China Blinda a Manus, OpenAI Quer Seu Bolso, Robôs Já Negociam por Você e o Brasil na Encruzilhada do Século
Bom dia! Hoje é 28 de abril. Neste mesmo dia, em 1969, Charles de Gaulle renunciava à presidência da França após perder um referendo popular, encerrando uma era em que soberania nacional era sinônimo de vontade política inabalável. Cinquenta e sete anos depois, a soberania já não se mede apenas em tanques ou tratados, mas em modelos de linguagem, patentes de semicondutores e no controle sobre quem treina a inteligência que moldará o próximo século. E as notícias de hoje mostram que essa disputa está longe de ser abstrata.
A China Blinda Seus Cérebros Artificiais
A decisão da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China de bloquear a aquisição da Manus pela Meta, mesmo após o acordo de mais de US$ 2 bilhões ter sido formalizado em dezembro, não é um episódio isolado de protecionismo regulatório. É a consolidação de uma doutrina, onde para Pequim, inteligência artificial deixou de ser ativo comercial e passou a ser patrimônio estratégico nacional, tão inegociável quanto urânio enriquecido ou rotas de satélite.
A Manus, celebrada pela mídia estatal chinesa como “a próxima DeepSeek” após lançar o que alegou ser o primeiro agente de IA geral do mundo, representa exatamente o tipo de capacidade que a China não está disposta a exportar, independentemente do preço oferecido.
O que torna o episódio particularmente revelador é o que ele diz sobre os limites da engenharia jurídica corporativa. Afinal, a Manus havia transferido sua sede para Cingapura meses antes do bloqueio, seguindo uma onda de startups chinesas que tentaram mitigar riscos geopolíticos por meio de realocação societária. A resposta de Pequim a isso, contudo, foi inequívoca: a jurisdição que importa não é a do CNPJ, mas a da origem do talento e da propriedade intelectual. Ao impedir que o CEO Xiao Hong e o cientista-chefe Ji Yichao deixassem o país durante a revisão do acordo, o governo chinês deixou claro que mudar de endereço não equivale a mudar de lealdade, e que o escrutínio estatal acompanha o cérebro, não o passaporte.
As implicações desse movimento da China para o ecossistema global de IA são profundas e imediatas, ao passo que, para empresas americanas como a Meta, que buscam atalhos para competir na corrida dos agentes autônomos, o bloqueio fecha uma das últimas portas de aquisição direta de capacidade chinesa. Por outro lado, para startups de IA em qualquer lugar do mundo com fundadores ou pesquisadores chineses, o caso Manus funciona como um aviso, elucidando que o capital de risco ocidental pode oferecer valuations atraentes, mas Pequim possui poder de veto sobre a saída.
E, para a cúpula entre Trump e Xi prevista para meados de maio, o episódio adiciona mais uma camada de tensão a uma agenda já sobrecarregada, já que guerra tecnológica entre as duas maiores economias do planeta não está desacelerando; está, na verdade, migrando de chips para cérebros, e de hardware para o ativo mais valioso do século: a inteligência que cria inteligência.
O Novo Celular que Não Quer Ser Celular
A notícia de que a OpenAI está desenvolvendo processadores personalizados para um smartphone próprio, em colaboração com Qualcomm, MediaTek e Luxshare, pode parecer, à primeira vista, mais uma big tech entrando no mercado de dispositivos móveis. Mas reduzir o movimento a isso seria perder o ponto central do movimento, pois o que Sam Altman está projetando não é mais um wearable para o mercado, mas é uma interface de captura de realidade contínua projetada para alimentar agentes de IA que, no limite, substituem a lógica dos aplicativos como a conhecemos.
O detalhe técnico mais revelador deste celular está na arquitetura dos chips. Ao priorizar eficiência energética e gestão de memória sobre potência bruta, a OpenAI sinaliza que o dispositivo será, em essência, um coletor de dados ambientais permanente, capaz de executar modelos de IA localmente enquanto delega as tarefas mais complexas à nuvem. Essa divisão de trabalho entre processamento local e remoto é precisamente o que permite a assistência contextual ininterrupta, o cenário em que o aparelho não espera comandos, mas antecipa necessidades.
Combinado aos projetos paralelos, como os fones inteligentes “Dime” e a caneta sem tela “Gumdrop”, equipada com câmeras e microfones para consciência ambiental, o que surge é um ecossistema de dispositivos cujo propósito não é entreter ou comunicar, mas perceber, interpretar e agir.
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As projeções de 300 a 400 milhões de unidades anuais são ambiciosas ao ponto de soarem irreais, mas carregam uma lógica acoplada que merece atenção. Pois se a tese da Open AI de que usuários estão progressivamente abandonando aplicativos em favor de agentes de IA se confirmar, então o smartphone como plataforma de distribuição de apps perde sua razão de ser, e o dispositivo que melhor integrar IA nativa ao hardware herdará esse mercado.
A Apple, que durante duas décadas monetizou exatamente a relação entre hardware, software e ecossistema de apps, enfrenta aqui sua ameaça mais existencial, não sobre um concorrente que faz o mesmo que ela, só que melhor, mas um concorrente que propõe um paradigma inteiramente diferente. O modelo de negócio sugerido pelo analista Ming-Chi Kuo, com pacotes de assinatura atrelados ao hardware, reforça essa leitura, ao passo que o valor não estará no aparelho em si, mas no acesso ao agente que vive dentro dele.
Se a OpenAI executar essa visão, o smartphone deixará de ser um produto e passará a ser um terminal, e quem controlar o agente controlará a relação com o consumidor, algo que, até agora, era privilégio exclusivo da Apple e do Google.
Quando Robôs Negociam Entre Si
O Project Deal da Anthropic, que colocou agentes baseados na inteligência artificial do Claude para negociar bens físicos em um marketplace exclusivo entre 69 funcionários, pode parecer um experimento corporativo pitoresco e até trivial. Contudo, seus resultados carregam e mostram implicações que transcendem o laboratório, pois entre as negociações dos agentes, 186 acordos foram firmados em uma semana e mais de US$ 4.000 foram transacionados, nos trazendo a tona a demonstração empírica de que a sofisticação do modelo de IA utilizado determina diretamente o resultado financeiro da negociação.
Em termos concretos, isso quer dizer que os participantes que foram consumidores representados pelo Claude Opus 4.5 compraram mais barato e venderam mais caro do que quem foi representado pelo Haiku 4.5, a versão menos capacitada do modelo. E o dado mais perturbador foi que os “perdedores” sequer perceberam que estavam em desvantagem.
Esse resultado inaugura uma discussão que o mercado ainda não está preparado para enfrentar. Se agentes de IA passarem a intermediar transações comerciais em escala, como já sinalizam Meta, Google e a própria Anthropic, então o acesso ao modelo mais avançado deixará de ser uma questão de conveniência e passará a ser uma questão de poder econômico. Afinal, quem puder pagar pelo agente mais sofisticado terá vantagens sistemáticas em cada negociação, desde a compra de um imóvel até a contratação de serviços.
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É a desigualdade algorítmica materializada, pois não basta ter dinheiro para competir; é preciso ter o melhor algoritmo negociando em seu nome. A satisfação ilusória dos participantes representados por modelos inferiores, que se declararam satisfeitos apesar de terem lucrado menos, é talvez o achado mais inquietante do experimento, pois sugere que a assimetria de IA pode operar de forma invisível, corroendo valor sem que a parte prejudicada sequer tenha consciência da perda.
Para o futuro do comércio, a direção é clara: estamos caminhando para um mundo em que a decisão de compra não será mais humana, mas delegada a agentes que otimizam por métricas que o próprio consumidor pode não compreender inteiramente. Marcas que hoje investem bilhões para capturar atenção humana precisarão, em breve, aprender a convencer algoritmos. E reguladores que ainda discutem proteção ao consumidor com base em modelos do século XX serão confrontados com uma realidade em que o consumidor nem sequer participa da transação. O Project Deal não é um experimento sobre o futuro; é um ensaio geral do presente que está se instalando.
O Brasil na Encruzilhada
A disputa entre Estados Unidos e China pela influência tecnológica sobre o Brasil deixou de ser uma abstração geopolítica e se tornou uma pressão concreta sobre decisões de Estado. De um lado, Washington incluiu o país entre os destinos prioritários de sua ordem executiva para exportação de “pacotes completos” de inteligência artificial, enquanto Microsoft, Amazon e Oracle anunciam investimentos bilionários em data centers em solo brasileiro. Do outro, Pequim avança com memorandos de cooperação em IA e amplia sua presença em infraestrutura digital na América Latina. Assim, o Brasil, posicionado entre os dois polos, enfrenta uma escolha que definirá não apenas sua inserção tecnológica, mas a própria natureza de sua soberania digital nas próximas décadas.
O ponto mais delicado dessa equação, e frequentemente negligenciado no debate público, é a dependência cognitiva. Os modelos de IA que já operam no setor público e privado brasileiro, da análise de crédito à triagem de políticas públicas, foram desenvolvidos majoritariamente por empresas americanas, treinados com dados que refletem realidades e vieses daquele país, e hospedados em servidores sujeitos ao CLOUD Act, legislação que autoriza o governo dos EUA a requisitar dados armazenados por provedores americanos em qualquer jurisdição do mundo.
Em outras palavras, a infraestrutura que sustenta decisões críticas no Brasil responde, em última instância, a Washington. A alternativa chinesa, por sua vez, traria consigo um modelo de governança de dados igualmente opaco, com o agravante de uma tradição regulatória ainda menos transparente para parceiros estrangeiros.
Contudo, a realidade é que o Brasil não precisa escolher um lado para vencer esse jogo. O país detém 23% das reservas globais de terras raras, a segunda maior concentração do planeta, além da maior matriz energética limpa entre as grandes economias, fator cada vez mais decisivo para a instalação de data centers. Possui, ainda, o PIX, um dos sistemas de pagamento digital mais sofisticados em operação no mundo, e o maior mercado de dados da América Latina. Esses ativos, combinados, conferem ao Brasil um poder de barganha que poucos países em desenvolvimento possuem. E, com isso, assim como Getúlio Vargas utilizou a siderurgia como moeda de negociação para atrair investimento estratégico e construir a CSN, o Brasil de 2026 tem nas terras raras, na energia limpa e em sua escala digital os instrumentos para negociar de igual para igual com ambas as superpotências, condicionando acesso ao mercado brasileiro a contrapartidas reais, como transferência de tecnologia, investimento em capacidade industrial local, formação de capital humano e, sobretudo, a construção de uma infraestrutura de IA que sirva ao interesse nacional, e não apenas como extensão dos ecossistemas de Washington ou Pequim.
O cavalo encilhado está passando, mais uma vez. A questão é se, desta vez, teremos a lucidez e a vontade política para montá-lo antes que ele desapareça no horizonte.










