Em dezembro de 1931, enquanto o desemprego avançava nos Estados Unidos, economistas se reuniram em Washington para discutir uma preocupação que parecia sem precedentes: a tecnologia talvez estivesse eliminando empregos mais rápido do que a economia conseguia criar outros. Durante aquele período, as operadoras de telefonia perdiam espaço para os sistemas automáticos de discagem. Músicos de cinema, para os filmes falados. Condutores de carroças, para os caminhões. Na reunião, o economista Ewan Clague propôs uma ideia que caberia em qualquer painel de 2026 sobre inteligência artificial: seria possível tributar máquinas para desacelerar seu avanço?
Quase um século depois, a pergunta continua sendo revisitada. A história, contudo, não oferece uma resposta simples, nem a garantia de que novas ocupações surgirão a tempo de acolher quem perdeu as antigas.
O caso das telefonistas mostra o que pode acontecer quando a transição é abrupta. Em muitas cidades americanas, as companhias telefônicas convertiam as centrais manuais para discagem automática à meia-noite de sábado. Com isso, quem trabalhava na sexta-feira podia chegar na segunda-feira sem emprego. Estudos posteriores encontraram efeitos que duraram anos: as mulheres atingidas tiveram menor probabilidade de continuar empregadas e, quando trabalhavam, tendiam a receber menos. A tecnologia, nesse caso, não apenas eliminou postos, mas alterou trajetórias profissionais inteiras de pessoas que não tiveram tempo de se preparar para a mudança.
O exemplo dos fabricantes de botas na Inglaterra vitoriana conta outra parte da história. Em 1851, havia cerca de 220 mil trabalhadores no setor. Em 1911, eram aproximadamente 213 mil. À primeira vista, quase nada mudou. Mas, nesse intervalo, cerca de 153 mil postos desapareceram e 140 mil surgiram. A mecanização, que veio junto ao intervalo de tempo decorrido, não apagou o setor inteiro. Pelo contrário, transformou-o por dentro, sendo que os números totais de empregados escondem quem saiu, quem entrou e quem precisou encontrar outro caminho. A diferença é que essa transformação se estendeu por seis décadas. Houve tempo para que trabalhadores mais jovens escolhessem outras direções. Houve tempo para que a indústria se reorganizasse. E houve tempo para que novas atividades absorvessem parte da mão de obra deslocada.
A distância entre esses dois casos é justamente o que torna a discussão sobre inteligência artificial e trabalho tão difícil de resolver com previsões genéricas. A tecnologia sempre substituiu empregos, e também sempre criou outros. Mas a velocidade com que uma coisa e outra acontecem determina quem se adapta e quem fica para trás. Uma transição que se desenrola ao longo de décadas permite requalificação, migração entre setores e formação de novas gerações de trabalhadores para funções que ainda não existem. Porém, uma transição que acontece de uma sexta para uma segunda não permite nada disso, de forma que o problema do desemprego oriundo da revolução tecnológica não é a substituição em si. É o intervalo entre a destruição de um emprego e a criação de outro.
Nesse sentido, os sinais desta semana dão a essa discussão algo que ela raramente possui: números e prazos concretos. Na Holanda, o governo anunciou a intenção de reduzir em cerca de 25 mil postos a força de trabalho do governo central até 2035, com uma meta de economia anual de 3,5 bilhões de euros. A inteligência artificial aparece como uma das ferramentas para elevar a produtividade, ao lado de medidas como simplificação de regras e padronização de sistemas de TI. Não se trata de um plano para demitir 25 mil pessoas amanhã. Trata-se de um governo que olhou para sua estrutura, avaliou o que a tecnologia pode absorver e estabeleceu um cronograma de redução gradual.
Na Microsoft, cerca de 60 mil funcionários se tornaram elegíveis a uma oferta de saída voluntária. Ao mesmo tempo, a empresa projeta mais de 50 bilhões de dólares em despesas de capital no trimestre, concentradas na expansão de infraestrutura de nuvem e IA. A oferta não significa que 60 mil pessoas sairão, nem prova uma substituição direta de cada funcionário por um agente. Mas coloca, no mesmo quadro, dois movimentos que raramente aparecem juntos com essa nitidez: reorganização de equipes e investimento recorde em infraestrutura automatizada.
O que torna esses sinais diferentes das previsões genéricas que circulam há anos é que eles vêm de decisões orçamentárias, seja por parte de um governo que estabelece uma meta de economia em euros e um prazo em anos, ou por uma empresa que abre oferta de saída voluntária no mesmo trimestre em que gasta dezenas de bilhões em automação. A hipótese da substituição deixou os documentos de consultoria e entrou nas planilhas de gestão. Isso não significa que cada posto eliminado será ocupado por uma máquina. Significa que a IA passou a fazer parte do cálculo de quantas pessoas uma organização considera necessárias para funcionar.
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O receio já aparece nas pesquisas. Em levantamento Ipsos-Ipec realizado em agosto de 2026, 82% dos brasileiros disseram que as pessoas deveriam se preocupar com o risco de a IA substituir suas ocupações e profissões. Em outra pesquisa da Ipsos, 42% dos brasileiros consideraram provável que a inteligência artificial substitua seu próprio emprego nos cinco anos seguintes – um resultado acima da média de 35% nos 32 países pesquisados. São percentuais que revelam uma percepção de vulnerabilidade mais alta do que a média global, em um país onde a estrutura de requalificação profissional é menos desenvolvida do que a dos mercados que lideram a adoção da tecnologia.
Enfim, a história das telefonistas e dos sapateiros não permite prever exatamente o que acontecerá com os trabalhadores de hoje. Permite-nos apenas enxergar o que está em jogo. Em 1931, os economistas reunidos em Washington sabiam que a tecnologia estava mudando o trabalho, mas não sabiam quanto tempo as pessoas teriam para se adaptar. A mesma incerteza permanece agora, porém com uma diferença. A inteligência artificial não está esperando que a sociedade decida o ritmo da transição. Ela está avançando enquanto a decisão é adiada. E a pergunta que mais importa para quem trabalha não é se a IA criará novas ocupações, porque provavelmente criará. Mas é quanto tempo haverá entre a perda do emprego que existe e o surgimento do emprego que ainda não existe. Porque nesse intervalo vivem pessoas reais, e o tamanho dele determina se a transição será uma adaptação ou uma ruptura.



