1 Bilhão no ChatGPT, a IA da Microsoft, Bitcoin no Buraco e um Brasil que Fabrica Caças
Bom dia! Hoje é 3 de junho. Neste mesmo dia, em 1965, o astronauta Ed White abria a escotilha da cápsula Gemini IV e se tornava o primeiro americano a caminhar no espaço. Durante vinte e três minutos, flutuou sobre o Pacífico preso apenas por um cordão umbilical de oito metros, controlando seus movimentos com um dispositivo manual que mais parecia um brinquedo. Ao ser chamado de volta pelo Controle da Missão, White respondeu com uma frase que entrou para a história da exploração espacial: “Este é o momento mais triste da minha vida.”
Sessenta e um anos depois, a sensação de fronteira se repetiu, embora o espaço em disputa tenha mudado. Hoje, as caminhadas mais ousadas não acontecem no vácuo cósmico, mas na corrida por bilhões de usuários de inteligência artificial, na tentativa de fabricar soberania tecnológica em solo próprio e nos movimentos de capital que decidem, a cada semana, quais ativos merecem a confiança dos mercados. O cordão umbilical, agora, é feito de dados, chips e decisões estratégicas cujas consequências se estendem por décadas.
O ChatGPT Atinge o Impensável
O ChatGPT, da OpenAI, ultrapassou a marca de 1 bilhão de usuários ativos mensais globais em maio, tornando-se o aplicativo a atingir esse patamar mais rapidamente na história, superando, segundo estimativas da Sensor Tower, o ritmo de adoção do Google Maps, do TikTok, do Instagram e do YouTube. A cifra é impressionante, mas o que ela revela sobre a dinâmica competitiva do setor é ainda mais significativo do que o número em si. Afinal, ao mesmo tempo em que celebra essa marca inédita, a OpenAI enfrenta uma erosão silenciosa no engajamento de seus usuários mais sofisticados: as corporações. Segundo a mesma pesquisa, os usuários americanos do ChatGPT que instalaram o Claude, da Anthropic, passaram a gastar 5% menos tempo na plataforma da OpenAI após a instalação, um número que pode parecer modesto, mas quando multiplicado por uma base de centenas de milhões, torna-se um sinal que nenhum conselho de administração pode ignorar.
A Anthropic, por sua vez, opera em uma trajetória de crescimento fenomenal. O Claude atingiu cerca de 56 milhões de usuários ativos mensais globais no segundo trimestre, um número que, ainda, parece muito distante diante do bilhão da OpenAI, mas cuja taxa de expansão anual de 640% supera, em uma ordem de magnitude, os 62% de crescimento do ChatGPT no mesmo período. Como já abordamos em edições anteriores ao acompanhar a inversão de percepção na conferência HumanX AI, o Claude não compete essencial por volume bruto de usuários, mas pela captura de um público qualificado que paga, programa e toma decisões com base na qualidade do raciocínio, exatamente o segmento que define margens e fidelidade de longo prazo.
A semana trouxe, ainda, um desdobramento que reforça essa leitura. A Anthropic anunciou a expansão do Projeto Glasswing, sua iniciativa de cibersegurança baseada no modelo Claude Mythos Preview, para 150 organizações em mais de 15 países, após um período inicial restrito a cerca de 50 empresas. O Mythos, como já falamos por aqui, é o primeiro modelo que a Anthropic assume publicamente ser poderoso demais para liberação irrestrita ao público geral. E, agora, ao ampliar seu acesso de forma seletiva, a empresa converte uma limitação em uma vantagem estratégica, ao passo que o modelo que não pode ser usado por qualquer pessoa passa a ser o modelo que só as organizações mais relevantes do mundo podem acessar, garantindo o objetivo de público sofisticado da empresa. Em paralelo a todo esse crescimento, a Anthropic protocolou (confidencialmente) seu pedido de IPO, uma etapa que posicionará a empresa para uma estreia no mercado público que poderá redefinir as expectativas de valuation para toda a indústria de IA, afinal, seus expectativas estão na casa dos trilhões de dólares.
Durante décadas, atingir um valuation de US$ 1 trilhão exigiu a construção de impérios corporativos ao longo de gerações, via de exemplo, a Microsoft levou 44 anos para tal. A inteligência artificial, porém, comprimiu essa lógica histórica de forma inédita, com empresas como a Anthropic e, também, a OpenAI caminhando para a marca do trilhão em lapsos de cinco a dez anos de operação. Essa mesma compressão se repete na adoção, onde o Google Maps precisou de cerca de oito anos para alcançar 1 bilhão de usuários, e, agora, o ChatGPT chegou lá em três. Diferentemente de tecnologias anteriores que transformavam setores de forma gradual, a IA se integra simultaneamente a praticamente toda a economia, da saúde às finanças, e o resultado é uma compressão radical do tempo econômico que muda não apenas quem compete, mas a própria velocidade com que se compete.
A Microsoft Decide Jogar com Peças Próprias
A Microsoft anunciou, durante a conferência Build em San Francisco, seus primeiros modelos proprietários de inteligência artificial voltados para desenvolvedores: o MAI-Code-1-Flash, focado em geração de código a partir de descrições em texto, e o MAI-Thinking-1, um modelo de raciocínio de tamanho médio. O movimento marca uma mudança estratégica para a empresa que, até agora, ocupava o papel de investidora e distribuidora de modelos alheios, atuando como fornecedora de infraestrutura de nuvem e capital para a OpenAI e para a Anthropic, sem desenvolver cérebros próprios.
Quando Mustafa Suleyman, CEO da Microsoft AI, declara que, após ajustar seus modelos para a McKinsey, a empresa conseguiu superar o GPT-5 da OpenAI com eficiência de custo dez vezes maior, o que está sendo comunicado ao mercado é uma recalibração fundamental nesta relação dependência.
A lógica econômica do movimento é direta e potente, pois ao rodar modelos próprios em sua infraestrutura Azure (sua plataforma de computação em nuvem), a Microsoft elimina o repasse de margens a terceiros, o que significa que cada consulta processada internamente gera um ganho de eficiência que pode ser repassado ao desenvolvedor como preço mais baixo ou retido como margem adicional. Como já analisamos em edições anteriores ao tratar do chip Maia 200 e da filosofia de “jogar em todas as mesas simultaneamente” articulada por Satya Nadella, a Microsoft construiu uma posição em que é, ao mesmo tempo, a de maior investidora da OpenAI, acionista relevante da Anthropic e, agora, desenvolvedora de modelos que competem diretamente com ambas.
“chegou a hora de cada empresa deixar de apenas consumir um modelo de fronteira para participar plenamente no ecossistema de fronteira.” Traduzida da linguagem corporativa, essa foi a mensagem de Nadella na conferência: a Microsoft não quer mais depender de ninguém para a camada mais crítica de sua oferta.
Além dos modelos, a empresa apresentou o Project Solara, uma plataforma que combina hardware e software para criar dispositivos projetados em torno de agentes de inteligência artificial, o que a Microsoft chama de experiências “agent-first”. A proposta é que a linguagem natural substitua progressivamente interfaces tradicionais baseadas em aplicativos e comandos manuais, com múltiplos agentes operando em cenários de trabalho distintos. Quando contextualizado junto ao pacote Microsoft 365 E7 que abordamos em março, cuja lógica é empacotar agentes de IA dentro do mesmo ecossistema de produtividade corporativa que já abriga centenas de milhões de trabalhadores, o desenho estratégico se completa: a Microsoft quer ser, simultaneamente, a fornecedora da infraestrutura, dos modelos, dos agentes e dos dispositivos que os executam. É integração vertical em escala que, se bem-sucedida, tornará a empresa não apenas incontornável, mas estruturalmente indispensável para qualquer organização que opere no século XXI.
O Bitcoin Perde o Chão
O Bitcoin entrou em junho no pior momento do ano. Após recuar 3,5% em maio e fechar o mês próximo de US$ 73.500, a criptomoeda aprofundou a queda nos primeiros dias de junho e passou a operar abaixo de US$ 70 mil, atingindo US$ 67.700 na madrugada de terça-feira, o menor preço desde a primeira semana de abril e acumulando uma perda de 22% no ano. O recuo do que até então era tido como “ouro digital” não tem uma causa única, mas resulta de uma convergência de fatores que, juntos, expõem a fragilidade estrutural de um ativo que, apesar de ser apresentado como reserva de valor, continua reagindo como instrumento de risco em momentos de incerteza global.
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Em primeiro lugar, os ETFs de Bitcoin nos Estados Unidos registraram saídas líquidas em 11 sessões consecutivas a partir de 15 de maio, totalizando cerca de US$ 3,45 bilhões segundo estimativas do JPMorgan, a maior e mais longa sequência de resgates desde o lançamento dos fundos em janeiro de 2024. Apenas na última sessão, investidores retiraram US$ 484 milhões, com o IBIT da BlackRock respondendo por cerca de 91% do total. Em segundo, no cenário externo, a situação no Oriente Médio, que já abordamos extensivamente ao tratar do bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz e das consequências geopolíticas da alta do petróleo, elevou a aversão ao risco de forma generalizada, com o mercado de juros passando a precificar ao menos mais uma alta de 25 pontos-base pelo Federal Reserve ao longo de 2026.
O terceiro e mais recente gatilho, contudo, foi psicológico. A Strategy, maior tesouraria corporativa de Bitcoin do mundo com mais de 843 mil unidades em carteira, vendeu 32 Bitcoins entre 26 e 31 de maio por US$ 2,5 milhões para cobrir distribuições a detentores de ações preferenciais. A operação é, por qualquer métrica financeira, irrelevante, e analistas de Wall Street foram unânimes em classificá-la como tal. Ainda assim, o efeito sobre a narrativa foi imediato e desproporcional (mas justificável), afinal, quando a empresa que transformou sua identidade inteira na acumulação incessante de Bitcoin decide desinvestir, por menor que seja a quantia, o mercado interpreta o gesto como ruptura simbólica de uma promessa, e narrativas simbólicas, no universo cripto, movem preços com mais força do que balanços.
Um detalhe, porém, merece atenção especial neste ciclo. No mesmo período em que o Bitcoin recuava, as ações de tecnologia ligadas à inteligência artificial seguiam em alta, com papéis de fabricantes de chips e empresas de modelos fundacionais avançando com força. Assim, vemos que houve uma rotação de capital, onde parte do dinheiro que sustentava a alta do mercado cripto migrou para a aposta do momento em Wall Street, a inteligência artificial. Na prática, o Bitcoin hoje disputa atenção e capital com outras teses de alto retorno, e quando a IA concentra o otimismo dos investidores enquanto o cenário macroeconômico permanece incerto, a criptomoeda perde parte do fluxo que a sustentava. Esse efeito de substituição costuma ser temporário, mas explica boa parte da fraqueza recente e reforça uma lição que o mercado insiste em reaprender: o Bitcoin, apesar de suas ambições como reserva de valor soberana, como vimos no caso iraniano do Estreito de Ormuz, ainda se comporta, nos ciclos de aversão ao risco, como o mais volátil dos ativos especulativos.
O Gripen F e a Soberania que Se Constrói Peça a Peça
A Saab apresentou, em Linköping, na Suécia, o primeiro caça Gripen F, modelo de combate de nova geração com dois assentos, desenvolvido em parceria com a Força Aérea Brasileira, que foi seu primeiro cliente e participou ativamente do codesenvolvimento da aeronave. A apresentação acontece em um cenário de escalada nos conflitos globais, com países elevando gastos em defesa a patamares não vistos desde a Guerra Fria, e em meio a uma transformação profunda na natureza da guerra, cada vez mais mediada por inteligência artificial, drones autônomos e sistemas de decisão algorítmica.
O contrato do Brasil com a Saab, assinado em 2014, contempla 36 aeronaves por mais de US$ 4 bilhões, mas o que torna o programa estrategicamente singular é o modelo de transferência tecnológica que o viabiliza. Mais de 350 profissionais brasileiros, entre técnicos, engenheiros e pilotos, foram treinados pela Saab para dominar todo o ciclo de vida da aeronave, da fabricação à manutenção, ao longo dos próximos 30 a 40 anos. A linha de montagem final na planta da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo, é a primeira do Gripen fora da Suécia, um dado que, como já analisamos em março ao cobrir a apresentação do primeiro F-39 produzido em solo brasileiro, diz tanto sobre a confiança depositada na engenharia brasileira quanto sobre a ambição industrial que sustenta o projeto.
A dimensão que aparece com força nesta apresentação, contudo, é a assimilação entre defesa e tecnologia digital. Executivos da Saab destacaram repetidamente as “novas ameaças” que redefinem o campo de batalha, com a inteligência artificial ocupando papel central não apenas no ataque orquestrado de exércitos de drones, mas em toda a cadeia de comando e decisão que, assim como no caso da Scout AI e da guerra algorítmica, opera em velocidades que nenhum ser humano consegue acompanhar. O Ministro da Defesa do Brasil revelou, ainda, que estão em negociações para a instalação de um centro de pesquisa e desenvolvimento da Saab em São José dos Campos, o que ampliaria a presença da empresa no ecossistema aeroespacial brasileiro para além da montagem de aeronaves.
Para um país que, como alertou a McKinsey em relatório, tem no máximo dez anos para transformar sua produtividade antes que o envelhecimento populacional feche a janela de desenvolvimento, o programa Gripen representa algo mais do que defesa aérea, pois ele é uma demonstração de que o Brasil pode operar na ponta mais sofisticada da cadeia industrial global quando há vontade, parceria estratégica e continuidade de investimento. A diferença entre comprar um caça e saber construí-lo é a mesma que separa dependência de soberania, e, em um mundo onde semicondutores, algoritmos e plataformas reescrevem o equilíbrio de poder entre nações, a capacidade de fabricar, manter e evoluir sistemas complexos de alta tecnologia é, possivelmente, a forma mais concreta de soberania que um país pode exercer.









