Em grande parte dos textos em que se fala no custo da inteligência artificial, de cara, pensamos em data centers, chips e contas de energia altíssimas – afinal, todos os analistas parecem ter um certo apreço por essa linha. Contudo, talvez de forma menos evidente, existe uma conta menos visível que já começou a aparecer em um lugar mais próximo e menos abstrato ao nosso dia a dia: a prateleira de celulares. No trimestre encerrado em setembro, as remessas globais de smartphones caíram 22%, para 255 milhões de unidades – o pior recuo já registrado, segundo a IDC. O número é, portanto, grande o suficiente para merecer uma pergunta que vai além do ciclo de vendas: o que está tornando os celulares mais caros justamente quando deveriam estar ficando mais acessíveis? Mais acessíveis pois, em tese, a tecnologia faz parte de um dos setores do mercado que, com o avanço, tende a baratear seus produtos.
A resposta começa na memória. Os mesmos chips de memória que entram em um smartphone, agora, também entram (numa escala muito maior e especulativa) em servidores de data centers. Isso se deve ao fato de que quando a corrida pela infraestrutura de IA elevou a demanda por esses componentes, seus preços subiram para todos que os utilizam, o que inclui, inevitavelmente, fabricantes de celulares que nada têm a ver com a construção de modelos de linguagem.
Todavia, mesmo que estranho a estes movimentos, os fabricantes sentiram no bolso, haja vista que o custo da memória subiu cerca de 350% em um ano. Deste modo, para estes produtores, isso significa produzir aparelhos mais caros em um momento em que boa parte dos consumidores está mais sensível a aumentos de preços em geral (não se limitando ao setor tech). O cenário foi ser entendido, analogicamente, como morar ao lado de um empreendimento de luxo que eleva o custo do bairro inteiro: você não pediu pela construção, mas está pagando pela proximidade.
Diante desse aumento, as fabricantes de celulares têm essencialmente três saídas. Repassar o custo ao consumidor, o que significa celulares mais caros. Reduzir as especificações e qualidade dos componentes de seus aparelho para, assim, não inflacionar seu preço – o que significa, em outras palavras, produzir aparelhos piores pelo mesmo valor. Ou, então, eliminar seus modelos de entrada (os celulares mais acessíveis), o que significa menos opções na faixa baixa de seus catálogos. Nenhuma dessas alternativas é boa para quem compra, e, pior ainda, é que a combinação das três produz um mercado em que menos gente troca de celular, mas cada aparelho vendido custa mais do que custava anteriormente.
Os números confirmam essa mudança. A IDC estima que as remessas cairão 16,7% em 2026, mas o preço médio dos smartphones subirá em aproximadamente 27,6%, em números reais, 581 dólares. Assim, o valor total dos produtos disponíveis no mercado pode crescer 6,3% mesmo com a queda no volume. Tudo isso ocorre pela ocasião que as pessoas, pelo aumento de preços, compraram menos. Cada unidade custa mais. O setor, tentando sobreviver, encolherá em diversidade de aparelhos e crescerá em dólares. É uma transformação que muda não apenas o quanto o consumidor paga, mas o perfil de quem consegue pagar.
Essa pressão também está redesenhando o equilíbrio entre as fabricantes. Xiaomi e Oppo, que construíram suas posições oferecendo bons aparelhos a preços competitivos, estão entre as mais afetadas, porque seus modelos dependem de margens estreitas que uma alta de 350% nos componentes pode simplesmente eliminar. Apple e Samsung, por outro lado, resistem melhor – em parte pela escala de compra, em parte pela presença forte no segmento premium, onde o consumidor é menos sensível a reajustes. De todo modo, quando os componentes ficam caros, quem já vende celulares de mil dólares absorve o impacto com mais facilidade do que quem vende aparelhos de duzentos.
Com efeito, o produto duradouro dessa crise pode ir além de alguns trimestres ruins. Se a pressão sobre componentes persistir, e as projeções da IDC não esperam recuperação antes de 2028, o mercado pode se concentrar ainda mais em torno das empresas que conseguem continuar produzindo aparelhos premium. Logo, as marcas que dependem do volume na faixa acessível perdem margem, perdem modelos e, eventualmente, perdem espaço. Não é um cenário em que todos encolhem por igual, mas é, em verdade, um cenário em que os maiores resistem e os menores são comprimidos, acelerando uma concentração que já vinha acontecendo e que o encarecimento dos componentes torna mais difícil de reverter.
O paradoxo é evidente. A inteligência artificial promete deixar os celulares mais capazes – seja com assistentes mais inteligentes, câmeras com processamento avançado ou com novas funcionalidades que há dois anos não existiam. Mas a corrida para construir a infraestrutura dessa mesma IA está tornando os aparelhos mais caros, o que potencialmente pode acabar reduzindo a diversidade do mercado (especialmente nos celular mais acessíveis) e empurrando uma parcela dos consumidores para fora do ciclo de atualização. Nesse cenário, a tecnologia que deveria democratizar o acesso à inteligência está, ao menos no curto prazo, encarecendo o objeto pelo qual a maioria das pessoas acessa essa inteligência.
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Por fim, para quem acompanha a evolução do mercado de tecnologia, esse é um caso concreto de como os custos de uma revolução tecnológica se distribuem de maneiras que nem sempre são visíveis para quem se beneficia dela. O usuário do ChatGPT não pensa na memória do servidor que processa sua pergunta. A fabricante de celulares, sim, porque está disputando o mesmo componente. E o consumidor que entra em uma loja para trocar de aparelho descobre, sem saber exatamente por quê, que o modelo que compraria pelo preço do ano passado agora custa mais, oferece menos ou simplesmente deixou de existir. Por isso, a pergunta que se coloca não é apenas quais recursos de IA chegarão aos próximos smartphones. É quem conseguirá pagar por eles.



