experiência única. Deste modo, para empresas que ainda pensam em “estratégia mobile” como um apêndice de sua operação principal, o recado é bastante direto: o mobile não é mais um canal. É o mercado.






