Harvard acaba de chamar a atenção do mercado financeiro. A universidade revelou que possui uma participação de aproximadamente US$ 2,2 bilhões na SpaceX, empresa de Elon Musk. O investimento representa mais da metade de sua carteira divulgada de ações americanas.
Mas o mais interessante dessa história não é a aposta na SpaceX. É entender por que uma universidade está investindo bilhões de dólares em empresas de tecnologia.
Nos Estados Unidos, algumas universidades funcionam como verdadeiras fábricas de conhecimento, inovação e negócios. E não estamos falando apenas das aulas.
Funciona mais ou menos assim: um pesquisador descobre uma nova tecnologia dentro de um laboratório universitário. Essa descoberta pode se transformar numa patente. A patente pode dar origem a uma startup. A startup pode receber investimentos, crescer e se tornar uma grande empresa.
A universidade pode participar desse processo de várias maneiras. Oferecendo laboratórios, conectando pesquisadores a investidores, licenciando suas tecnologias ou até ficando com uma pequena participação nas empresas que nascem de suas pesquisas. Ou seja, o conhecimento não termina quando uma pesquisa é publicada. Ele pode continuar até virar um negócio.
Stanford, por exemplo, ajudou a criar o ambiente de inovação que deu origem ao Vale do Silício. O MIT mantém uma relação próxima com empreendedores e empresas de tecnologia. Harvard combina sua força acadêmica com a administração de um dos maiores fundos patrimoniais universitários do planeta. Esse último ponto merece atenção.
Grandes universidades americanas possuem fundos chamados endowments. São patrimônios formados principalmente por doações e resultados de investimentos, administrados para sustentar as instituições por muitas gerações.
Esses recursos são aplicados em ações, empresas privadas, imóveis e outros ativos. Parte dos rendimentos ajuda a pagar bolsas de estudo, professores, pesquisas e novos laboratórios. É um mecanismo interessante: o patrimônio financia a universidade, enquanto a universidade produz conhecimento capaz de transformar a economia.
Isso não significa que Harvard tenha criado a SpaceX ou que seu investimento seja resultado de uma pesquisa própria. São coisas diferentes. Mas ambas fazem parte de um modelo no qual educação, ciência, empreendedorismo e capital estão muito mais conectados.
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E talvez esteja aqui uma das grandes diferenças entre os Estados Unidos e o Brasil. Nós também temos excelentes pesquisadores, universidades importantes e descobertas científicas relevantes. Mas ainda enfrentamos enormes dificuldades para transformar parte desse conhecimento em empresas, produtos e negócios de escala global.
Não basta produzir uma boa pesquisa. É preciso criar caminhos para que ela saia do laboratório, encontre investidores, chegue ao mercado e resolva problemas reais.
Uma universidade pode formar os profissionais que vão trabalhar nas empresas. Mas também pode ajudar a criar as próprias empresas nas quais esses profissionais vão trabalhar.
O caso de Harvard mostra que as universidades podem ocupar um espaço muito maior na economia do que simplesmente oferecer diplomas. E deixa uma pergunta importante: quantas oportunidades estamos desperdiçando porque ainda tratamos a universidade, a pesquisa científica e o mundo dos negócios como universos separados?



