0:00
/
Gerar transcrição
Uma transcrição desbloqueia trechos, pré-visualizações e edição

O Plano de Influência da China

Quando Xi Jinping fala em “autossuficiência” do Sul Global, a declaração vai muito além da diplomacia. Por trás dela existe uma disputa muito maior: quem construirá a infraestrutura que sustentará as economias emergentes nas próximas décadas?

Enquanto boa parte dos países ricos enfrenta envelhecimento populacional e crescimento mais lento, regiões da África, da Ásia e da América Latina ainda deverão incorporar milhões de pessoas às cidades e ao mercado consumidor. É justamente nesses países que estará uma parcela importante da nova demanda mundial por energia, alimentos, moradia, serviços, tecnologia e infraestrutura.

A China percebeu esse movimento cedo.

Pequim não quer apenas vender produtos para esses novos consumidores. Quer construir as estradas tecnológicas pelas quais essas economias funcionarão. Telecomunicações, satélites, sistemas de pagamento, nuvem, inteligência artificial, veículos elétricos, financiamento e infraestrutura digital passaram a fazer parte dessa estratégia.

Existe uma razão histórica para essa proposta encontrar espaço.

Durante séculos, grande parte do Sul Global exportou matérias-primas e importou tecnologia, máquinas e conhecimento. A independência política chegou, mas diferentes formas de dependência econômica permaneceram. E, na economia digital, surgiu uma nova camada dessa relação: países podem possuir milhões de usuários, empresas e aplicativos, mas continuar dependendo de chips, GPS, nuvem, sistemas operacionais, plataformas e modelos de IA controlados no exterior.

A China aparece justamente oferecendo uma alternativa.

Depois de construir seu próprio sistema de navegação, empresas de telecomunicações, plataformas digitais e uma poderosa indústria de baterias, veículos elétricos e inteligência artificial, o país agora procura exportar parte dessa infraestrutura para outros mercados emergentes.

A proposta é sedutora: se o Sul Global depende excessivamente das tecnologias americanas e europeias, por que não criar uma segunda opção?

Mas existe um paradoxo.

Reduzir a dependência dos Estados Unidos não significa necessariamente conquistar independência. Um país pode substituir equipamentos, plataformas e financiamento ocidentais por alternativas chinesas e, ainda assim, continuar dependente — apenas mudando o endereço dessa dependência.

Entre no canal Entrelinhas no WhatsApp e siga nosso Instagram: informação rápida, em tempo real, que tangibiliza as transformações.

E é justamente nesse tabuleiro que o Brasil ocupa uma posição privilegiada.

População, alimentos, energia, minerais estratégicos, indústria e um enorme mercado consumidor dão ao país escala para negociar simultaneamente com China, Estados Unidos e Europa. A oportunidade brasileira, portanto, não deveria ser escolher simplesmente um dos lados.

Deveria ser usar a competição entre eles para construir capacidade própria.

Atrair investimentos, mas também conhecimento. Comprar tecnologia, mas formar profissionais capazes de dominá-la. Receber infraestrutura, mas desenvolver empresas brasileiras. Diversificar fornecedores para que nenhuma potência tenha controle excessivo sobre setores essenciais da economia.

Porque autossuficiência não significa isolamento. Nem mesmo China e Estados Unidos produzem sozinhos tudo aquilo de que precisam.

Autonomia significa ter alternativas.

A China entendeu que boa parte do crescimento deste século acontecerá no Sul Global. Por isso, não disputa apenas os consumidores que viverão nesses mercados.

Disputa quem fornecerá os satélites, as redes, os chips, a nuvem, o crédito e os algoritmos que sustentarão suas economias.

A promessa chinesa é ajudar o Sul Global a conquistar independência.

A grande questão é saber se essa nova ordem produzirá países realmente mais autônomos, ou apenas uma nova dependência com outro endereço.


Leia também:


Discussão sobre este vídeo

Avatar de User

Pronto para mais?