A Amazon e o Fim das Empresas Protegidas por Processos
As demissões anunciadas pela Amazon não são um ajuste conjuntural, nem uma simples resposta a custos. Elas são a consequência direta de uma decisão muito mais profunda sobre como o trabalho deve ser organizado numa empresa que quer continuar relevante na era da inteligência artificial. Quando a companhia afirma que está “reduzindo níveis hierárquicos, aumentando a responsabilidade individual e eliminando a burocracia”, ela está, na prática, assumindo que o modelo organizacional que a trouxe até aqui começa a atrapalhar o caminho daqui para frente.
Durante anos, crescer significou adicionar camadas. Mais gerentes, mais coordenação, mais processos, mais reuniões para alinhar o que já deveria estar claro. Esse modelo funciona enquanto o ambiente é previsível e o ritmo de mudança é controlável. O problema é que o mundo virou ao contrário. Hoje, ciclos de produto são curtos, decisões precisam ser tomadas com dados em tempo real e concorrentes surgem não de empresas tradicionais, mas de times pequenos, altamente autônomos e cada vez mais assistidos por IA. Nessa realidade, cada camada hierárquica adicional não é proteção. É atraso.
Reduzir níveis hierárquicos significa aceitar que boa parte do trabalho intermediário deixou de gerar valor. Significa reconhecer que muitas decisões não precisam subir quatro ou cinco degraus até alguém “validar”. A Amazon está dizendo, de forma implícita, que prefere errar mais rápido do que decidir devagar. E isso é uma ruptura cultural relevante para uma organização do seu tamanho, porque desmonta o conforto estrutural que grandes empresas criam ao longo do tempo.
O segundo pilar, aumentar a responsabilidade individual, é ainda mais duro. Ele desloca o eixo da organização do cargo para o impacto. Em vez de pessoas protegidas por escopos estreitos, a empresa passa a exigir donos de problemas, não executores de tarefas. Isso reduz a necessidade de supervisão constante, enfraquece a lógica de microgestão e torna dispensáveis muitos papéis criados apenas para coordenar o trabalho dos outros. Em um mundo em que algoritmos já ajudam a planejar, priorizar e executar, o valor humano migra para decisão, julgamento e responsabilidade real sobre resultados.
Eliminar a burocracia fecha o tripé. Burocracia é o imposto invisível que empresas grandes pagam para manter tudo sob controle. Ela nasce bem intencionada, como mecanismo de redução de risco, mas com o tempo vira um sistema que protege o processo e não o cliente. Para uma empresa que quer competir em um cenário dominado por IA, cloud e automação, burocracia não é neutralidade. É desvantagem competitiva. Cada formulário, cada aprovação redundante, cada ritual interno consome o ativo mais escasso da economia atual: tempo cognitivo.
O que a Amazon está fazendo, no fundo, é uma tentativa consciente de voltar a operar mais próxima do espírito que a fez crescer, mas agora em um contexto radicalmente diferente. Só que há um detalhe importante: empresas grandes não conseguem fazer isso sem dor. Quando você remove camadas, transfere responsabilidade e simplifica processos, muita gente fica sem função clara. Não porque falhou individualmente, mas porque o sistema deixou de precisar daquele tipo de papel.
Essas demissões são, portanto, menos sobre pessoas e mais sobre arquitetura organizacional. Elas sinalizam que o trabalho corporativo está passando por uma transformação silenciosa, na qual estruturas pesadas cedem espaço a modelos mais planos, mais exigentes e menos indulgentes. É um movimento que não nasce da crise, mas da antecipação de um futuro em que eficiência, autonomia e velocidade valem mais do que controle e escala administrativa.



