Uber Delivery, Eli Lilly Amplia o Escopo, Carros Chineses no Brasil e, este, se Associa com a China
Bom dia! Hoje é 17 de julho. Neste mesmo dia, em 1955, Walt Disney abria as portas da Disneyland em Anaheim, Califórnia, transformando 160 acres de laranjais num parque temático de US$ 17 milhões que bancos, investidores e a própria indústria do entretenimento consideravam uma aposta insensata. A inauguração, apelidada de “Domingo Negro” pelo próprio Disney, foi um desastre operacional: a comida acabou, o asfalto da rua principal derreteu sob o calor, sapatos de salto afundaram no pavimento e o barco a vapor Mark Twain quase virou com o excesso de passageiros.
Setenta e um anos depois, a Disneyland recebe mais de 18 milhões de visitantes por ano e o conglomerado que ela inaugurou vale centenas de bilhões de dólares. A lição que Disney entendeu antes de qualquer MBA formalizá-la permanece como uma das mais poderosas do capitalismo: quem controla a experiência inteira, da história ao parque, do personagem à mercadoria, captura um valor que quem opera apenas uma parte nunca alcança.
As notícias de hoje são, todas elas, versões contemporâneas dessa lição. Uma plataforma de mobilidade que compra o delivery global para se tornar um super app. Uma farmacêutica que salta da obesidade para a saúde mental. Montadoras chinesas que chegam ao topo do mercado premium brasileiro. E uma organização internacional de IA criada pela China para capturar os países que Washington está empurrando para fora de sua órbita.
A Uber Paga US$ 14,8 Bilhões para Dominar o Delivery Global
A Uber fechou a aquisição da alemã Delivery Hero por US$ 14,8 bilhões, numa das maiores operações do setor de tecnologia em 2026. Juntas, as duas empresas passam a operar em 99 países com um volume combinado de pedidos de US$ 236 bilhões em 2025. O movimento consolida a Uber como a maior plataforma de mobilidade e entrega do planeta e responde a uma ameaça concreta: a DoorDash, sua principal rival americana, que vinha se expandindo de forma agressiva fora dos Estados Unidos, e a janela para contê-la estava se fechando. A Uber, sob a ótica dessa ameaça, decidiu que era mais barato comprar o mercado do que disputá-lo país por país.
Mas a lógica da aquisição vai além de conter a DoorDash. Os dados internos da Uber mostram que clientes que utilizam tanto mobilidade quanto delivery gastam, em média, três vezes mais do que usuários de um único serviço. Ao absorver a Delivery Hero e suas marcas em dezenas de mercados, a Uber acelera a construção do que a indústria chama de super app, uma plataforma única que concentra transporte, comida, supermercado, farmácia e, eventualmente, serviços financeiros no mesmo aplicativo, criando um ciclo de engajamento diário em que o usuário depende da plataforma para diferentes momentos do dia.
É a mesma estratégia que o WeChat executa na China e que o Mercado Livre construiu na América Latina: quanto mais serviços você oferece, mais dados você coleta; quanto mais dados você coleta, mais personalizada e difícil de abandonar a plataforma se torna.
O risco, contudo, é proporcional à ambição. Integrar uma empresa de US$ 14,8 bilhões que opera em dezenas de mercados com regulações diferentes, culturas de consumo distintas e equipes que nunca trabalharam juntas é o tipo de operação que produz sinergias no PowerPoint e dores de cabeça na execução. E a história recente do setor de delivery está cheia de fusões que pareciam lógicas no anúncio e se mostraram destrutivas na prática.
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Da Uber, que na semana passada fazia lobby para proteger seus motoristas humanos de robotáxis, a mensagem que nos é passada é de que a empresa sabe que seu negócio de mobilidade está sob a ameaça existencial da automação e precisa de uma segunda fonte de receita que não dependa de motoristas humanos para existir. O delivery é essa fonte. E agora, com 99 países e US$ 236 bilhões em volume, é grande o suficiente para justificar a avaliação trilionária que a Uber almeja.
A Eli Lilly Aposta US$ 3,8 Bilhões em Psicodélicos
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro e uma das maiores beneficiárias da revolução das canetas emagrecedoras, anunciou a aquisição da biofarmacêutica AtaiBeckley por até US$ 3,8 bilhões. Com a compra, a empresa passa a controlar o BPL-003, um spray nasal à base de um composto psicodélico sintético voltado ao tratamento da depressão resistente, uma condição em que pacientes não respondem às terapias convencionais e que afeta, segundo estimativas, mais de 100 milhões de pessoas no mundo. O mercado reagiu com entusiasmo à aquisição: as ações da AtaiBeckley dispararam mais de 32% após o anúncio.
A operação marca a entrada da Eli Lilly na corrida entre as grandes farmacêuticas pelo desenvolvimento de terapias baseadas em psicodélicos, um segmento que vem ganhando momento diante do reconhecimento crescente de que os antidepressivos tradicionais, que dominam o mercado há décadas, simplesmente não funcionam para uma parcela significativa dos pacientes. O timing regulatório também ajuda, pois em abril, o presidente Trump assinou uma ordem executiva determinando que os órgãos reguladores acelerem a análise de determinados tratamentos psicodélicos e ampliem o financiamento federal para pesquisas na área.
Deste modo, analistas projetam que o BPL-003 pode gerar entre US$ 1 e US$ 2 bilhões em vendas anuais, e que o mercado de terapias psicodélicas como um todo poderá movimentar cerca de US$ 12 bilhões até 2034, superando o mercado de antidepressivos de marca, atualmente estimado em US$ 8 bilhões.
Para a Eli Lilly, a aposta faz parte de uma estratégia que se tornou visível nos últimos meses: usar o caixa gerado pelo Mounjaro, que segue entre os medicamentos mais vendidos do planeta, para construir um portfólio de saúde que abranja obesidade, diabetes, saúde mental e, mais recentemente, vacinas, após a aquisição de três desenvolvedoras do segmento em maio por quase US$ 4 bilhões.
A lógica é a de uma empresa que entendeu que o paciente que trata a obesidade com Mounjaro frequentemente também enfrenta depressão, ansiedade e outras condições crônicas, e que oferecer tratamentos para todas elas dentro do mesmo ecossistema farmacêutico cria o tipo de recorrência e fidelidade que o mercado de saúde sempre perseguiu, mas raramente conseguiu construir em escala. É, no fundo, a mesma lógica de um super app, só que com medicamentos em vez de aplicativos.
As Marcas Chinesas Já São 44% do Mercado Premium Brasileiro
Em junho, as montadoras chinesas alcançaram 44% dos emplacamentos de veículos premium no Brasil. O principal responsável foi a Denza, marca da BYD que, apenas sete meses após estrear no país, colocou seu SUV híbrido B5 na liderança absoluta do segmento, com 566 unidades vendidas, superando, assim, modelos consagrados da BMW, Volvo, Mercedes-Benz e Audi. No acumulado do ano, a BMW ainda lidera, mas a velocidade com que a Denza escalou de zero a líder mensal num mercado que europeus dominaram por décadas é, por si só, algo que deveria tirar o sono de Munique e Stuttgart.
O avanço chinês no segmento premium reflete uma combinação de fatores que as montadoras europeias subestimaram. As fabricantes chinesas oferecem veículos eletrificados com maior conteúdo tecnológico, disponibilizando telas maiores, integração com assistentes de IA, atualizações de software remotas… a preços que as marcas tradicionais não conseguem igualar por conta de suas estruturas de custo.
E o consumidor brasileiro de alta renda, que historicamente comprava um carro alemão pelo prestígio da marca, está descobrindo que um SUV chinês oferece mais tecnologia, mais equipamento e por um preço mais competitivo. A tradição da marca, que durante décadas foi o diferencial do segmento premium, começa a perder peso diante da inovação e do custo-benefício. É uma mudança de comportamento que, uma vez consolidada, dificilmente se reverte.
Ainda, os números do mercado mais amplo confirmam, também, essa tendência. Nos primeiros quinze dias de julho, veículos eletrificados já representaram 23,6% de todos os automóveis emplacados no Brasil, com mais de 25 mil unidades vendidas – mais que o dobro do mesmo período em 2025. No acumulado do ano, o segmento cresceu 120%. A BYD lidera essa transição, e a Denza é a ponta de lança no segmento mais lucrativo.
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Assim, para as montadoras europeias, que chegaram tarde à eletrificação e agora enfrentam um concorrente que controla toda sua cadeia de valor, da bateria ao software e da fábrica ao preço final, a questão já não é se perderão participação de mercado no Brasil. É quanto.
O Brasil Assina Acordo de IA com a China
O Brasil assinou nesta quinta-feira, junto com outros 28 países, um acordo para a criação da Organização Mundial de Cooperação em Inteligência Artificial, uma entidade liderada pela China com sede em Xangai. Entre os signatários estão Rússia, Paquistão, Indonésia e dezenas de nações africanas e asiáticas. A organização se propõe a promover cooperação internacional em IA, reduzir desigualdades no acesso à tecnologia e coordenar estratégias nacionais, objetivos que, na superfície, parecem razoáveis e até necessários. A questão está no que acontece abaixo da superfície.
As principais organizações internacionais que hoje definem padrões de governança para inteligência artificial, seja a Parceria Global sobre IA, os Princípios da OCDE, a Convenção do Conselho da Europa ou o Processo de Hiroshima do G7, funcionam, na prática, como clubes das economias mais desenvolvidas, com critérios de entrada que excluem a maioria dos países em desenvolvimento.
A organização criada pela China se posiciona como uma alternativa: aberta a qualquer Estado soberano, sem critérios políticos para ingresso e com prioridade declarada à redução da desigualdade tecnológica. Para nações que se sentem excluídas dos fóruns ocidentais, e que, no caso do Brasil, enfrentam tarifas de 25% recém-impostas por Washington, a proposta é atraente, afinal, a China nos oferece um assento na mesa que os Estados Unidos e a Europa não estão oferecendo.
As recentes medidas protecionistas adotadas pela administração Trump, ou seja, de impor tarifas sobre produtos brasileiros, embargos tecnológicos, restrições de exportação, foram desenhadas para isolar concorrentes e proteger a posição americana. Mas o efeito está sendo o oposto: em vez de isolar a China, as barreiras estão empurrando parceiros históricos dos Estados Unidos diretamente para a esfera de influência de Pequim.
O Brasil, que no início deste ano emitiu títulos soberanos em yuan como “teste” para o mercado chinês, agora assina um acordo de governança de IA liderado pela China, em dois movimentos que, lidos separadamente, parecem pontuais, mas que juntos revelam uma tendência de realinhamento que deveria preocupar Washington muito mais do que parece preocupar.
O Fórum Econômico Mundial estima que a inteligência artificial pode contribuir com até 14% do PIB global até 2030. Quem escrever as regras desse mercado capturará uma parcela desproporcional desse valor. E, por enquanto, quem está convidando o Brasil para escrever essas regras é Pequim, e não Washington.






