A Maior Aula de Marketing da História
No dia 9 de janeiro de 2007, Steve Jobs subiu ao palco e apresentou ao mundo o iPhone. Mas o que ficou para a história não foi apenas o produto. Foi o ritual. A narrativa. O silêncio calculado antes do impacto. Jobs não mostrou um telefone. Ele contou uma história sobre o futuro. Aquela apresentação foi uma aula de marketing, de visão e, sobretudo, de timing.
O mais fascinante daquele momento é que o palco foi tão relevante quanto o objeto apresentado. Jobs entendeu algo que poucos executivos entendem até hoje: produtos mudam mercados, mas narrativas mudam comportamentos. O iPhone foi apresentado como três coisas em uma. Um telefone, um iPod e um comunicador de internet. Só depois o mundo percebeu que estava diante de uma nova plataforma, capaz de redefinir indústrias inteiras.
Dezenove anos depois, o mundo vive uma ansiedade parecida. Todos sentem que existe algo prestes a nascer, mas ninguém sabe exatamente como será. A pergunta que ecoa nos bastidores do Vale do Silício não é “o que vem aí?”, mas “quem vai apresentar isso ao mundo do jeito certo?”. A inteligência artificial já está entre nós, mas ainda carece de uma forma definitiva, de um objeto simbólico, de uma experiência simples o suficiente para ser adotada em massa.
Hoje, a IA vive o momento pré-iPhone. Poderosa, fragmentada, distribuída em telas, prompts e interfaces que exigem aprendizado. Falta a “coisa”. Falta o gesto natural. Falta o momento em que alguém suba ao palco e diga, com clareza desconcertante: “é assim que vocês vão usar isso todos os dias”.
É inevitável olhar para a Apple e se perguntar se ela fará isso de novo. Não porque sempre chega primeiro, mas porque historicamente chega com força. A Apple nunca venceu pela tecnologia isolada, mas pela integração entre hardware, software e experiência humana. Se a próxima grande virada da IA exigir menos código e mais sensibilidade, menos poder bruto e mais intenção, ela está bem posicionada.
Mas talvez a pergunta mais interessante não seja se será a Apple. Talvez seja se o próximo grande produto de IA será, de fato, um produto. Pode não ser um telefone. Pode não ter tela. Pode ser algo que sequer chamaremos de dispositivo. Assim como, em 2007, poucos entenderam que o iPhone era muito mais do que um celular, talvez hoje estejamos tentando imaginar o futuro com categorias do passado.
O que a história nos ensina é que grandes viradas não acontecem apenas quando a tecnologia fica pronta, mas quando alguém traduz complexidade em simplicidade. Quando alguém entende o espírito do tempo. Em 2007, Jobs apresentou um objeto. Em 2026, quem sabe, alguém apresentará uma relação totalmente nova entre humanos e máquinas.
O mundo está esperando. Não apenas pela próxima inovação, mas pelo próximo momento de clareza. A próxima grande apresentação. Aquela que, anos depois, será lembrada não só pelo que foi lançado, mas pela sensação coletiva de que, ali, o futuro finalmente ganhou forma.



