As 7 Magníficas Fora do Trono, Tether no Brasil, Google no Sol e a DeepSeek nos Chips
Bom dia! Hoje é 8 de julho. Neste mesmo dia, em 1889, Charles Dow, Edward Jones e Charles Bergstresser publicavam a primeira edição do Wall Street Journal, um diário financeiro de quatro páginas vendido a dois centavos que se propunha a fazer algo que nenhuma publicação da época fazia com seriedade: explicar ao investidor comum o que de fato estava acontecendo nos mercados, sem os rumores e as manipulações que dominavam a Bolsa de Nova York no final do século XIX.
Cento e trinta e sete anos depois, o Wall Street Journal se tornou a bíblia financeira do Ocidente, e a lição que o fundou permanece intacta: mercados se movem menos por fundamentos do que pela narrativa que se constrói ao redor deles, e quem controla a narrativa influencia o fluxo de capital. As notícias de hoje são, cada uma à sua maneira, histórias sobre narrativas em transição: investidores que abandonam as gigantes que dominaram a última década, uma stablecoin que valida a tese cripto brasileira, uma big tech que aposta na energia do Sol para alimentar seus data centers, e uma startup chinesa que decide fabricar seus próprios chips porque ninguém mais vai vendê-los para ela.
As 7 Magníficas Perdem o Trono
Durante anos, as sete gigantes da tecnologia americana, respectivamente, Nvidia, Alphabet, Apple, Microsoft, Amazon, Meta e Tesla, monopolizaram não apenas a atenção dos investidores, mas a própria direção do mercado de ações. Quando as “Magnificent Seven” subiam, o S&P 500 subia junto; quando caíam, arrastavam tudo consigo. Esse, porém, ciclo parece ter se encerrado. Em 2026, enquanto o Nasdaq 100 avançou quase 18% e o S&P 500 subiu 10%, o índice que reúne as sete magníficas ganhou apenas 1,1%.
Não nos enganemos. A IA segue em alta. Mas as empresas que mais gastam com ela, não.
A rotação que está acontecendo sob a superfície do mercado é mais significativa do que os números sugerem. Os investidores não estão saindo de tecnologia. Claro que não, afinal, este é sem erro o futuro do nosso planeta. Elas estão, na realidade, redesenhando o mapa de quem lucra com a revolução da inteligência artificial.
O capital, com isso, migrou das empresas que consomem infraestrutura de IA para as que a fabricam, e estas podem ser representados pela Micron e pela Sandisk, que produzem os chips de memória sem os quais nenhum data center de IA opera, estão entre as maiores altas do ano. A Micron, como cobrimos na semana passada, chegou até a ultrapassar, mesmo que brevemente, a Meta e a Tesla em valor de mercado.
A Nvidia, que durante dois anos foi sinônimo de IA nos mercados, agora se move praticamente separada deste novo grupo de estrelas. O mercado agora decidiu que fabricar o recurso escasso, que nestes momentos, são as memórias RAM, vale mais do que consumir quantidades crescentes dele.
O motivo dessa cisão é o ceticismo crescente em relação ao retorno dos investimentos colossais que as big techs estão fazendo em IA. Microsoft, Amazon, Alphabet e Meta aceleraram drasticamente seus gastos de capital, com centenas de bilhões de dólares investidos em data centers, chips e infraestrutura de IA, mas sem demonstrar com clareza como esse investimento se converte em receita proporcional.
O próprio Zuckerberg, ontem, admitiu que o desenvolvimento de seu agente de IA “não acelerou da maneira que esperávamos”. Quando o CEO da empresa que mais gasta com IA reconhece publicamente que os resultados ficaram aquém das expectativas, investidores fazem o que sempre fazem: vão para onde o crescimento e os retornos são mais visíveis. E, neste momento, esse lugar é a cadeia de suprimentos, não o produto final.
A Tether Aposta R$ 100 Milhões no Brasil
O Mercado Bitcoin, a maior plataforma de ativos digitais da América Latina, recebeu um investimento de R$ 100 milhões da Tether, a emissora da maior stablecoin do mundo. Os recursos serão destinados à expansão da infraestrutura de pagamentos, à ampliação da oferta de investimentos tokenizados e ao fortalecimento das operações de crédito e mercados de capitais baseados em blockchain realizados pela companhia.
Para uma empresa como o Mercado Bitcoin que já atende cerca de 4,5 milhões de usuários e já processou mais de R$ 155 bilhões em volume transacionado, o aporte não é transformacional pelo seu tamanho, mas por origem, afinal, a Tether é, hoje, uma das entidades financeiras mais poderosas e controversas do planeta.
Sua stablecoin lastreada no dólar, o USDT, já processa valores acima dos US$ 1,79 trilhão por mês globalmente, um volume que supera o de muitos sistemas bancários nacionais. Assim, quando uma empresa desse calibre escolhe o Brasil como destino de capital estratégico, o gesto valida uma tese que o mercado cripto brasileiro vem construindo há anos: a de que o país, com sua combinação de regulação relativamente avançada, uma adoção massiva de stablecoins (que já representam cerca de 80% de todas as negociações declaradas de criptoativos no país) e uma infraestrutura digital madura, é o terreno mais fértil da América Latina para a construção de uma nova camada financeira baseada em blockchain.
O que está em jogo, contudo, vai além de criptomoedas. A tokenização, ou seja, o processo de representar ativos do mundo real, como imóveis, títulos ou obras de arte, em frações digitais negociáveis via contratos inteligentes, promete fazer com a propriedade o que a internet fez com a informação: torná-la granular, transferível e acessível a quem antes não tinha escala para participar.
E a infraestrutura de stablecoins, que sustentará essa tokenização e já conta com grandes consórcios que reúnem empresas como Visa, Mastercard, Stripe, BlackRock e Coinbase, está deixando de ser uma ferramenta exclusiva de traders para se tornar o novo trilho sobre o qual pagamentos, remessas internacionais e alocação de capital circularão em uma velocidade e custo que o sistema bancário tradicional simplesmente não iguala.
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O investimento da Tether no Mercado Bitcoin não é, portanto, apenas uma aposta no Brasil, mas é uma aposta de que a próxima infraestrutura financeira global será construída sobre a blockchain, e de que o Brasil será um dos primeiros mercados a adotá-la em escala.
O Google Quer a Energia do Sol
O Google participou de uma rodada de 411 milhões de euros na alemã Proxima Fusion, a maior captação privada já registrada no setor de fusão nuclear na Europa. Com o aporte, a startup atingiu uma avaliação de 2,4 bilhões de euros e se tornou a empresa de fusão mais bem financiada do continente. O investimento posiciona o Google na corrida para construir a primeira usina comercial de fusão nuclear da Europa, e, com ela, acessar a fonte de energia que a indústria de IA precisa para sobreviver ao próprio crescimento.
A fusão nuclear é o mesmo processo que alimenta o Sol: nele, se combinam dois átomos de hidrogênio para formar hélio, liberando uma quantidade colossal de energia limpa, sem emissão de carbono e sem o lixo radioativo de longa duração das usinas nucleares convencionais.
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Esta tecnologia nunca foi implantada comercialmente, uma vez que todas as usinas nucleares em funcionamento hoje usam a fissão nuclear (o processo oposto a fusão), mas a corrida para torná-la viável se acelerou nos últimos anos por um motivo muito concreto: os data centers de inteligência artificial estão devorando energia em escala que as fontes atuais não conseguem suprir. Estima-se que o consumo energético dos data centers dobre nos próximos anos, e as big techs, com isso, perceberam que fontes solares, eólicas e de gás natural não serão suficientes para sustentar modelos que ficam maiores, mais complexos e mais famintos por eletricidade a cada trimestre.
E, justamente por isso, estão fazendo movimentos semelhantes ao do Google: investir e acelerar a aposta na fusão nuclear.
O Google, obviamente, não está sozinho nessa aposta: Microsoft, Amazon e outras empresas de tecnologia também investem em startups de fusão e em reatores nucleares modulares. Mas a escolha da Proxima Fusion pelo Google revela uma dimensão adicional. Ao financiar a empresa europeia mais promissora do setor, a empresa se posiciona para garantir acesso prioritário a energia limpa no continente onde a regulação de IA é mais rigorosa e as metas climáticas mais ambiciosas, garantindo um ambiente europeu fértil para seus negócios.
E há uma ironia produtiva nessa equação: a inteligência artificial, que é a principal responsável pelo gargalo energético, é também a ferramenta que mais avança na solução dos desafios técnicos da fusão. Sistemas desenvolvidos pela DeepMind, do próprio Google, já são utilizados para controlar o plasma superaquecido dentro dos reatores experimentais, estabilizando reações que precisam operar a mais de 100 milhões de graus. A IA cria o problema e ajuda a resolvê-lo, e quem dominar esse ciclo primeiro terá acesso a energia praticamente ilimitada para alimentar os modelos do futuro.
A DeepSeek Agora Fabrica Seus Próprios Chips
A DeepSeek, a startup chinesa que em janeiro de 2025 provocou o maior abalo de um único dia na história do mercado de tecnologia ao demonstrar que modelos de IA competitivos podiam ser treinados a uma fração do custo das rivais americanas, está agora desenvolvendo seu próprio chip de inferência.
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Segundo a Reuters, o semicondutor será dedicado exclusivamente à etapa de execução dos modelos, o processo de gerar respostas após o treinamento, e a empresa já ampliou a contratação de engenheiros especializados enquanto busca parceiros de design e fabricação para viabilizar o projeto.
O movimento segue uma tendência que, em poucas semanas, se consolidou como a nova fronteira competitiva da inteligência artificial. Na semana passada, a OpenAI apresentou o Jalapeño, seu chip de inferência em parceria com a Broadcom. Dias depois, a Anthropic revelou negociações com a Samsung para um semicondutor próprio. Agora, a DeepSeek completa o quadro: todas as empresas que mais dependem de chips de IA estão tentando fabricar os seus, por motivos que variam de economia operacional a soberania tecnológica.
Mas, para a DeepSeek, a necessidade é mais do que importante, é existencial, de um modo que nenhuma rival americana enfrenta. Isso porque a startup foi construída sobre chips da Nvidia que os Estados Unidos subsequentemente proibiram de exportar para a China. E, sem acesso ao hardware mais avançado do mercado, projetar o próprio silício se torna uma estratégia, literalmente, de sobrevivência.
O desafio, contudo, é proporcionalmente brutal. Desenvolver um chip competitivo exige anos de trabalho, bilhões em investimento e acesso as tecnologias mais avançadas de fabricação que, no caso chinês, também enfrentam restrições de exportações ocidentais.
A DeepSeek, que opera com o financiamento do próprio fundador e se prepara para uma captação de US$ 7 bilhões, terá capital para tentar. Mas só o capital não resolve o gargalo de equipamentos e know-how de fabricação que apenas TSMC, Samsung e Intel possuem hoje.
Se a DeepSeek conseguir entregar um chip funcional apesar dessas limitações, terá provado que a China pode construir uma cadeia de IA completa, dos modelos ao silício, sem depender de nenhum fornecedor ocidental. Se não conseguir, terá revelado que os embargos americanos funcionam exatamente como foram desenhados: não para impedir a inovação chinesa, mas para torná-la cara o suficiente para desacelerar.






