Uber pelos Humanos, Google Resiste à IA, Apple vs Micron e a Verdade sobre a SpaceX
Bom dia! Hoje é 14 de julho. Neste mesmo dia, em 1789, uma multidão parisiense invadia a Bastilha, a fortaleza-prisão que simbolizava o poder absoluto da monarquia francesa. A queda da Bastilha não mudou o regime imediatamente, já que a monarquia sobreviveria por mais três anos, mas destruiu algo mais profundo: a ideia de que a ordem vigente era inabalável. A partir daquela manhã, o que parecia permanente se revelou frágil, e o que parecia impossível se tornou inevitável.
Duzentos e trinta e sete anos depois, as fortalezas que pareciam permanentes estão, mais uma vez, sob pressão. A Uber, que construiu um império eliminando intermediários, agora faz lobby para que a lei exija motoristas humanos como forma de se proteger dos robotáxis que ameaçam seu modelo. O Google, que todos imaginavam que seria devorado pelos chatbots de IA, segue crescendo em buscas enquanto seus rivais disparam em tráfego. A Apple e a Micron, que sempre dependeram uma da outra, agora se acusam publicamente pela crise de preços que encarece o iPhone. E Elon Musk promete data centers no espaço enquanto Sam Altman pergunta, em público, se alguém realmente acredita nisso. São todas histórias sobre fortalezas testadas, onde algumas resistem, outras se adaptam, e pelo menos uma pode ser apenas miragem.
A Uber Quer Leis que Protejam os Motoristas Humanos
A empresa que se tornou símbolo da disrupção agora pede ao governo que desacelere a disrupção seguinte. Segundo a Wired, lobistas da Uber estão pressionando legisladores americanos para transformar em lei o que a empresa chama de “redes híbridas”, melhor dizendo, sistemas em que motoristas humanos trabalham obrigatoriamente ao lado de carros autônomos.
Em Nova Jersey, a proposta já possui maior materialidade e redige que qualquer plataforma que ofereça transporte autônomo teria que manter motoristas humanos atendendo em 85% das viagens por pelo menos três anos. Na prática, a regra inviabilizaria a operação de empresas que apostam em frotas 100% robóticas, como a Waymo e a Tesla, cujos modelos de negócio não incluem, e nunca incluíram, motoristas humanos.
A Uber apresenta este modelo híbrido como um tipo caminho responsável, argumentando que frotas exclusivamente autônomas não possuem o “freio natural” dos motoristas humanos, que param de dirigir quando a demanda cai, e por isso arriscariam inundar as cidades de veículos vazios circulando sem passageiros.
O argumento tem sim substância, mas a motivação obviamente não é social, mas econômica. A Uber possui quantias de até US$ 10 bilhões em investimentos no setor de autonomia, porém seu negócio mais lucrativo ainda são as corridas intermediadas com motoristas humanos. Um modelo híbrido, nesse cenário, protege exatamente essa receita e posiciona a Uber como a camada (única) de intermediação entre passageiros, motoristas e robôs, em outras palavras, a empresa cobra pedágio de todos os lados.
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A ironia é que a mesma empresa que passou a última década destruindo os argumentos regulatórios das cooperativas de táxi contra aplicativos de transporte agora utiliza a mesma lógica de proteção de empregos, segurança pública e de uma “transição gradual”, para erguer barreiras contra seus próprios concorrentes tecnológicos. Sob essa mesma estratégia travestida de projeto social, a Waymo, sua única parceira que hoje oferece corridas 100% autônomas e pagas nos Estados Unidos, com mais de mil robotáxis na região da Baía de São Francisco, já recebeu críticas diretas e indiretas de executivos da Uber nos últimos meses.
É a clássica posição do incumbente que sente o chão se mover: quando a tecnologia favorece, a narrativa é de progresso; quando a tecnologia ameaça, a narrativa vira regulação. A história da Bastilha ensina que esse tipo de manobra funciona por um tempo, mas raramente funciona para sempre.
O Google Que Não Morreu
Há um ano, a tese dominante no mercado era de que os chatbots de IA dizimaram a busca do Google. Porém, os dados de junho contam uma história diferente. Segundo levantamento do Bank of America Securities, as visitas globais na web ao Google subiram 4% na comparação anual, atingindo 2,8 bilhões de buscas, isso no mesmo período em que o tráfego do Claude, da Anthropic, saltou 736% e o da Meta AI cresceu 98%. Em outras palavras, os chatbots cresceram de forma explosiva, mas o Google não encolheu. Os dois movimentos aconteceram ao mesmo tempo, não um em detrimento do outro.
O dado mais revelador, contudo, é interno. O Gemini, a plataforma de IA do próprio Google, mais do que quadruplicou seu tráfego na web no último ano, com os usuários diários em dispositivos móveis subindo 295%, com esses ganhos vindo às custas das buscas e menções de links que vieram de dentro do ChatGPT, e não da busca tradicional.
Além disso, o Google integrou o Gemini ao recurso de “visões gerais criadas por IA” dentro da própria busca, o “Modo IA”, o que significa que quando o usuário pesquisa algo e recebe uma resposta gerada por IA no topo da página, ele continua usando o Google, só que de uma forma diferente. A empresa, com isso, conseguiu algo que parecia improvável: absorver a IA dentro de seu produto principal em vez de ser substituída por ela.
Nada disso significa que a empresa está livre de riscos. Afinal, um êxodo de pesquisadores seniores da DeepMind, o laboratório interno de IA do Google, rumo a outras empresas do ramo, assustou investidores no mês passado, e alguns analistas interpretaram as saídas como sinal de que a empresa está ficando atrás da OpenAI e da Anthropic no desenvolvimento de modelos de fronteira.
Se isso for verdade, o Google pode perder clientes corporativos que buscam a melhor IA do mercado. Mas os dados de junho sugerem que essa perda, se vier, acontecerá no topo da pirâmide, não na base. Para as tarefas cotidianas de bilhões de pessoas, a busca do Google e o Gemini são mais do que suficientes, e os consumidores claramente não estão trocando nenhum dos dois pelo ChatGPT ou pelo Claude. A fortaleza do Google pode estar sob pressão nos andares mais altos, mas seus alicerces continuam firmes.
A Apple vs Micron: Quem Encareceu Seu iPhone?
A escassez de chips de memória transformou a relação entre a Apple e a Micron, que sempre foram mutuamente dependentes, numa disputa pública em que cada lado culpa o outro pela disparada de preços que já encareceu Macs e iPads em até US$ 500. O CEO da Apple, Tim Cook, chamou a alta de “uma enchente que só acontece a cada cem anos” e atribuiu os reajustes ao custo repassado pelos fornecedores. A Micron devolveu a responsabilidade: sem citar a Apple pelo nome, seu diretor de negócios sugeriu que a negociação agressiva de grandes compradores impediu a empresa de financiar a expansão de capacidade durante a retração do setor, criando as condições para a escassez que agora pega todos de surpresa.
Ambos os argumentos têm fundamento, mas nenhum conta a história inteira. A Apple historicamente usou seu enorme poder de compra para travar preços antes dos concorrentes, garantir volumes prioritários e manter margens que transformam um chip comprado por US$ 5 em um componente de um produto vendido por US$ 1.500. Esse modelo funcionou enquanto a oferta de memória era abundante. Mas, quando a demanda por inteligência artificial explodiu e os fabricantes redirecionaram suas linhas para a memória de alto desempenho usada em data centers, onde as margens são incomparavelmente maiores, o que sobrou para a Apple e seus rivais foi uma oferta menor, a preços que subiram até 98% num único trimestre.
A escassez, nesse sentido, não foi causada pela Apple nem pela Micron isoladamente, mas foi causada por uma demanda que cresceu mais rápido do que qualquer previsão, combinada com o fato de que construir novas fábricas de memória é lento, caro e tecnicamente complexo.
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O desdobramento mais revelador da disputa, contudo, é geopolítico. Pressionada pelos custos, a Apple teria pedido autorização ao governo americano para usar chips de memória da chinesa CXMT, fabricante que pratica preços mais baixos e opera sob restrições dos Estados Unidos. Se Washington conceder essa autorização, o sinal será de que a realidade dos custos pode flexibilizar até os embargos tecnológicos mais rígidos. Se negar, a Apple ficará presa a fornecedores cujos preços ela não consegue mais controlar, e o consumidor continuará pagando a diferença.
Em ambos os cenários, a lição é a mesma que temos coberto nas últimas semanas: quem não controla sua cadeia de suprimentos acaba refém de quem controla, e neste momento quem controla a memória são três empresas sul-coreanas e americanas que sabem perfeitamente que o mundo inteiro precisa delas mais do que elas precisam de qualquer cliente individual.
Data Centers no Espaço: Visão ou Miragem?
Sam Altman e Elon Musk trocaram farpas nas redes sociais durante o fim de semana, e desta vez o alvo não foi o julgamento entre OpenAI e xAI, mas a viabilidade dos data centers orbitais que a SpaceX promete construir. Respondendo à acusação de Musk de que ele seria um golpista, Altman o rebateu com sem dó: “Cara, você é quem está convencendo investidores do mercado público a investir em data centers espaciais de curto prazo.”
A frase, longe de ser apenas uma provocação pessoal, foi uma crítica direta à tese central que sustenta a avaliação de US$ 2 trilhões da SpaceX.
E Altman não está sozinho nessa avaliação. Quando se conversa com especialistas no assunto, sejam os empreendedores por trás de outras startups de computação espacial, a equipe do Google que desenvolve seu próprio projeto de infraestrutura orbital, ou engenheiros que simplesmente fizeram as contas por curiosidade técnica, a resposta é sempre bastante parecida: data centers no espaço não terão impacto relevante até que a humanidade disponha de foguetes muito mais baratos e da capacidade de fabricar satélites de alta potência em massa e a custo baixo.
A SpaceX, é claro, poderia, sem dúvida, lançar um satélite equipado com capacidade de processamento no ano que vem. Mas a questão que sustenta (ou desmente) a avaliação trilionária da empresa não é se ela consegue lançar um, mas é quando conseguirá lançar milhares. E essa, segundo os especialistas, é uma questão para a década de 2030, não para 2026 ou 2027.
Dito isso, apostar contra Musk é um exercício que já saiu caro para muitos. O mesmo homem que ouviu risadas ao prometer foguetes reutilizáveis hoje pousa propulsores de pé com regularidade. O mesmo que foi chamado de irresponsável ao dizer que cobriria o planeta com internet via satélite opera o Starlink com dezenas de milhões de assinantes.
Assim, a SpaceX já provou, repetidamente, que prazos de Musk são ficção, mas suas ambições tendem a se materializar, só que numa escala de tempo que o mercado financeiro, acostumado a pensar em trimestres, tem dificuldade de precificar corretamente. O risco para os investidores não é que Musk esteja mentindo sobre data centers orbitais. É que ele esteja dizendo a verdade sobre algo que vai acontecer em 2035, enquanto a avaliação da SpaceX já precifica como se fosse 2027. E a distância entre visão e miragem, no mercado, é medida exatamente em anos de diferença entre a promessa e a entrega.






