Bom dia! Hoje é 2 de outubro. Neste mesmo dia, em 1608, o fabricante de óculos holandês Hans Lipperhey demonstrava às autoridades dos Países Baixos um instrumento que, segundo ele, permitia “ver coisas distantes como se estivessem próximas”. Lipperhey não inventou as lentes, uma vez que elas existiam havia séculos. O que ele fez foi arranjar duas delas num tubo de tal maneira que ampliassem a imagem de objetos distantes. Era simples. E era revolucionário. Um ano depois, Galileu pegaria o mesmo princípio, apontaria para o céu e mudaria para sempre o que a humanidade entendia sobre o universo. Mas tudo começou com o gesto mais básico que um instrumento óptico pode oferecer: ver com clareza o que já estava ali, mas longe demais para ser percebido a olho nu.
Quatrocentos e dezoito anos depois, a edição de hoje funciona, em certo sentido, como o telescópio de Lipperhey: cada notícia, vista à distância, parece dizer uma coisa. Vista de perto, diz outra. Trump reúne os CEOs de IA na Casa Branca e anuncia um “Acordo de Superinteligência” que parece regulamentação, mas que, olhado pelas lentes certas, é um compromisso sem força de lei assinado pelas mesmas empresas que gastaram milhões fazendo lobby contra qualquer regulação de verdade. A Netflix admite que não cresce rápido o suficiente e aposta em cinema, esportes ao vivo e inteligência artificial, mas, olhado de perto, o que se vê é uma plataforma de 325 milhões de assinantes que já não consegue mantê-los assistindo por mais tempo. O Wellhub, que a maioria conhece como o app que dá acesso a academias pelo plano da empresa, está se transformando em algo muito maior: um banco que empresta dinheiro a donos de academia usando como garantia algo que nenhum banco convencional possui, que é a certeza de que os clientes continuarão entrando pela porta. E Elon Musk completa um ano prometendo uma era de “abundância incrível” para a Tesla sem jamais ter explicado o que isso significa, quanto custa ou quando chega, e a pergunta que fica, cada vez mais, é se ele sabe a resposta ou se a ausência de resposta é, em si, a estratégia.
O Acordo Mais Importante que Ninguém É Obrigado a Cumprir
Quando Trump afirmou, diante das câmeras, que as empresas de inteligência artificial concordaram em “se autorregular” e que o acordo assinado na Casa Branca é “moralmente vinculante”, dois adjetivos mereciam destaque. “Moralmente” é o primeiro. “Vinculante” é o segundo. Juntos, eles traduzem que ninguém é obrigado a cumprir nada, mas que seria muito feio não fazê-lo. Na prática, é uma carta de intenções vestida de tratado. Na teoria, é o compromisso mais ambicioso que as maiores empresas de IA dos Estados Unidos já assinaram. E a distância entre a prática e a teoria é onde mora toda a Entrelinha.
O documento, batizado de “Acordo da Casa Branca sobre Superinteligência”, exige que cada empresa crie controles internos para monitorar seus modelos de IA, designe uma equipe autônoma de supervisão, contrate auditores externos e estabeleça um comitê independente no conselho de administração para acompanhar a segurança dos sistemas. No papel, as quatro medidas parecem rigorosas. Lidas no contexto de quem as escreveu, isto é, as próprias empresas que serão reguladas, e de quem as apresentou, um presidente que, há duas semanas, chamou qualquer tentativa de regulamentação de “esquema globalista”, o ceticismo é inevitável, pois a raposa não apenas guarda o galinheiro, mas ela escreveu o manual de segurança do galinheiro e convidou o fazendeiro para assinar embaixo.
O detalhe mais revelador do acordo, contudo, é o que ele admite que poderá conter no futuro. O documento afirma, em letras que passaram despercebidas pela maioria da cobertura, que “com o tempo, pode fazer sentido transformar essas medidas em leis ou regulamentos”. A frase é a concessão mais significativa que o governo Trump fez sobre o tema, pois mesmo uma administração ideologicamente contrária à regulação reconhece, por escrito, que a autorregulação pode não ser suficiente.
Deste modo, o acordo da Casa Branca não parece ser uma solução, mas apenas um placeholder, algo que ocupa o espaço até que a realidade force a próxima versão, desta vez, mais concreta. A pergunta é se a realidade, que está recheada de agentes invasores, vai esperar.
A Netflix Admite Que a Festa Desacelerou
Há um tipo de franqueza que só aparece nos earnings calls, quando a plateia é formada por analistas que cobram precisão e investidores que não aceitam nenhum tipo de eufemismo. O co-CEO da Netflix escolheu uma dessas ocasiões para dizer o que nenhum press release diria: “Não estamos crescendo tão rápido quanto eu gostaria.” Tais fatos, respaldados nos números de engajamento, que avançaram apenas 2% no último período. Em conjunto, as ações da empresa caíram 24% no ano. Cineastas e atores de destaque estão migrando para estúdios rivais. E a empresa, que durante uma década foi a própria cara do streaming, agora precisa explicar por que 325 milhões de assinantes não bastam – e o que fará para convencê-los a assistir mais, ficar mais tempo e, de preferência, aceitar os anúncios que devem representar 10% da receita da plataforma até 2030.
A resposta da Netflix é, portanto, espalhar suas fichas por três mesas ao mesmo tempo. A primeira é o ao vivo: 5% do orçamento de conteúdo de US$ 20 bilhões agora vai para esportes, eventos e programação em tempo real, o tipo de conteúdo que ninguém grava para assistir depois e que, por isso, mantém o espectador grudado na tela no momento em que o anunciante mais precisa dele. A segunda é o cinema: a Netflix planeja lançamentos amplos em salas, reconhecendo que o prestígio de uma estreia no cinema pode gerar o tipo de atenção que uma estreia silenciosa no catálogo não produz. E a terceira é a inteligência artificial: a aquisição da InterPositive, de Ben Affleck, por US$ 587 milhões, e o uso de IA generativa em mais de 300 títulos na pós-produção indicam que a Netflix quer que a IA reduza custos e acelere a produção de suas obras ao mesmo tempo.
A Entrelinha mais relevante da desaceleração, porém, é o que ela diz sobre o streaming como um todo. Quando a maior plataforma do setor admite que o engajamento cresceu apenas 2% desde sua última aferição, o sinal é de que o teto do formato longo pode ter sido atingido. Como temos visto, todas as plataformas estão adicionando vídeos curtos, podcasts e conteúdo de criadores em seus catálogos porque a atenção da nova geração não permanece em um formato longo por tempo suficiente para justificar os custos de produzi-lo. A Netflix, por isso, está enfrentando uma mudança de comportamento que nenhum aumento de orçamento resolve, porque o problema não é a qualidade do conteúdo, mas é o tempo que o espectador está disposto a dedicar a ele.
O App de Academia que Virou Banco (e Por Que Isso É Genial)
Para entender o que o Wellhub acaba de fazer, é preciso primeiro entender como ele funciona, porque é nesse funcionamento que está a chave de tudo. O Wellhub é, na superfície, aquele benefício que a sua empresa oferece para você ir à academia, onde você paga uma mensalidade acessível pelo plano corporativo e, em troca, pode frequentar milhares de academias, estúdios de yoga, boxes de CrossFit e espaços de meditação espalhados pelo país. Cada vez que você passa a catraca e faz check-in pelo aplicativo, o Wellhub registra sua presença. E, nos bastidores, faz um repasse em dinheiro à academia, de forma proporcional ao número de visitas que ela recebeu naquele mês. Deste modo, quanto mais gente entra pela porta, mais a academia recebe. É um modelo simples, que funciona bem para todo mundo: o usuário paga pouco, a empresa oferece um benefício atrativo, o Wellhub ganha sua mensalidade e a academia ganha um fluxo de clientes que não teria sozinha.
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Agora, observe o que o Wellhub fez com esse mecanismo: transformou-o em uma espécie de garantia de crédito. Isso porque a empresa acaba de ampliar em R$ 100 milhões o seu fundo de empréstimos para academias e estúdios parceiros, totalizando mais de R$ 200 milhões já concedidos a mais de mil estabelecimentos. O tíquete médio é de R$ 130 mil, com prazo de até 30 meses, um dinheiro que donos de academia usam para reformar instalações, comprar equipamentos novos e abrir filiais. E o pagamento das parcelas é descontado automaticamente dos repasses que o Wellhub já faz à academia a cada mês. Ou seja: se a academia tem clientes do Wellhub entrando todos os dias (e o Wellhub sabe exatamente quantos, porque é ele quem conta), o risco do empréstimo é baixo, porque o fluxo de caixa que garante o pagamento é gerado pela própria plataforma que concede o crédito. A academia não precisa ir ao banco. Não precisa apresentar garantia imobiliária. Não precisa enfrentar taxas que tornam o empréstimo inviável. O dinheiro vem de quem já conhece sua receita, porque é quem a gera.
A genialidade do modelo está na ideia de uma circularidade virtuosa: o Wellhub empresta dinheiro para que a academia melhore. A academia melhorada atrai mais alunos. Mais alunos geram mais check-ins. Mais check-ins geram mais repasses. Mais repasses garantem o pagamento do empréstimo, e, de quebra, habilitam a academia a pegar outro, maior, para crescer mais. É a mesma lógica que transformou o iFood em fintech, o Mercado Livre em banco e a Shopee em operadora de crédito, ou seja, a tese de que quem controla o ponto de contato diário com o consumidor está na posição ideal para oferecer serviços financeiros, porque conhece, em tempo real, a saúde do negócio de quem pede.
Nenhum banco tradicional consegue medir, com a precisão de uma catraca conectada a um aplicativo, quantas pessoas entraram numa academia na terça-feira às 19h. O Wellhub consegue. E essa informação, que para o banco é invisível, para o Wellhub é a garantia de crédito mais confiável que existe. Num mercado de bem-estar que movimenta US$ 111 bilhões no Brasil, o Wellhub não está apenas financiando academias, mas está fazendo mais. Está construindo a infraestrutura financeira de um setor inteiro que nenhum banco achou que valia a pena atender.
Um Ano de “Abundância Incrível” (e Ninguém Sabe o Que É)
Em setembro de 2025, Elon Musk subiu a um palco, projetou algumas imagens atrás de si e apresentou seu quarto “Plano Mestre” para a Tesla. O título era “Abundância Sustentável”, uma visão de futuro em que robôs, robotáxis e inteligência artificial trabalhariam juntos para criar uma era em que, nas palavras de Musk, “qualquer pessoa pode ter tudo o que imaginar”. A apresentação foi tão vaga que até seus fãs mais leais a criticaram publicamente. Musk concordou. Disse que adicionaria detalhes em breve. Um ano e um mês depois, os detalhes não vieram, mas, pelo menos, o slogan mudou. “Abundância Sustentável” virou “Abundância Incrível”, porque, segundo Musk, era “mais alegre”. E é basicamente tudo o que mudou desde então.
O problema não é a ambição, mas é a ausência de qualquer coisa entre a ambição e a realidade. Ao longo do último ano, Musk disse que os robôs da Tesla “serão capazes de construir uma casa para qualquer pessoa” (mas acrescentou, quando pressionado, “contanto que você não insista que seja em um local específico”). Compartilhou entusiasticamente uma publicação afirmando que cinco milhões de robôs humanoides poderiam “construir Manhattan em seis meses”. E disse à editora-chefe da The Economist que uma abundância incrível significa que “qualquer pessoa pode ter tudo o que imaginar”, sem (claro) explicar como, quando, quanto custa ou quem paga.
São declarações que funcionam como pôsteres de cinema, isto é, impressionantes de longe e ilegíveis de perto.
A razão pela qual essa história importa para além da Tesla é que Musk não é o único a vender uma visão sem prazo. Como temos documentado ao longo de meses, a indústria de tecnologia opera, cada vez mais, sobre um modelo em que a narrativa precede o produto, em que o valor de mercado é sustentado pela promessa de um futuro que ainda não chegou, e em que a distância entre o prometido e o entregue é mantida vaga o suficiente para que ninguém consiga dizer, com certeza, se o prometido foi cumprido ou não. A “abundância incrível” de Musk é apenas a versão mais explícita desse modelo. Quando a OpenAI levanta US$ 30 bilhões a uma avaliação de US$ 1,4 trilhão sem lucrar, é uma versão mais sofisticada do mesmo mecanismo. Quando a Nvidia acumula US$ 1,35 trilhão em compromissos financeiros sustentados pela premissa de que a demanda continuará crescendo, é outra. A diferença é que a Nvidia entrega US$ 96 bilhões de receita num trimestre e a OpenAI atende um bilhão de usuários por semana. Musk, neste tema, entrega slides.
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Lipperhey construiu um instrumento para ver com clareza o que estava longe. A “abundância incrível” faz o oposto, pois quanto mais perto se olha, menos nítida a imagem fica. E, depois de um ano inteiro olhando, o que se vê ainda é o mesmo slide, mas com um adjetivo diferente.






