Bom dia! Hoje é 26 de agosto. Neste mesmo dia, em 1743, nascia em Paris o químico Antoine Lavoisier, o homem que transformou a alquimia em ciência moderna ao insistir, com uma teimosia que lhe custaria a vida, que tudo na natureza deveria ser pesado, medido e verificado antes de ser aceito como verdade. Foi Lavoisier quem provou que a matéria não se cria nem se destrói, quem batizou o oxigênio e o hidrogênio, e quem demonstrou que o ar não era um elemento único, mas uma mistura de gases que a humanidade respirava há milênios sem saber o que estava respirando. Cinquenta anos depois, a Revolução Francesa o guilhotinou. O juiz que assinou a sentença disse que “a República não precisa de sábios”.
Duzentos e oitenta e três anos depois, a obsessão de Lavoisier por tornar o invisível mensurável é, possivelmente, a força mais poderosa da economia contemporânea. As notícias de hoje são todas variações sobre esse princípio. A Apple apresenta um chip que transforma o computador pessoal em laboratório de inteligência artificial, permitindo que modelos complexos rodem localmente, sem que seus dados precisem atravessar a nuvem para serem processados. A Waymo anuncia que levará seus robotáxis a Munique, medindo cada metro de asfalto alemão com a mesma meticulosidade que Lavoisier dedicava a cada reação no laboratório. A Life360 coloca sensores no pescoço de oito milhões de animais de estimação, transformando cada passeio, cada refeição e cada pico de energia de um cachorro em dado rastreável por toda a família. E a Oura se prepara para um IPO de US$ 16 bilhões construído sobre a premissa de que medir continuamente o sono, a frequência cardíaca e a temperatura do corpo humano por meio de um anel no dedo vale mais do que qualquer check-up anual. Em todos os casos, o que muda não é o objeto que se observa, mas é o fato de que alguém decidiu que ele merecia ser medido.
O Último Chip da Era Tim Cook
A Apple apresentou nesta terça-feira os processadores M5 Ultra e M6, que equiparão as novas gerações do Mac Mini e do Mac Studio. O M5 Ultra é o primeiro chip de quatro núcleos da história da empresa, projetado especificamente para executar grandes modelos de inteligência artificial diretamente no computador do usuário, sem depender de servidores remotos. A ideia é que um desenvolvedor possa treinar, ajustar e rodar modelos de fronteira no próprio Mac, com a privacidade que a nuvem não garante e a velocidade que a conexão com a internet não oferece. O M6, por sua vez, é a versão voltada ao consumidor comum, ou seja, o profissional que quer usar ferramentas de IA no dia a dia sem entender necessariamente o que acontece por baixo da superfície, da mesma forma que usa o Face ID sem saber como funciona o sensor infravermelho.
O lançamento é, quase certamente, o último grande anúncio de produto sob a gestão de Tim Cook, que deixa o cargo de CEO em 1º de setembro para assumir a presidência do conselho de administração, passando o bastão a John Ternus. A transição acontece num momento em que a estratégia que Cook escolheu para a era da IA está sendo validada pelo mercado com uma clareza difícil de contestar. A Apple, diferentemente de suas concorrentes, não construiu data centers bilionários, não treinou modelos de fronteira e não entrou na insana guerra dos tokens. Em vez disso, licenciou o Gemini do Google para alimentar a Siri, firmou parcerias como o MapKit for Automotive com a Ford, e concentrou seus investimentos em chips que rodam a IA de outros com mais eficiência do que os outros rodam a própria.
Um exemplo disso, é que enquanto a Alphabet gastou US$ 44,9 bilhões de capex num único trimestre com IA (entrando em fluxo de caixa negativo), a Apple gastou US$ 2,45 bilhões, manteve uma margem bruta de 50% e atingiu os tão aclamados US$ 5 trilhões em valor de mercado. Não é que Cook tenha ignorado a IA, mas é que entendeu que, na corrida pela infraestrutura, o mais inteligente às vezes não é quem constrói o motor, mas quem dirige o carro que outra pessoa montou.
A pergunta que Ternus herda, contudo, é se essa estratégia se sustenta quando o ciclo muda. Cook protegeu a Apple da armadilha de gastos que está comprimindo as margens de suas rivais, mas também a manteve dependente de parceiros que podem, a qualquer momento, renegociar os termos da relação. Se o Google decidir cobrar mais pelo Gemini, ou se a próxima geração de assistentes exigir capacidades que só modelos proprietários oferecem, a Apple precisará construir o que até agora preferiu alugar – e construir sob pressão é sempre mais caro do que construir com antecedência. Cook sai como o CEO que transformou disciplina financeira em vantagem competitiva. Ternus precisará provar que a disciplina não foi, na verdade, procrastinação.
A Waymo Leva seus Robotáxis à Indústria Automobilística Alemã
A Waymo anunciou que levará seu serviço de robotáxis a Munique, tornando a cidade bávara a primeira da Europa continental a receber os veículos autônomos da subsidiária da Alphabet. O processo seguirá o mesmo roteiro que a empresa aplica em cada uma das onze cidades americanas onde já opera: primeiro, os carros percorrem as ruas com motoristas humanos ao volante, mapeando cada faixa, cada sinalização e cada cruzamento. Depois, rodam de forma autônoma com um motorista de segurança presente. Em seguida, o motorista sai do carro. E, por fim, o serviço abre ao público pagante. A Waymo ainda não possui autorização regulatória na Alemanha, mas o país é, desde 2021, o primeiro da União Europeia a ter legislação que permite veículos totalmente autônomos em vias públicas.
A escolha de Munique carrega uma carga simbólica que vai além da logística. Munique é a sede da BMW, o coração pulsante de uma indústria automobilística alemã que, como o mercado tem visto, enfrenta uma pressão existencial vinda de múltiplos lados ao mesmo tempo. Montadoras chinesas como a BYD e a Denza já conquistaram grande parcela do mercado premium global. A Tesla testa em Austin seu Cybercab sem volante nem pedais. E a Wayve, startup britânica, já propõe licenciar seu software de direção autônoma diretamente às montadoras como uma espécie de “Android dos carros”. E, quando a Waymo estaciona um robotáxi sem motorista na cidade que inventou o prazer de dirigir, a mensagem é de que o futuro do automóvel será definido não por quem monta o chassi, mas por quem escreve o software que o dirige. E quem escreve esse software, neste momento, não é nenhuma montadora alemã.
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O contexto europeu adiciona à operação uma complexidade que o mercado americano não enfrenta. A Waymo já confirmou planos para Londres, onde competirá com a Wayve e sua parceira Uber, a mesma Uber que, não passado não tão distante, fez lobby nos Estados Unidos para exigir que robotáxis mantenham motoristas humanos em 85% das viagens. A regulação trabalhista europeia é mais rígida, a resistência sindical mais organizada, e a sensibilidade pública à automação de empregos mais aguda do que na Califórnia ou no Texas.
A Waymo terá que provar não apenas que seus carros dirigem com segurança, mas que a sociedade alemã está disposta a aceitar que eles o façam, e que os benefícios da autonomia superam o desconforto de ver táxis sem motorista circulando por ruas onde, até ontem, um ser humano estava ao volante. A direção autônoma na Europa não é apenas um problema de engenharia, mas, de fato, é um problema de consentimento social. E esse problema, ao contrário de um sensor de lidar ou de um algoritmo de navegação, não se resolve com mais dados.
O Seu Pet Agora Tem Perfil Digital
A Life360, aplicativo de localização familiar com mais de 80 milhões de usuários em 150 países, expandiu seus recursos de rastreamento de animais de estimação com o lançamento de etiquetas escaneáveis, alertas de picos de energia e ferramentas que permitem à família inteira acompanhar se seu cachorro foi alimentado, passeado, medicado ou se a caixa de areia do gato foi limpa. Desde que a empresa adquiriu a Tile e integrou sua tecnologia de rastreamento, mais de oito milhões de pets foram adicionados às contas de seus usuários, transformando um aplicativo que nasceu para localizar filhos adolescentes num sistema de monitoramento que agora abrange cada membro da casa, incluindo os que têm quatro patas.
Lida isoladamente, uma etiqueta escaneável na coleira de um cachorro parece um acessório menor. Lida ao lado da transformação que vem afetando toda nossa sociedade, é mais um capítulo de uma tendência que ganha força econômica a cada semana: a humanização dos animais de estimação está criando, para pets, o mesmo ecossistema de saúde, dados e consumo recorrente que já existe para seres humanos.
A Wigow, por exemplo, prepara seu suplemento de controle de peso para cães com 40 mil tutores na fila de espera; e o iFood já opera em seu aplicativo a aba “pet shop” como uma categoria recorrente dentro do seu marketplace. E agora a Life360 converte cada passeio, cada refeição e cada pico de atividade de um animal em dado compartilhado por toda a família, com a mesma naturalidade com que compartilha a localização dos filhos na escola.
O padrão que se consolida é que à medida que famílias diminuem de tamanho e animais ocupam o espaço afetivo que antes pertencia a filhos, o mercado migra junto. Suplementação, monitoramento, medicina preventiva, rastreamento comportamental… serviços que o mercado de saúde humana levou décadas para construir estão sendo replicados para pets numa fração do tempo, porque a infraestrutura digital que os viabiliza já existe. O que falta é apenas a decisão de apontá-la para o animal em vez de para o dono. E essa decisão, a julgar pelos oito milhões de pets já rastreados e pelos R$ 7 bilhões que o mercado de suplementação animal movimenta, já foi tomada.
O Anel que Mede Seu Corpo Vai à Bolsa
A Oura, fabricante finlandesa dos anéis inteligentes que monitoram sono, frequência cardíaca e temperatura corporal, planeja um IPO nos Estados Unidos no próximo mês que pode levantar até US$ 3 bilhões e avaliar a empresa em mais de US$ 16 bilhões. Sua receita demonstra o porque do valuation, uma vez que dobrou de US$ 500 milhões para US$ 1 bilhão entre 2024 e 2025, e a projeção para 2026 é de US$ 2 bilhões – um ritmo de crescimento que posiciona a Oura entre as empresas de hardware de consumo de crescimento mais rápido do mundo, ao lado do Apple Watch nos seus primeiros anos e do AirPods na fase de explosão de demanda.
A empresa que começou como uma ferramenta de fitness para executivos do Vale do Silício se reinventou como marca de saúde de massa, e a trajetória é reveladora sobre a direção do mercado de vestíveis como um todo. A Whoop, sua concorrente mais direta, percorreu caminho semelhante: de pulseira para atletas de elite a plataforma de monitoramento hormonal e exames de sangue que já vale US$ 10 bilhões. A Samsung lançou o Galaxy Ring há dois anos. O Google redesenhou o Pixel Watch para entregar resumos mensais de pressão arterial e resistência à insulina. E a OpenAI abriu o ChatGPT Health para mais de 300 milhões de perguntas semanais sobre saúde, criando um consultório informal acessível a qualquer pessoa com conexão à internet.
Assim, é cada vez evidente que corpo humano se tornou, nas Entrelinhas, a próxima grande plataforma de dados do planeta, e quem conseguir medir, interpretar e monetizar esses dados continuamente terá construído um modelo de receita recorrente tão poderoso quanto qualquer assinatura de software.
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A tensão que acompanha essa promessa, porém, é a mesma que Lavoisier enfrentou ao medir o que antes era um mistério: medir transforma a compreensão, mas também transforma a relação com o que se mede. Monitorar o sono é útil até o momento em que cada noite mal dormida vira fonte de ansiedade. Acompanhar a frequência cardíaca é valioso até que variações perfeitamente normais provoquem consultas desnecessárias. A Oura e seus concorrentes operam na fronteira exata entre empoderar e alarmar, e o modelo de negócio depende de que o usuário permaneça no lado do empoderamento, porque quem se assusta demais desliga o anel e cancela sua assinatura.
Lavoisier provou que medir é o primeiro passo para entender. Mas também provou, com a própria cabeça, que nem tudo que pode ser medido está pronto para ser julgado. O mercado de US$ 16 bilhões que a Oura leva à bolsa é construído sobre a premissa de que saber mais sobre seu corpo é sempre melhor. A resposta, como na maioria das coisas que envolvem saúde, é mais complicada, e mais interessante, do que um sim ou um não.






