A Eficiência Autodestrutiva
Existe algo curioso acontecendo na economia digital. Quanto mais as empresas ficam eficientes, mais frágeis elas podem se tornar no longo prazo. Parece contraditório, mas talvez estejamos entrando numa fase em que eficiência demais começa a corroer a própria base que sustenta o crescimento.
O estudo da Citrini Research projeta um cenário hipotético para 2028 em que a inteligência artificial se torna extremamente eficiente e passa a substituir, em larga escala, o trabalho intelectual. Não estamos falando apenas de funções repetitivas. Estamos falando de analistas, desenvolvedores, advogados, consultores, profissionais de marketing. Gente que hoje compõe o coração da classe média global.
Para a empresa individual, a lógica é impecável. Demitir reduz custo. Reduzir custo aumenta margem. Aumentar margem melhora resultado e valor de mercado. Com a economia gerada, investe-se ainda mais em IA. O ciclo parece virtuoso.
O problema começa quando muitas empresas fazem isso ao mesmo tempo.
Pessoas não são apenas custo na planilha. Pessoas são quem compram. São quem consomem. São quem sustentam a demanda agregada. Quando a substituição tecnológica acontece em velocidade maior do que a capacidade da economia de criar novas funções e novas rendas, surge um desequilíbrio estrutural.
O estudo chama atenção para algo provocativo: o “PIB fantasma”. A produção cresce porque máquinas produzem mais. A eficiência sobe. A estatística melhora. Mas máquinas não têm salário. Máquinas não frequentam shopping. Máquinas não fazem financiamento imobiliário. Se a renda migra rápido demais do trabalho para o capital tecnológico, o consumo se concentra e pode perder força.
E aí nasce o paradoxo.
Empresas ficam mais eficientes cortando pessoas.
Ao cortar pessoas, comprimem renda.
Ao comprimir renda, enfraquecem o consumo.
Ao enfraquecer o consumo, colocam pressão na própria receita futura.
A eficiência virando sabotagem silenciosa da demanda.
Historicamente, revoluções tecnológicas sempre destruíram empregos e criaram outros. A diferença agora pode estar na velocidade. Se a IA substitui mais rápido do que a sociedade consegue se reorganizar, o intervalo entre destruição e reinvenção deixa de ser transição e passa a ser ruptura.
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Não se trata de ser contra a tecnologia. A IA vai aumentar produtividade. Isso é quase inevitável. A questão é entender o ritmo e os efeitos sistêmicos. Produtividade não é um fim em si mesmo. Ela precisa encontrar mercado.
A eficiência autodestrutiva é justamente esse risco: um sistema que otimiza demais o lado da oferta e esquece que, sem renda distribuída, não há demanda suficiente para sustentar o próprio crescimento.
Talvez o grande debate dos próximos anos não seja apenas sobre o que a IA é capaz de fazer, mas sobre como evitar que a busca por eficiência absoluta enfraqueça o próprio ecossistema econômico que ela pretende potencializar.
No fundo, a pergunta é simples e desconfortável: até que ponto cortar custo hoje compromete o mercado de amanhã?



