Se der certo, a gente vota na IA
Os Emirados Árabes acabaram de anunciar algo que parece roteiro de ficção científica, mas não é. A ideia é colocar 50% do governo para rodar com IA agentica em até dois anos. Não estamos falando de chatbot para responder cidadão. Estamos falando de sistemas que tomam decisão, executam processos, conectam áreas e operam como um “parceiro executivo” do Estado.
Se isso funcionar, a provocação vem quase automática. E se a máquina governar melhor do que a gente? Parece piada, mas a discussão é mais profunda do que o tom sugere. Governo, no fim do dia, é execução. É pegar recurso, transformar em serviço e gerar resultado para o cidadão. Saúde, educação, infraestrutura...
O problema é que, historicamente, a execução pública sofre com três coisas: lentidão, ineficiência e inconsistência. A IA ataca exatamente esses três pontos. Ela não se cansa, não esquece, não se perde em burocracia emocional e consegue operar em escala absurda com base em dados.
Nos Emirados, o plano já nasce com um critério claro: medir performance por velocidade de adoção, qualidade da implementação e impacto real. Isso muda completamente o jogo. Porque deixa de ser discurso de palco e vira métrica. Deixa de ser promessa de campanha e vira entrega. E, talvez mais importante, obriga todo funcionário público a aprender a operar nesse novo modelo.
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Agora vem o ponto delicado. Governar não é só executar. É decidir. E decidir envolve valores, contexto, cultura, conflitos de interesse, nuances humanas. A IA pode otimizar escolhas, mas ainda não “sente” as consequências. Ela calcula. E aí está o limite atual. Uma máquina pode dizer qual política é mais eficiente. Mas quem define o que é justo?
Ainda assim, existe um cenário curioso se esse experimento der certo. Se a IA conseguir entregar serviços melhores, mais rápidos e mais baratos… a tolerância com a ineficiência humana cai drasticamente. O eleitor passa a comparar. Não com outro político. Mas com um sistema que simplesmente funciona.
E é aqui que a provocação vira quase inevitável. Não porque alguém vai colocar uma IA na urna. Mas porque o padrão de expectativa muda. O cidadão deixa de aceitar desculpa. Ele passa a querer performance. No fundo, talvez a gente não vá votar na IA para presidente. Mas pode começar a votar como se já existisse uma.



