Meta Fabricando Seus Cérebros, Demissões na Era da IA, Anthropic Rejeita US$ 800 Bilhões e o Irã que Ninguém Conseguiu Isolar
Bom dia! Hoje é 16 de abril. Neste mesmo dia, em 1867, nascia Wilbur Wright, o mais velho dos irmãos que, em 1903, realizariam o primeiro voo motorizado controlado da história, provando que o que parecia fisicamente impossível era, na verdade, apenas um problema de engenharia ainda não resolvido.
Cento e cinquenta e nove anos depois, a lógica permanece idêntica: as fronteiras do possível continuam sendo redesenhadas não por quem sonha mais alto, mas por quem resolve os problemas estruturais que impedem o próximo salto. Hoje, os voos são outros, mas a mecânica da transformação segue a mesma: quem domina a infraestrutura, domina o destino.
Meta e Broadcom: O Chip que Revela a Ambição de Zuckerberg
A extensão da parceria entre Meta e Broadcom até 2029, com implantação inicial superior a 1 gigawatt e o desenvolvimento conjunto do primeiro acelerador de IA em 2 nanômetros, não é apenas um contrato de fornecimento de semicondutores. É a formalização de uma aposta existencial, onde a Meta quer deixar de depender de Nvidia e AMD para treinar e rodar seus modelos de inteligência artificial, construindo uma cadeia de computação proprietária de ponta a ponta.
O chip em questão, o MTIA (Meta Training and Inference Accelerator), é o instrumento dessa emancipação. E o fato de Hock Tan, CEO da Broadcom, deixar o conselho da Meta para assumir um cargo consultivo dedicado ao planejamento de silício personalizado da empresa revela a profundidade do comprometimento, afinal, não se trata de um fornecedor atendendo a um pedido, mas de duas empresas co-projetando a infraestrutura sobre a qual a próxima geração de IA será construída.
O contexto estratégico amplia o significado dessa movimentação. Entre as gigantes da tecnologia, a Meta é, paradoxalmente, a que mais investiu em infraestrutura de IA (com projeções que chegam a US$ 135 bilhões em capex apenas neste ano) e, ao mesmo tempo, a que ainda não demonstrou o avanço mais visível em modelos de fronteira. O Llama, apesar de competitivo e amplamente adotado por ser open source, ainda não atingiu o patamar de raciocínio dos modelos mais avançados da OpenAI ou da Anthropic. A aposta em silício próprio, portanto, não é um capricho de engenharia, mas é uma necessidade econômica e estratégica.
Treinar modelos cada vez maiores com chips de terceiros a preços crescentes é uma equação que não fecha quando se pretende, como Zuckerberg já declarou publicamente, ser a primeira empresa a alcançar a AGI (Inteligência Artificial Geral). Chips otimizados para as arquiteturas específicas da Meta podem oferecer ganhos de eficiência que transformam essa corrida de bilhões em uma disputa assimétrica a seu favor.
Na outra ponta da cadeia da IA, um movimento complementar chama atenção: AMD, Arm e Qualcomm investiram US$ 60 milhões na Wayve, a startup britânica de direção autônoma que opera como uma espécie de “Android dos carros autônomos”, um software agnóstico que roda em qualquer chip e qualquer sensor. Esse aporte, somado aos investimentos anteriores de Nvidia, Microsoft e Uber, consolida a Wayve como o ponto de convergência de uma indústria que ainda não decidiu quem vencerá, mas já concordou sobre qual modelo técnico é mais escalável.
A lógica, ao fim, é reveladora: fabricantes de chips não estão apostando na Wayve apenas por retorno financeiro, mas para garantir que seus processadores sejam compatíveis com o padrão que poderá definir como centenas de milhões de veículos dirigirão nas próximas décadas, assim como o Android fez. Se a Wayve se consolidar como a camada de inteligência universal da mobilidade autônoma, o chip que a alimenta se torna tão estratégico quanto o motor que move o carro. É uma disputa silenciosa pelo substrato e, como a história da tecnologia ensina, quem controla o substrato raramente perde a guerra.
Hollywood e o Vale do Silício Demitem Juntos: o que isso siginifica?
Em uma mesma semana, a Disney anunciou a eliminação de cerca de 1.000 postos de trabalho e a Snap cortou 16% de sua força global, também aproximadamente 1.000 funcionários. As justificativas oficiais seguem roteiros distintos, mas convergem para um diagnóstico comum, onde estruturas corporativas construídas para uma era de crescimento linear não sobrevivem em um ambiente onde a atenção é finita, a concorrência é algorítmica e a eficiência operacional deixou de ser virtude para se tornar condição de existência.
No caso da Disney, o novo CEO Josh D’Amaro foi direto ao ponto ao falar em “força de trabalho mais ágil e tecnologicamente capacitada”. A frase, traduzida da linguagem corporativa, significa que funções humanas em marketing, produção televisiva e operações estão sendo substituídas por automação e equipes menores com maior densidade técnica. A Disney não está em crise de receita, seus parques batem recordes e o Disney+ estabilizaram sua base, mas enfrenta a mesma compressão que atinge todos os estúdios: a bilheteria encolhe, a TV perde relevância e a competição por atenção com plataformas digitais exige uma velocidade de resposta que burocracias tradicionais simplesmente não comportam.
Na Snap, o diagnóstico é ainda mais explícito. Evan Spiegel revelou que mais de 65% do novo código da empresa já é gerado com auxílio de inteligência artificial, e que tarefas antes distribuídas entre equipes inteiras agora são conduzidas por times enxutos assistidos por agentes de IA. Diante disso, tal reestruturação de time não é reação a um trimestre ruim, afinal a receita cresceu 12%, mas uma reorganização preventiva de uma empresa que entendeu que seu modelo de custos precisava ser recalibrado antes que a ineficiência se tornasse ameaça existencial.
O dado mais provocativo sobre esse fenômeno, contudo, vem de onde menos se esperaria. Blake Lawit, diretor global do LinkedIn, revelou que as contratações por meio da plataforma caíram cerca de 20% desde 2022, mas afirmou categoricamente que os dados da rede (com mais de 1 bilhão de membros) não indicam a IA como responsável. A queda, segundo ele, está mais ligada ao ciclo de juros altos que contraiu o mercado de trabalho de forma ampla.
A análise é até plausível no curto prazo, mas carrega uma ressalva que o próprio Lawit fez questão de sublinhar, as a Disney e a Snap de materializar: as habilidades exigidas para uma função média já mudaram 25% nos últimos anos, e o LinkedIn projeta que esse número chegará a 70% até 2030. Em outras palavras, mesmo que a IA não esteja eliminando empregos em massa hoje, ela está silenciosamente reescrevendo a descrição de cada vaga que permanece. O emprego pode não desaparecer, mas a versão dele que você conhece, sim. Disney e Snap são apenas os casos mais visíveis de uma transformação que, quando os dados do LinkedIn finalmente confirmarem o óbvio, já terá redesenhado o mercado de trabalho por completo.
A Anthropic Rejeita US$ 800 Bilhões
Fundos de capital de risco têm oferecido à Anthropic, criadora do Claude, uma rodada de financiamento que avaliaria a empresa em mais de US$ 800 bilhões, uma cifra que praticamente a igualaria a OpenAI, avaliada em US$ 852 bilhões após sua rodada recorde de US$ 110 bilhões em fevereiro. A resposta da Anthropic, até o momento, foi simplesmente declinar. O que é curioso, afinal, em um mercado onde startups costumam aceitar qualquer cheque que valide uma narrativa de crescimento, a recusa é, por si só, uma declaração de posição estratégica.
Os números ajudam a entender por que Dario Amodei pode se dar ao luxo de dizer não. A receita anualizada da Anthropic atingiu US$ 30 bilhões até o final de março, contra US$ 9 bilhões no encerramento de 2025, um crescimento superior a 200% em menos de quatro meses. Essa trajetória não apenas justifica valuations estratosféricos, mas coloca a empresa em uma posição rara, onde ela não precisa de dinheiro novo para operar, mas precisa, apenas, decidir quando e em que condições aceitar capital que, inevitavelmente, virá acompanhado de diluição e expectativas. A demanda nos mercados secundários por ações da Anthropic tornou-se, segundo fontes da Bloomberg, “quase insaciável”, o que significa que, ao menor sinal de aprovação de Amodei, a empresa pode fechar uma rodada que supere qualquer concorrente.
A implicação mais profunda dessa recusa, porém, transcende a dinâmica de captação. O que a Anthropic está sinalizando é que, na corrida pela inteligência artificial, o poder real não pertence a quem capta mais capital, mas a quem dita os termos sob os quais o capital é aceito. A OpenAI captou montanhas de dinheiro, mas ao custo de compromissos estruturais: uma transição para modelo com fins lucrativos, tensões internas de governança, dependência de parceiros como Microsoft.
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A Anthropic, ao manter distância dos cheques mais agressivos, preserva algo que, no longo prazo, pode se revelar mais valioso que qualquer aporte: liberdade estratégica. E, com compromissos já firmados de US$ 50 bilhões em data centers próprios, US$ 30 bilhões na nuvem da Microsoft e investimentos anuais bilionários na AWS, a empresa demonstra que sabe gastar, mas apenas prefere fazê-lo com dinheiro que já tem, enquanto o mercado implora para lhe dar mais. É uma posição de força que pouquíssimas empresas na história do Vale do Silício conseguiram sustentar, e que redefine o que significa liderar uma corrida tecnológica: às vezes, vence não quem corre mais rápido, mas quem escolhe quando acelerar.
Como o Irã se Manteve mesmo sob tantas Sanções?
Por quase cinco décadas, o Irã figurou entre os países mais sancionados do planeta, um alvo simultâneo de restrições impostas pelos Estados Unidos, pela União Europeia, pelo Reino Unido e pelo Conselho de Segurança da ONU. O objetivo declarado sempre foi sufocar a economia iraniana até que o regime alterasse seu comportamento em relação ao programa nuclear, ao apoio a grupos armados e aos direitos humanos. E, no entanto, uma análise recente do New York Times revela algo que desafia a narrativa convencional: desde 2019, o Irã comercializou bens com mais de 170 países. O comércio se contraiu, mas não colapsou. A economia sofreu, mas não se rendeu. E a razão para isso é um estudo de caso sobre adaptação estrutural que merece atenção de qualquer analista de geopolítica econômica.
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A peça central dessa resiliência é a China. Pequim absorve hoje 90% das exportações de petróleo iraniano, paga em renminbi - eliminando a necessidade de transitar pelo sistema bancário americano, principal instrumento de enforcement das sanções - e fornece em contrapartida quase 30% das commodities que o Irã importa. Ainda, a relação transcende o comércio visível, com a presença de um complexo sistema de escambo, envolvendo canais ocultos de financiamento, que permite que empresas estatais chinesas construam aeroportos e infraestrutura no Irã em troca de petróleo, sem que essas transações apareçam nas estatísticas oficiais.
Em paralelo, o Irã desenvolveu deliberadamente um setor industrial doméstico capaz de fabricar automóveis, aço, eletrônicos e produtos farmacêuticos com uma política de substituição de importações que, embora imperfeita e marcada por ineficiências, reduziu a vulnerabilidade do país às restrições externas.
A lição que o caso iraniano oferece ao mundo contemporâneo, portanto, não é de ordem moral, certamente que não, mas estrutural. Em um momento em que sanções se tornaram o instrumento preferido de política externa - aplicadas contra Rússia e, cada vez mais, ameaçadas como ferramenta na rivalidade tecnológica entre EUA e China -, o Irã demonstra que economias de 94 milhões de habitantes não desaparecem por decreto. Elas se adaptam, encontram rotas alternativas, constroem alianças com parceiros dispostos a ignorar as restrições e, sobretudo, desenvolvem capacidades internas que, uma vez estabelecidas, dificilmente retrocedem. Assim, para o tabuleiro geopolítico mais amplo, o que o Irã revela é que a arquitetura financeira global baseada no dólar, embora ainda dominante, já possui fissuras suficientes para que países determinados encontrem caminhos paralelos, caminhos que, não por acaso, passam invariavelmente por Pequim.







