Durante quase toda a sua história, a Meta construiu alguns dos produtos digitais mais utilizados do mundo sem controlar o objeto pelo qual as pessoas chegavam até eles, porque tanto o Facebook quanto o Instagram ou o WhatsApp conquistaram bilhões de usuários, mas viveram dentro de computadores, smartphones e sistemas operacionais fabricados por outras empresas, de modo que Zuckerberg controlava a praça, mas não controlava o portão de entrada, algo que durante muito tempo pareceu ser o suficiente. Isso, porém, mudou no momento em que vieram as mudanças de privacidade introduzidas pela Apple que, de forma bastante agressiva, atingiram o negócio publicitário da companhia e mostraram que mesmo uma plataforma com bilhões de usuários pode descobrir, de uma hora para outra, que existe alguém acima dela na cadeia alimentar tecnológica.
Para quem não sabe o que aconteceu: a Apple atualizou o iPhone e incluiu um botão que pergunta se você aceita ser rastreado por aplicativos como o Facebook. Como a maioria das pessoas escolheu “Não”, a Meta perdeu o acesso aos dados que usava para criar anúncios perfeitos. Isso fez a empresa de Mark Zuckerberg perder bilhões de dólares e escancarou que, por mais gigante que seja, ela ainda depende das regras e dos aparelhos dos outros para existir.
Deste modo, sob está nova ótica por parte da Meta, os últimos lançamentos da empresa ajudam a entender o por que de a mesma parecer cada vez mais interessada em soluções de hardware, uma vez que no seu evento anual no Vale do Silício a companhia apresentou uma nova leva de dispositivos que vai de óculos inteligentes a um pequeno aparelho de bolso semelhante a um Tamagotchi, criado para dar presença física ao seu incrível Muse, e, quando esses produtos são observados ao redor da inteligência artificial, deixam de parecer uma coleção dispersa de experimentos e passam a revelar uma estratégia mais coerente: a Meta quer controlar a interface pela qual as pessoas acessarão a próxima geração da computação.
Essa ambição nasce de uma vulnerabilidade que não é nova e que a empresa já tentou resolver antes, porque o metaverso também carregava, por trás de todo o discurso sobre mundos virtuais, a mesma aspiração de criar uma plataforma computacional na qual a Meta pudesse controlar não apenas os aplicativos, mas também o dispositivo, a interface, a distribuição e a economia ao redor deles. Diante dessa antiga aposta, a Reality Labs gastou dezenas de bilhões de dólares perseguindo essa visão enquanto os headsets de realidade virtual continuaram longe de substituir o smartphone como plataforma de massa.
Contudo, dessa vez, a diferença entre a estratégia anterior e a atual parece residir em uma lição importante extraída daquele fracasso: no metaverso, a Meta tentava levar o usuário para dentro do computador, isolando-o do ambiente ao colocar um headset no seu rosto para que entrasse em um universo digital separado do mundo físico; agora, a empresa tenta fazer o oposto, levando o computador para dentro do mundo do usuário, de modo que a inteligência artificial observa, escuta e interage com aquilo que acontece ao redor da pessoa sem exigir que ela se desconecte da realidade para utilizar a tecnologia.
À evidência desta nova estratégia, os óculos inteligentes são provavelmente a expressão mais clara dessa inversão, porque em vez de isolar o usuário, a proposta é que ele permaneça no mundo físico enquanto uma camada computacional se sobrepõe àquilo que ele enxerga e ouve, e, assim, para uma inteligência artificial que pretende compreender contexto, enxergar o que o usuário enxerga e ouvir o ambiente a partir da sua perspectiva pode representar uma diferença decisiva em relação a qualquer assistente confinado à tela de um celular.
É nesse ponto que o Muse ganha uma clara importância estratégica, porque Zuckerberg o descreveu como o novo centro da visão da companhia para os próximos anos e afirmou esperar que ele se transforme em uma espécie de superinteligência pessoal utilizada por bilhões de pessoas. Ainda, mais importante do que a retórica é a infraestrutura que a Meta começa a construir ao redor desse agente: o Muse ganhará um endereço de e-mail próprio, poderá operar aplicativos no computador enquanto o usuário estiver longe, e está sendo integrado a dezenas de empresas como Shopify, Stripe, PayPal, Best Buy, Sephora, Walmart e Expedia, o que significa que a companhia não parece interessada apenas em construir uma IA com quem se conversa, mas uma IA que age em nome de quem conversa com ela, uma diferença que muda completamente o tamanho do negócio da empresa.
Se hoje a internet funciona principalmente por meio de aplicativos e sites que o usuário escolhe individualmente, uma internet intermediada por agentes pode funcionar de outra maneira, tendo em vista de que em vez de entrar no site de uma companhia aérea, depois comparar hotéis, abrir um aplicativo de mapas e finalmente procurar um restaurante, o usuário simplesmente diz ao agente que quer passar quatro dias em determinada cidade dentro de certo orçamento, e o restante pode ser executado por ele. Nesse cenário, quem controla o agente passa a ocupar uma posição extraordinariamente poderosa, porque deixa de disputar apenas a atenção do usuário e começa a intermediar sua intenção, e é justamente por isso que a ideia de cobrar uma pequena taxa sobre as transações realizadas pelo Muse talvez seja mais importante para o futuro da Meta do que qualquer um dos aparelhos apresentados nesta semana, porque a empresa que durante décadas ganhou dinheiro colocando anúncios entre consumidores e empresas pode estar imaginando um futuro em que ganha dinheiro executando a própria relação entre consumidores e empresas, uma transição que, se concretizada, representaria uma mudança de natureza no modelo de negócio tão profunda quanto a passagem de uma empresa de mídia para uma empresa de infraestrutura comercial.
O hardware entra nessa estratégia como o corpo dessa inteligência, porque o computador fornece a capacidade de execução necessária, os óculos fornecem visão e contexto, o e-mail fornece identidade digital, as parcerias comerciais fornecem acesso ao mercado, e o Muse funciona como o cérebro que conecta essas diferentes interfaces, de modo que os novos produtos, quando vistos dessa forma, deixam de parecer apostas independentes e passam a compor uma tentativa de construir um ecossistema no qual a inteligência da Meta acompanhe o usuário por diferentes ambientes. Até mesmo o Muse Charm se encaixa nessa lógica, porque o pequeno dispositivo do tamanho da palma da mão, equipado com tela e sensor de impressão digital, pretende condensar voz e avatar em um objeto permanentemente disponível que pode ser carregado no bolso ou preso a um chaveiro, representando, literalmente, a tentativa de dar um corpo físico ao agente.
Mas é justamente aí que aparece uma das maiores fragilidades da estratégia, porque o Muse Charm terá de competir com um objeto que praticamente todo potencial consumidor já carrega no bolso - nossos celulares -, e a história da tecnologia está repleta de produtos que funcionavam perfeitamente e ainda assim fracassaram porque resolveram um problema que não era suficientemente importante para justificar um novo dispositivo.
Essa talvez seja a pergunta mais difícil para qualquer hardware dedicado à inteligência artificial: por que alguém carregaria mais um aparelho para conversar com uma IA quando pode simplesmente tirar o celular do bolso? Um avatar simpático, uma interação mais rápida ou alguns segundos economizados ao evitar desbloquear o celular podem não ser suficientes para criar uma nova categoria de produto, e para existir ao lado do smartphone um dispositivo precisa oferecer algo que o smartphone faça mal ou começar a substituir alguma coisa que ele já faz. Os óculos parecem estrategicamente mais promissores do que o Tamagotchi precisamente porque não precisam acrescentar mais um objeto à vida do usuário, podendo transformar um acessório que milhões de pessoas já usam em uma interface computacional, oferecendo algo que o celular dificilmente reproduz de maneira contínua, isto é, enxergar o que o usuário enxerga e ouvir o ambiente a partir da perspectiva dele.
A disputa, portanto, talvez não seja sobre vender óculos, chaveiros ou headsets, mas sobre descobrir qual objeto substituirá ou complementará o retângulo de vidro que se tornou a principal interface da vida digital nas últimas duas décadas. Portanto, é por isso que perguntar se a Meta está se transformando em uma empresa de hardware talvez seja limitar demais aquilo que Zuckerberg está tentando construir, afinal, a Meta está tentando se transformar em uma empresa de computação.
Durante sua primeira grande era, ela construiu serviços extraordinariamente populares sobre plataformas pertencentes a terceiros, e na era da inteligência artificial ela parece não querer repetir essa história, porque se os agentes realmente se tornarem a interface entre pessoas e serviços digitais, depender exclusivamente de aparelhos e sistemas operacionais controlados por Apple e Google significaria entregar novamente a outra empresa o poder de determinar as regras do jogo. Nessa toada, os dispositivos apresentados agora são apostas sobre qual será a próxima porta de entrada para a internet, e alguns provavelmente desaparecerão enquanto outros podem nunca justificar sua existência. Contudo, por trás de todos eles existe uma tese que merece ser levada a sério: se a inteligência artificial substituir os aplicativos como principal interface da computação, quem controlar simultaneamente o agente e o dispositivo terá uma posição que a Meta nunca conseguiu ocupar na era do smartphone.
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Há uma ironia considerável nessa trajetória, pois Zuckerberg passou anos e dezenas de bilhões de dólares tentando construir um novo mundo digital para colocar seus usuários dentro dele, e talvez a grande lição do metaverso tenha sido justamente a inversa, porque em vez de colocar bilhões de pessoas dentro do mundo da Meta, pode ser muito mais simples, e muito mais poderoso, colocar a Meta no mundo em que bilhões de pessoas já vivem.






