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A Bolha da IA

Toda grande revolução tecnológica produz dois fenômenos ao mesmo tempo.

Valor real.

E excesso de expectativa.

Foi assim com as ferrovias, com a eletricidade, com a internet e com a computação em nuvem. Agora, a inteligência artificial parece seguir exatamente o mesmo roteiro.

Nos últimos tempos, a NVIDIA ultrapassou a marca histórica de US$ 5 trilhões em valor de mercado. Microsoft e Apple também romperam a barreira dos US$ 4 trilhões. Nunca tantas empresas concentraram tanto valor em tão pouco tempo.

A pergunta deixou de ser se existe uma bolha.

A pergunta passou a ser: que tipo de bolha estamos vivendo?

Talvez a melhor forma de entender esse momento seja separar o fenômeno em três camadas.

A primeira é a bolha de preço.

Os mercados financeiros sempre antecipam o futuro. Parte dos valuations atuais embute expectativas extremamente otimistas sobre crescimento, adoção de IA e expansão de receitas. O capital está precificando hoje um mundo que ainda está sendo construído.

A segunda é a bolha de capacidade.

Nunca se investiu tanto em infraestrutura computacional. Data centers, clusters de GPUs, redes elétricas e sistemas de refrigeração estão sendo construídos numa velocidade impressionante. Em muitos casos, boa parte dessa capacidade ainda opera abaixo do potencial. Mas isso faz parte da lógica de infraestrutura: primeiro constrói-se a estrada, depois vêm os carros.

A terceira talvez seja a mais invisível.

A bolha de discurso.

Hoje praticamente toda empresa afirma estar se tornando uma empresa de inteligência artificial. Muitas iniciativas ainda são experimentais, mas são apresentadas como se já representassem uma transformação completa dos negócios. O entusiasmo, em muitos casos, cresce mais rápido do que a entrega.

Essas três bolhas coexistem.

E, curiosamente, não anulam o enorme valor estrutural da tecnologia.

Existe uma frase de Larry Ellison, fundador da Oracle, que resume bem esse paradoxo.

Segundo ele, a IA pode, sim, estar vivendo uma bolha.

Mas também pode ser a tecnologia de maior valor já criada.

As duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

Porque uma bolha especulativa não elimina uma transformação estrutural.

Durante a bolha da internet, inúmeras empresas desapareceram.

Mas a internet permaneceu.

Durante a corrida ferroviária, muitos investidores perderam dinheiro.

Mas as ferrovias transformaram a economia mundial.

O mesmo aconteceu com a eletrificação, com a computação em nuvem e com diversas outras revoluções tecnológicas.

A inteligência artificial parece caminhar na mesma direção.

Ela já deixou de ser apenas uma promessa.

Hoje reduz custos, acelera pesquisas científicas, automatiza processos, melhora diagnósticos médicos, transforma logística, desenvolvimento de software e atendimento ao cliente.

O valor existe.

O desafio está em separar valor de narrativa.

Porque nem toda empresa que fala sobre IA criará vantagem competitiva.

Nem todo investimento em infraestrutura produzirá retorno imediato.

Nem todo valuation continuará crescendo indefinidamente.

As correções virão.

Elas sempre vêm.

Mas talvez elas façam parte do próprio processo de amadurecimento da tecnologia.

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No fim, a discussão mais importante talvez não seja descobrir quando a bolha vai estourar.

Mas entender o que permanecerá quando o entusiasmo diminuir.

Porque, quando toda grande revolução tecnológica atravessa sua fase de euforia, uma coisa costuma sobreviver.

A infraestrutura.

E é justamente ela que continua sendo construída diante dos nossos olhos.

Talvez o verdadeiro legado deste momento não seja o valuation da NVIDIA.

Seja a nova fundação sobre a qual a economia das próximas décadas será construída.


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