Burry Acha que o Preço da Euforia está Chegando para a Nvidia
Enquanto a Nvidia bate recordes e o mundo celebra a era da IA, os dados nos bastidores do balanço contam uma versão da história que poucos querem ouvir.
Existe um momento, em toda bolha, em que a narrativa se torna tão coerente que questioná-la parece irracional. Os números sobem, os resultados confirmam a tese, os analistas convergem e quem duvida é tratado como alguém que simplesmente não compreendeu a magnitude da transformação em curso. Foi assim com a internet em 1999, com o mercado imobiliário em 2006 e com as criptomoedas em 2021. E é exatamente nesse ponto que Michael Burry, o investidor que ficou conhecido por apostar contra o consenso antes da crise de 2008, decidiu, mais uma vez, posicionar-se do lado oposto da multidão.
Uma semana depois de a Nvidia reportar o trimestre mais lucrativo da história de qualquer empresa de semicondutores, registrando US$ 81,6 bilhões em receita e um lucro líquido de US$ 58,3 bilhões acoplado ao crescimento de 211% em base anual, Burry publicou dois textos no Substack afirmando que as condições para uma queda estão, segundo ele, entre as mais fortes de toda a trajetória da ação. Com a cotação em máxima histórica e 39 dos 41 analistas de Wall Street recomendando compra, a provocação não é apenas contrária; é desconfortável. E, por isso mesmo, merece ter nossa atenção.
O primeiro argumento de Burry não ataca a Nvidia pelo que ela fez, mas pelo que seus próprios documentos regulatórios revelam sobre quem sustenta esse crescimento. O relatório enviado à SEC mostra que os três maiores clientes da empresa passaram a responder por 64% das contas a receber, ante 56% no trimestre anterior. Mais significativo, porém, é o detalhe que o mercado preferiu ignorar na celebração dos resultados: o maior cliente individual, que analistas do setor especulam ser a Microsoft, aumentou sua participação nas contas a receber ao mesmo tempo em que reduziu sua fatia na receita total. É a primeira vez em treze trimestres que essa divergência aparece.
O analista conjectura que a Microsoft pode estar antecipando compras de chips que ainda não precisa no curto prazo, como forma de garantir prioridade de acesso às próximas gerações de produtos da Nvidia. Na prática, isso sugeriria a existência de uma demanda artificialmente inflada para a fabricante de chips.
O risco torna-se ainda mais sensível em cenários nos quais esse único cliente eventualmente reduza suas aquisições em 20%, por exemplo. Um movimento dessa magnitude teria impacto estimado de 4,2% sobre a receita total da Nvidia. E, para uma empresa cujo valuation pressupõe crescimento exponencial praticamente contínuo, até mesmo uma desaceleração marginal pode ser suficiente para provocar uma reprecificação severa do ativo.
O segundo argumento, contudo, é o que carrega a dimensão mais provocadora da tese. Burry cunha o termo “tokenmaxxing” para descrever um fenômeno que, segundo ele, está inflando a demanda por chips de IA de maneira insustentável. A lógica é a seguinte: empresas, pressionadas pela narrativa de que precisam adotar inteligência artificial em todas as frentes, transformaram o consumo de tokens em métrica de produtividade. Ou seja, esse consumo não se trata de uso orgânico, mas de consumo induzido por metas, rankings internos e mandatos gerenciais. O próprio Jensen Huang, CEO da Nvidia, alimentou essa cultura ao sugerir que um engenheiro de software com salário de US$ 500 mil deveria consumir ao menos US$ 250 mil em tokens de IA por ano. Sam Altman, da OpenAI, fez ecoar retórica similar.
O que Burry questiona, portanto, não é se a IA tem valor, mas se o volume atual de consumo reflete utilidade real ou um hiperconsumismo corporativo orientado por cotas e pressão institucional. A distinção é sutil e, ao mesmo tempo, decisiva, pois se a demanda por chips é sustentada por necessidade real, a Nvidia está subvalorizada; se é sustentada por um ciclo de adoção forçada que tende a se normalizar, os preços atuais precificam uma realidade que não vai se materializar.
E aqui reside o paralelo mais relevante com a análise que fizemos recentemente sobre o executivo contemporâneo que vê tudo, mas não enxerga nada. Do mesmo modo que argumentamos que o excesso de informação sem hierarquia pode corroer a qualidade das decisões, o excesso de consumo de IA sem critério pode corroer a sustentabilidade da própria cadeia que a alimenta. O tokenmaxxing, nesse sentido, é a versão computacional do mesmo fenômeno: uma abundância que parece virtude, mas que, quando não mediada por discernimento, pode revelar-se apenas ruído travestido de progresso.
Empresas comprando chips como quem acumula estoque de guerra, sem clareza sobre o retorno real de cada token processado, reproduzem, no nível da infraestrutura, exatamente a dinâmica que corrói decisões no nível executivo: a incapacidade de distinguir o que é genuinamente necessário daquilo que apenas parece urgente.
O terceiro pilar da tese de Burry mira na mecânica do próprio mercado de ações. O volume de negociação da Nvidia, medido pela média móvel de 50 dias, está no menor nível desde 1999. As opções de venda estão mais baratas do que as de ações comparáveis, o que indica que poucos investidores estão protegidos contra uma correção. E, talvez o mais preocupante, Burry projeta que, em caso de venda generalizada, haverá poucos compradores na descida, pela simples ausência de demanda estrutural capaz de absorver o movimento. É a anatomia clássica de uma queda assimétrica, onde a subida é gradual e consensual; a descida, quando vem, é rápida e solitária.
Nada disso significa, evidentemente, que Burry esteja certo. Sua própria trajetória é um lembrete de que estar certo sobre a direção não significa estar certo sobre o tempo. Na crise de 2008, ele apostou contra o mercado imobiliário anos antes de o colapso se materializar, e quase perdeu tudo antes de ganhar. Desde então, fez diversas apostas contrárias ao mercado que não se concretizaram ou se concretizaram em proporções menores do que o previsto. Suas posições vendidas em ações de tecnologia nos últimos anos renderam resultados mistos. E a Nvidia, enquanto os argumentos se acumulam, continua entregando resultados que desafiam qualquer narrativa pessimista. Afinal, o que vemos são US$ 58,3 bilhões de lucro em um único trimestre de uma empresa cuja questão central é se seu preço já reflete não apenas o presente extraordinário, mas um futuro igualmente extraordinário que pode se materializar.
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O ponto que realmente importa para líderes e estrategistas, porém, está menos na pergunta sobre se a Nvidia vai cair e mais na pergunta sobre o que a tese de Burry revela a respeito do estágio atual da revolução da IA. Porque, no fundo, os três argumentos convergem para uma mesma inquietação: a de que parte significativa da demanda que sustenta o ecossistema atual não é orgânica. É uma demanda de posicionamento, de corrida por prioridade, de medo de ficar para trás, o chamado FOMO corporativo em escala industrial. Empresas compram chips para não perder acesso. Executivos implementam IA para não parecer atrasados. Equipes consomem tokens para cumprir metas que medem atividade, não resultado.
E essa dinâmica tem consequências que transcendem o preço de uma ação. Quando escrevemos sobre o Magalu e a forma como a IA está sendo distribuída culturalmente dentro da organização, destacamos que o verdadeiro salto acontece quando a tecnologia deixa de ser projeto e vira linguagem. O risco que Burry ilumina é o exato oposto desse processo, ou seja, um ecossistema onde a IA não vira linguagem, mas burocracia. Onde o consumo substitui a compreensão e onde a adoção é medida em volume, não em valor gerado. Se essa parcela da demanda se revelar transitória, assim sendo, se, ao amadurecer, o mercado passar a otimizar o uso de IA em vez de maximizá-lo indiscriminadamente, o impacto sobre toda a cadeia de semicondutores será considerável. Não porque a IA vai perder relevância, mas porque a fase de acumulação desenfreada terá dado lugar a uma fase de racionalização. E fases de racionalização, historicamente, são onde as correções acontecem.
A questão, em última instância, não é se a IA é transformadora. Ela é, e de forma provavelmente irreversível. A questão é se o mercado está precificando a transformação real ou a euforia que a antecede. Burry argumenta que é a segunda. O mercado, por ora, aposta na primeira. E entre esses dois polos, existe um espaço imenso de incerteza que nenhum balanço trimestral, por mais espetacular que seja, consegue eliminar. Porque, no fim, a pergunta que define o destino de qualquer ativo em um ciclo de inovação não é “a tecnologia funciona?”, mas é “a demanda que a sustenta é real ou é reflexo de uma corrida que, em algum momento, vai desacelerar?”. E essa pergunta, por mais desconfortável que seja em meio à euforia, é precisamente a que todo líder deveria estar se fazendo agora.





