Anthropic À Frente da OpenAI, Eli Lilly VS Bariátrica, Musk Trilionário e o "SpotifyLM"
Bom dia! Hoje é 22 de maio. Neste mesmo dia, em 1973, Robert Metcalfe, pesquisador da Xerox PARC, apresentava um memorando interno propondo um sistema de comunicação entre computadores que chamou de Ethernet, sim, a tecnologia que se tornaria a espinha dorsal das redes locais e, por extensão, de toda a infraestrutura digital que sustenta a economia global.
Cinquenta e três anos depois, a lógica inaugurada por aquele memorando, ou seja, a de que conexões entre máquinas geram mais valor do que as máquinas isoladas, continua a governar os acontecimentos que realmente importam. Da corrida entre modelos de inteligência artificial à farmacologia que desafia os médicos, passando por fortunas que ultrapassam o PIB de nações inteiras e plataformas de áudio que aprendem a fabricar conteúdo personalizado, o que une as histórias de hoje é uma mesma premissa: a infraestrutura certa, no momento certo, redefine mercados inteiros antes que a maioria perceba que o jogo mudou.
Anthropic Registra Lucro e Inverte a Narrativa da Corrida pela IA
A Anthropic, criadora do Claude, comunicou a seus investidores que deve registrar lucro operacional pela primeira vez no segundo trimestre de 2026, um marco que a própria companhia não esperava alcançar antes de 2028 e que coloca a startup, simbolicamente, à frente da OpenAI em um indicador que o mercado considerava improvável no curto prazo. Os números, apresentados durante uma rodada de captação e revisados pelo Wall Street Journal, revelam que a empresa gerou US$ 4,8 bilhões em receita apenas no primeiro trimestre deste ano, mais do que dobrando o faturamento trimestral em três meses, um ritmo de crescimento que, segundo o próprio WSJ, supera o do Zoom durante a pandemia e o de Google e Meta na véspera de seus respectivos IPOs.
Nesse cenário, o motor dessa aceleração tem nome: Claude Code. O agente de desenvolvimento de software da Anthropic já havia ultrapassado US$ 1 bilhão em receita anualizada em novembro passado, e sua adoção nos setores jurídico, financeiro e de engenharia consolidou a percepção, cada vez mais difundida no mercado, de que o Claude se tornou a referência para uso corporativo nos Estados Unidos e no mundo. Portanto, este dado confirma uma tendência que esta newsletter acompanha há meses: na conferência HumanX AI, em São Francisco, em abril, o Claude foi o modelo mais citado por desenvolvedores e executivos como ferramenta de referência, enquanto o ChatGPT, que há dois anos era sinônimo de IA generativa, apareceu com frequência notavelmente menor, e, quando mencionado, acompanhado de uma percepção incômoda para a OpenAI: a de que o produto piorou.
O faturamento anualizado da Anthropic já rondava os US$ 30 bilhões em março, com um salto de 58% em um único mês, ultrapassando os US$ 25 bilhões reportados pela OpenAI em fevereiro.
Esse avanço não é nenhum pouco acidental, afinal, a Anthropic trilhou um caminho estrategicamente oposto ao da OpenAI em quase todas as dimensões: enquanto Sam Altman diversificava com publicidade no ChatGPT, se aproximava do governo Trump e dispersava esforços entre projetos como o Sora (que foi cancelado), a Anthropic manteve seu foco cirúrgico em clientes corporativos, avanços consistentes de desempenho e uma postura de segurança que, longe de ser apenas retórica, produziu resultados concretos, gerando, inclusive, o episódio em que a empresa recusou permitir o uso irrestrito do Claude pelo Departamento de Defesa em sistemas de armamento autônomos, decisão que levou o modelo ao topo da App Store americana por um impulso orgânico de adesão.
A divulgação do lucro, contudo, coincide com um momento delicado, onde a OpenAI prepara o protocolo de seu IPO para o segundo semestre, munida de US$ 122 bilhões captados recentemente junto a Amazon, Nvidia e SoftBank. Mesmo com todas as ressalvas da Anthropic, ou seja, de que o resultado exclui remuneração em ações e de que a lucratividade pode não se manter ao longo do ano devido a gastos crescentes com infraestrutura de computação, o simples fato de uma companhia de IA registrar um trimestre de lucro operacional pode alterar a forma como investidores encaram o setor inteiro. O ciclo do dinheiro infinito, em que longos prazos de retorno eram aceitos como norma, mostra sinais de esgotamento, e a OpenAI pode enfrentar mais pressão para demonstrar rentabilidade antes do que planejava. Quando o prodígio lucra antes do pioneiro, é a narrativa do mercado que se reescreve.
Eli Lilly VS a Cirurgia Bariátrica
A Eli Lilly anunciou que a retatrutida, sua injeção experimental contra obesidade, produziu em um ensaio clínico com 2.339 participantes resultados comparáveis aos de uma cirurgia de bypass gástrico (bariátrica), historicamente, o único tratamento verdadeiramente eficaz para a maioria dos casos de obesidade grave. Pacientes que receberam a dose mais alta perderam, em média, 32 quilos após 80 semanas, o equivalente a 28% do peso corporal. Entre os mais pesados, com IMC acima de 35, a perda chegou a 38,5 quilos em dois anos, cerca de 30,3% do peso, um patamar que se equipara aos 30% a 35% típicos da bariátrica sob um mesmo período, superando com folga o que se obtém com o Mounjaro, da própria Lilly, e o Ozempic, da Novo Nordisk.
A retatrutida pertence à classe dos agonistas de GLP-1, a família farmacológica que já revolucionou o tratamento de diabetes e obesidade, mas opera em uma escala de potência inédita: enquanto o Ozempic atua sobre um único hormônio e o Mounjaro sobre dois, a retatrutida modula três, o GLP-1, GIP e glucagon, o que explica tanto sua eficácia superior quanto a intensidade de seus efeitos colaterais gastrointestinais, que levaram 11% dos participantes da dose mais alta a abandonar o estudo. É um custo relevante, mas que revela a tensão central desta nova geração de fármacos, onde potência e tolerabilidade caminham, por enquanto, em direções opostas.
As implicações estruturais desse avanço vão muito além da balança. Nós já comentamos extensamente por aqui como os GLP-1 estão redesenhando indústrias inteiras fora da farmácia: desde o J.P. Morgan projetando perdas anuais de US$ 30 a US$ 55 bilhões para a indústria de alimentos entre 2030 e 2034, até gigantes como Nestlé e General Mills reformulando linhas inteiras de produtos para consumidores que reduziram a ingestão calórica em 21% e passaram a gastar 31% menos em supermercados. Nos Estados Unidos, cerca de 12% dos adultos já utilizam algum medicamento da categoria, e a Morgan Stanley estima que o mercado global atingirá US$ 190 bilhões até 2035.
Assim, caso a retatrutida seja aprovada e reproduza na prática clínica o que demonstrou no ensaio, ela não apenas expandirá o que se entende como potencial de um fármaco para perda de peso, mas reforçará uma tendência que já se mostra irreversível: a farmacologia está substituindo, gradativamente, procedimentos cirúrgicos, e cada avanço nessa direção reconfigura o cálculo econômico de planos de saúde, seguradoras, cadeias de restaurantes, redes de academias e, no limite, do próprio conceito de saúde pública.
O IPO da SpaceX e o Caminho de Musk ao Trilhão Pessoal
O pedido de IPO da SpaceX, divulgado nesta semana, finalmente expôs ao público a estrutura de poder que Elon Musk construiu sobre a empresa mais valiosa do setor privado global. Após a abertura de capital, Musk será simultaneamente CEO, CTO e presidente do conselho, com poder de voto acima de 50%, uma concentração que, segundo a professora de direito Ann Lipton, da Universidade do Colorado, não encontra precedente entre empresas de tecnologia de capital aberto, superando inclusive os arranjos de dupla classe de ações que Google e Meta adotaram em seus IPOs. Na prática, Musk poderá aprovar unilateralmente decisões que normalmente exigem consentimento dos acionistas, incluindo fusões e aquisições, o que alimenta a especulação de longa data sobre uma eventual integração com a Tesla.
A dimensão financeira do evento é igualmente extraordinária. Desde a fusão com a xAI em fevereiro, a SpaceX estima seu próprio valor em US$ 1,25 trilhão, e a participação majoritária de Musk pode valer mais de US$ 600 bilhões. Somada ao restante de seu patrimônio, que já o tornou a primeira pessoa a ultrapassar US$ 500 bilhões em riqueza pessoal, a listagem na bolsa poderá elevar sua fortuna total para além de US$ 1 trilhão, um montante superior ao PIB de 90% dos países do planeta. É uma concentração de capital individual sem paralelo na história moderna, ancorada não em uma única empresa, mas em um conglomerado integrado que vai do foguete ao código, onde a SpaceX planeja fornecer acesso ao espaço, a Starlink distribuir conectividade global, a xAI desenvolver modelos fundacionais de inteligência artificial, e o X prover distribuição e dados em tempo real.
Contudo, o que torna esse IPO particularmente relevante para além da fortuna pessoal de Musk é o que ele sinaliza sobre a nova categoria de empresa que surge em nosso capitalismo contemporâneo. A SpaceX é responsável por mais da metade de todos os lançamentos orbitais do planeta, opera a maior constelação privada de satélites da história e construiu essa posição com uma fração do capital que agências governamentais consumiram para resultados comparáveis. A tese dos data centers orbitais, com processamento de IA no espaço, alimentado por energia solar contínua e refrigerado pelo vácuo, adiciona, ainda, uma camada de ambição que transforma a empresa em algo além de aeroespacial, ou seja, uma aposta para infraestrutura civilizacional do futuro.
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Para investidores, o dilema é inédito e exige cautela proporcional ao entusiasmo, pois precificar uma companhia cujo valor reside menos no que gera hoje e mais em apostas estruturais que podem redefinir setores inteiros, ou, caso fracassem, gerar correções igualmente colossais, é um exercício para o qual o mercado ainda não desenvolveu ferramentas adequadas.
Spotify Entra na Corrida dos Podcasts Gerados por IA
O Spotify lançou o Studio by Spotify Labs, um aplicativo independente para desktop que permite a qualquer usuário criar podcasts personalizados a partir de informações pessoais, como e-mails, agendas, documentos, notas… ou simplesmente de um tópico de interesse. O produto conta com um agente de IA capaz de navegar na web, coletar dados e compilar tudo em formato de áudio, que é automaticamente salvo na biblioteca do Spotify e sincronizado entre dispositivos. A funcionalidade compete diretamente com o NotebookLM do Google, que popularizou o conceito de gerar podcasts a partir de material de origem há alguns anos, e que recentemente adicionou um recurso separado para criar um resumo diário com base no feed Discover.
O que torna o movimento do Spotify estrategicamente distinto é a combinação entre capacidade de geração de conteúdo e infraestrutura de distribuição. Enquanto o NotebookLM opera como ferramenta isolada dentro do ecossistema Google, o Studio nasce integrado à plataforma que já concentra 750 milhões de usuários ativos mensais e 290 milhões de assinantes pagos. Isso significa que o podcast gerado pela IA não é um arquivo solto, mas um item da biblioteca que se comporta como qualquer outro episódio, sendo reproduzível no carro, no fone de ouvido durante a corrida, ou até mesmo na caixa de som da cozinha. A distribuição, como sempre, é o multiplicador que transforma uma funcionalidade em hábito.
O lançamento segue o caminho que vemos a empresa tomar a meses, onde o Spotify deixou de ser um repositório de músicas para se tornar uma plataforma de experiência de áudio que absorve, camada por camada, funções antes dispersas em outros aplicativos. Da parceria com a SeatGeek para venda de ingressos à integração recente como conector do Claude, da criação de playlists por linguagem natural ao lançamento anterior de uma ferramenta de linha de comando para desenvolvedores que usam Claude Code ou Codex, cada movimento amplia o território disputado: não mais apenas para minutos de escuta, mas para atenção contextual e dados comportamentais que nenhum concorrente consegue replicar facilmente.
O Studio, nesse sentido, é menos um aplicativo de podcasts e mais a porta de entrada para um futuro em que o Spotify se posiciona como camada de áudio inteligente sobre a vida cotidiana, e, nesse futuro, quem fabrica o conteúdo que você ouve não é mais apenas um artista ou um jornalista, mas um agente que conhece sua agenda, seus interesses e, potencialmente, seus hábitos melhor do que você mesmo.






