PicPay Mira a Nasdaq, Meta em Alta Demanda, Tesla Perde Trono e as Esquisitices da CES 2026
Bom dia! Hoje é 7 de janeiro. Neste mesmo dia, em 2007, Steve Jobs subia ao palco da Macworld Conference para apresentar o iPhone, um dispositivo que combinava um telefone, um iPod e acesso ao navegador de internet em uma única tela sensível ao toque.
Dezenove anos depois, o legado daquela apresentação se desdobra em direções que nem ele poderia prever: óculos que respondem a gestos neurais, carros elétricos chineses que ultrapassam gigantes americanas, e fintechs brasileiras batendo às portas de Wall Street. A revolução continua, só que agora em múltiplas frentes simultâneas.
PicPay protocola IPO nos Estados Unidos
O PicPay voltou a bater à porta de Wall Street. Na noite desta segunda-feira, a fintech brasileira protocolou seu pedido formal para listar suas ações na Nasdaq sob o código “PICS”, retomando uma jornada interrompida em 2021, quando o cenário de mercado forçou a controladora J&F Investimentos a recuar.
Naquela época, o valuation da empresa derreteu de US$ 20 bilhões para US$ 6 bilhões antes mesmo de a oferta sair do papel. Agora, com a janela de IPOs nos Estados Unidos reaberta e o apoio de Marcelo Claure, que se comprometeu a ancorar US$ 75 milhões através de sua gestora Bycicle, a família Batista tenta novamente transformar a fintech em empresa de capital aberto.
Os números apresentados à SEC (equivalente à CVM no Brasil) mostram uma empresa mais madura do que a de cinco anos atrás: 66 milhões de clientes, dos quais 42 milhões ativos, uma receita de R$ 7,3 bilhões nos primeiros nove meses de 2025 e lucro líquido de R$ 313,8 milhões.
O mercado estima uma captação próxima de US$ 500 milhões em oferta integralmente primária, o que significa diluição para os atuais acionistas, mas também caixa novo para expandir operações. A estrutura de duas classes de ações, com a J&F mantendo papéis com dez vezes mais poder de voto, garante que os irmãos Batista permanecerão no controle estratégico mesmo após a abertura.
Para o ecossistema de fintechs brasileiro, um IPO bem-sucedido do PicPay seria um sinal de que há vida além do Nubank nas bolsas americanas. Para os Batista, seria mais uma peça no seu tabuleiro imperial que já inclui a JBS listada em Nova York desde junho passado.
Meta suspende expansão externa dos seus óculos inteligentes diante de demanda recorde
A Meta anunciou que pausará os planos de vender seus óculos Ray-Ban Display fora dos Estados Unidos. O motivo não é um problema técnico ou regulatório, mas o oposto: uma demanda sem precedentes que esgotou todo seu estoque e criou listas de espera que se estendem por todo o ano de 2026.
O lançamento previsto para França, Itália, Canadá e Reino Unido no início do ano foi adiado indefinidamente enquanto a empresa prioriza atender os pedidos americanos. Para a Meta, é um problema bom de ter, mas ainda assim um problema: a escassez limita a capacidade de construir ecossistema global e abre espaço para concorrentes que consigam escalar produção mais rapidamente.
Os óculos, apresentados em setembro, representam o passo mais concreto da Meta em direção à computação vestível. Controlados pela Neural Band, uma pulseira que detecta gestos sutis das mãos, eles receberam novos recursos na CES desta semana, incluindo um teleprompter portátil e a capacidade de escrever mensagens com o dedo em qualquer superfície.
A visão de Zuckerberg é clara: substituir o smartphone por dispositivos que ocupem menos atenção visual e se integrem mais naturalmente ao corpo. O gargalo de produção, porém, revela uma tensão estrutural da indústria de hardware: projetar o futuro é mais fácil do que fabricá-lo em escala. Enquanto a Meta resolve sua equação de oferta, concorrentes como Apple, Google e startups chinesas observam atentamente as lições do que funciona e do que falha.
BYD ultrapassa Tesla e assume oficialmente a liderança global
O que parecia inevitável agora é oficial: a BYD superou a Tesla e se tornou a maior fabricante de veículos elétricos do mundo. Enquanto a empresa de Elon Musk viu suas vendas caírem 8,6% em 2025, com entregas de apenas 1,64 milhão de unidades, a chinesa entregou quase 2,26 milhões de carros totalmente elétricos, ampliando a vantagem tanto no trimestre quanto no acumulado anual.
Se incluídos os híbridos plug-in, a distância se torna ainda maior: a BYD vendeu mais de 2 milhões de híbridos em cada um dos últimos dois anos, segmento que a Tesla simplesmente não disputa.
A queda de 16% nas entregas do quarto trimestre da Tesla, abaixo das estimativas de analistas e da própria empresa, expõe um desafio que vai além de ciclos de produto: a companhia enfrenta saturação nos mercados onde domina, competição feroz na China e uma linha de modelos que envelhece sem substitutos claros.
Musk tentou desviar atenção para o Cybercab, seu projeto de robotáxi, mas os testes sem motorista permanecem limitados a poucas centenas de carros em Austin e São Francisco, com supervisores de segurança a bordo. Diante disso, Wall Street já ajustou expectativas: há dois anos, analistas previam 3 milhões de entregas para 2026; hoje, a média caiu para 1,8 milhão.
A ascensão da BYD não é apenas uma história de sucesso chinês, mas é um alerta para toda a indústria automotiva ocidental sobre o custo de subestimar concorrentes que combinam escala, integração vertical e domínio da cadeia de baterias.
Vasos sanitários inteligentes, telefones com fio e detectores de alérgenos: o lado excêntrico da CES 2026
A CES sempre foi palco de inovações que oscilam entre o visionário e o bizarro, e 2026 não decepcionou. Entre os corredores de Las Vegas, visitantes se depararam com o Smart Toilet Neo, da empresa VOVO: um vaso sanitário de US$ 4.990 que analisa a urina do usuário e envia alertas para familiares caso não seja utilizado em oito horas, uma funcionalidade pensada para monitorar idosos que vivem sozinhos.
A privada inteligente é um exemplo de como a saúde preventiva - com o envelhecimento sistemático do Ocidente - vem ganhando cada vez mais espaço no mercado e, agora, pode até mesmo migrar para os lugares mais inesperados de nossas casas, transformando rotinas banais em fontes de dados médicos.
Por outro lado, na categoria da nostalgia tecnológica, a Pinwheel apresentou um telefone com fio projetado para a Geração Z, jovens que nunca experimentaram ficar “ao pé do telefone” esperando ligações. O Pinwheel Home, vendido por US$ 99, permite que crianças conversem com contatos predefinidos sem acesso a telas, uma proposta que tenta resgatar habilidades verbais em uma geração criada com mensagens de texto.
Já para quem sofre com alergias alimentares, a Allergen Alert trouxe um detector portátil capaz de identificar glúten em refeições com precisão de laboratório. O dispositivo custa US$ 200 e funciona com sachês de teste vendidos por assinatura.
Estes são produtos que talvez nunca alcancem o mainstream, mas que revelam algo importante: a tecnologia de consumo está cada vez mais fragmentada, buscando resolver dores específicas de nichos que, somados, formam mercados consideráveis. A CES, como sempre, é tanto feira de negócios quanto galeria de futuros possíveis, alguns dos quais jamais chegarão às prateleiras.











