Até pouco tempo atrás, comprar Ozempic significava passar por um caminho bastante previsível: consulta, receita e farmácia. Mas esse caminho começa a mudar. No México, a Novo Nordisk decidiu colocar uma loja oficial dentro do Mercado Livre e vender seus medicamentos diretamente em um dos maiores marketplaces da América Latina.
Pode parecer apenas mais um canal de vendas.
Mas talvez seja um sinal de uma transformação muito maior: as plataformas de tecnologia estão começando a entrar no território das farmácias.
O Mercado Livre já possui praticamente toda a infraestrutura necessária para isso. Tem milhões de usuários, meios de pagamento, logística própria, dados, relacionamento com consumidores e capacidade de entregar produtos rapidamente. Quando uma farmacêutica consegue conectar seus medicamentos diretamente a essa estrutura, parte da função tradicional da farmácia começa a ser questionada.
E o mercado percebeu o risco.
Quando a iniciativa mexicana ganhou repercussão, ações de grandes redes farmacêuticas brasileiras chegaram a recuar, mesmo que a operação estivesse acontecendo em outro país. O motivo é simples: investidores não estavam olhando apenas para o México. Estavam tentando imaginar o que aconteceria se esse modelo chegasse ao Brasil.
E existe um segundo movimento acontecendo ao mesmo tempo.
Nos Estados Unidos, a Amazon está avançando em uma direção ainda mais profunda. Em vez de simplesmente vender medicamentos, começou a integrar diferentes etapas da jornada de saúde dentro do mesmo ecossistema.
O paciente pode passar por atendimento médico, receber uma prescrição, comprar o medicamento pela Amazon Pharmacy, recebê-lo em casa e continuar sendo acompanhado ao longo do tratamento.
Essa diferença é fundamental.
Uma farmácia tradicional participa principalmente da transação. A Amazon tenta controlar a jornada.
E quem controla a jornada constrói uma relação muito mais difícil de substituir.
É justamente por isso que medicamentos GLP-1, como Ozempic e Wegovy, podem acabar funcionando como uma espécie de porta de entrada das Big Techs para um mercado muito maior. São tratamentos recorrentes, de enorme demanda e que exigem acompanhamento contínuo, exatamente o tipo de produto que favorece a construção de um ecossistema.
O Brasil aparece naturalmente no horizonte dessa transformação. O mercado de medicamentos para obesidade cresce rapidamente, novos concorrentes começam a aparecer e plataformas digitais já demonstram interesse pelo setor.
O próprio Mercado Livre começou a construir sua presença farmacêutica no país. A grande barreira, por enquanto, está na regulação, que impõe restrições importantes à comercialização digital de medicamentos sujeitos a prescrição.
Mas regulação pode mudar.
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E é aí que surge a pergunta que deveria preocupar as grandes redes de farmácias.
Quando a farmacêutica consegue vender dentro do marketplace, o marketplace possui a logística, o pagamento e o relacionamento com o consumidor, e uma empresa como a Amazon consegue integrar até consulta médica e acompanhamento, qual passa a ser a vantagem competitiva de quem simplesmente entrega a caixa do medicamento no balcão?
Outras indústrias já aprenderam essa lição.
Livrarias acreditaram que sua vantagem estava na loja. Locadoras acreditaram que estava nas prateleiras. Lojas de departamento acreditaram que estava nos metros quadrados.
Até descobrirem que o consumidor queria o produto, não necessariamente o lugar onde estava acostumado a comprá-lo.
Talvez as farmácias estejam chegando ao mesmo momento.
Porque o balcão nunca foi o negócio.
Era apenas o lugar onde a transação acontecia. E esse lugar está começando a mudar.









