Ozempic Vai à China, Games Sofrem, SpaceX em Compras e a DeepSeek Vale Bilhões
Bom dia! Hoje é 17 de junho. Antes das notícias, um aviso: esta edição acompanha o lançamento de um novo Blind Spot do Entrelinhas, desta vez sobre o mercado das canetas emagrecedoras.
A leitura óbvia diz que estamos diante de uma revolução na saúde. Não é. Ou melhor: não é só isso. Saúde é a porta de entrada. O que está do outro lado é um deslocamento de demanda em uma escala jamais vista, afinal, setores inteiros foram construídos para vender o impulso, mas o impulso acabou de virar opcional. No relatório, mapeio a corrida entre Novo Nordisk e Eli Lilly, os setores que vão perder matéria-prima de receita, o ponto cego que nenhuma mesa de diretoria nomeou ainda e o recorte brasileiro para quem precisa se reposicionar nos próximos 18 a 24 meses.
O acesso é gratuito em report.entrelinhas.ai. Dito isso, vamos ao que importa.
O Ozempic Mira 1,4 Bilhão de Pessoas
Imagine uma prateleira capaz de atender um em cada cinco seres humanos do planeta. Esse é o mercado que a Novo Nordisk pretende acessar ao solicitar, “muito em breve”, a aprovação regulatória na China para a versão em comprimido do Wegovy, seu medicamento de perda de peso baseado em semaglutida. O segundo maior mercado farmacêutico do mundo representa, para a dinamarquesa, algo muito maior do que uma nova frente de receita, ao contrário, a China é o campo de batalha onde se decidirá se a revolução dos medicamentos GLP-1, que já redesenhou hábitos alimentares, cadeias produtivas e setores inteiros no Ocidente, conseguirá se replicar em escala verdadeiramente civilizacional.
A urgência da fabricante do Ozempic é muito justificável, afinal, a Eli Lilly, rival americana que desenvolveu o orforglipron, já apresentou seu pedido de aprovação ao regulador chinês no final de 2025, saindo na frente numa corrida em que cada mês de antecedência pode significar bilhões em receita capturada. Em conjunto, a concorrência local também se intensifica: a Pfizer e outros fabricantes chineses já ocupam posições no mercado, e a expiração da patente da semaglutida na China, em março deste ano, abriu a porta para genéricos que devem surgir a partir do segundo trimestre de 2027.
Nesse contexto, as vendas de tratamentos GLP-1 nas plataformas Alibaba e JD.com já totalizaram cerca de US$ 207 milhões apenas no primeiro trimestre deste ano, um número que, para uma categoria ainda embrionária no país, revela uma demanda reprimida em uma escala rara.
A aposta da Novo Nordisk nesta forma oral fala menos sobre um capricho, e mais sobre um cálculo estratégico. Como já sabemos, comprimidos eliminam a barreira psicológica da agulha, que é particularmente forte em mercados asiáticos, e reduzem dramaticamente os custos de distribuição em comparação com as cadeias de refrigeração exigidas pelos injetáveis. O próprio presidente-executivo da empresa apostou, contudo, que o verdadeiro fosso competitivo desta nova entrada está na escala de produção, pois em suas palavras, “poucos concorrentes terão condições de alcançar nosso nível de capacidade”, se referindo a sua infraestrutura fabril consolidada que demorou anos e bilhões para ser erguida.
A questão que o mercado ainda não precificou integralmente, porém, é o que acontece quando a China, que já demonstrou em semicondutores e veículos elétricos uma capacidade notável de escalar produção doméstica a custos imbatíveis, decidir aplicar essa mesma lógica à fabricação de genéricos de semaglutida. Portanto, para a Novo Nordisk e a Lilly, a corrida chinesa não é apenas uma disputa comercial, mas é um teste sobre se marcas ocidentais conseguem manter o prêmio de preço num mercado que historicamente recompensa volume, não exclusividade.
A Crise do Xbox e a IA que Devora os Games
Quase US$ 500 milhões em receita desapareceram ao longo dos últimos cinco anos. A margem de lucro encolheu para apenas 3%. Os custos dos componentes de armazenamento quadruplicaram desde o outono de 2025. E, como se não bastasse, a Microsoft confirmou uma nova rodada de demissões no setor para julho. Nesse cenário, após anos de aquisições bilionárias e apostas ambiciosas, a divisão de games da Microsoft se vê diante de uma realidade incômoda: o Xbox está sangrando.
O paradoxo é justamente o que torna a situação tão reveladora. Em 2023, a Microsoft concluiu a maior aquisição da história da indústria dos videogames ao desembolsar US$ 69 bilhões pela Activision Blizzard, incorporando ao seu portfólio algumas das franquias mais valiosas do mercado, como Call of Duty. A expectativa era de reforçar a divisão com uma fonte robusta de receita recorrente e ampliar o alcance de um ecossistema já sustentado pelo Game Pass.
O que aconteceu, porém, foi o oposto. A receita de conteúdo e serviços recuou. As vendas de consoles despencaram. E o Game Pass, tratado durante anos como a principal aposta estratégica da Microsoft para os games, perdeu milhões de assinantes após oito meses seguidos de retração. Segundo a própria Asha Sharma, líder do setor, parte do problema foi uma política de preços que acabou tornando o serviço “caro demais para os jogadores”.
Mas o ponto mais central da crise não nasceu dentro dos estúdios de games: nasceu nos data centers de IA. A explosão da demanda por semicondutores avançados e memória de alta largura de banda para treinar e rodar modelos de inteligência artificial criou uma escassez de hardaware que elevou, e segue elevando, os custos para todos os demais consumidores de silício, os quais dentre eles estão os consoles de videogame como as maiores vítimas colaterais. Isso quer dizer que, quando a Microsoft confirma que componentes de armazenamento chegaram a custar até quatro vezes mais em poucos meses, ela está descrevendo o efeito cascata de uma economia que priorizou, de forma quase totalitária, a infraestrutura de IA sobre qualquer outra cadeia de eletrônicos de consumo.
Diante disso, o “Xbox Reset” de Sharma, seu plano de 100 dias para reformular toda a divisão, busca saídas em “novos modelos de hardware mais acessíveis” e uma concentração de investimento em suas franquias mais rentáveis. Por fim, a pergunta que a indústria inteira enfrenta é mais incômoda: num mundo onde cada chip de memória vale mais dentro de um data center do que dentro de um console, o modelo de negócios de hardware dedicado a jogos ainda é viável, ou estamos testemunhando o início de uma transição irreversível para o cloud gaming como única alternativa econômica?
SpaceX Engole a Cursor por US$ 60 Bilhões
A tinta do IPO mal secou e Elon Musk já começou a gastar. A SpaceX anunciou nesta terça-feira a conclusão da aquisição da Cursor, uma editora de código com inteligência artificial que se tornou uma ferramenta corporativa indispensável para 64% das empresas presentas na Fortune 500. O negócio, avaliado em US$ 60 bilhões, transforma uma opção de compra anunciada em abril em fato consumado, e marca a primeira grande movimentação da SpaceX como empresa listada na Nasdaq.
A lógica da aquisição completa uma cadeia que Musk vem montando desde a fusão com a xAI em fevereiro, onde: a SpaceX fornece acesso ao espaço; a Starlink distribui conectividade global; a xAI desenvolve modelos de inteligência artificial; o X provê distribuição e dados em tempo real; e, agora, a Cursor ocupa a camada de aplicação que converte toda essa infraestrutura em produtividade para desenvolvedores.
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Com o supercomputador Colossus, que detém uma capacidade equivalente a um milhão de chips H100 da Nvidia, a promessa é turbinar os modelos por trás do Cursor com um poder computacional que nenhum concorrente independente consegue igualar. Para a Cursor, que competia em um mercado dominado pelo Claude Code da Anthropic e pelo Codex da OpenAI sem recursos de escala comparáveis, o guarda-chuva capitalizado da xAI resolve seu gargalo financeiro e a coloca oficialmente na concorrência.
O mercado já respondeu com entusiasmo à movimentação: as ações da SpaceX subiam cerca de 10% no pré-mercado, adicionando algo próximo de US$ 247 bilhões ao valor de mercado da empresa, que já vale US$ 2,53 trilhões. Se o ganho se sustentar, a SpaceX ultrapassará a Amazon e se tornará a quinta empresa mais valiosa do mundo. Portanto, para quem está se expondo à SPCX, o recado é claro: a tese vendida durante o IPO, aquela de um mercado de IA endereçável de US$ 28,5 trilhões, começou a se traduzir em aquisições concretas que encurtam a distância entre a narrativa e a receita. A fragilidade do arranjo, contudo, permanece a mesma que identificamos em abril: nem a Cursor nem a xAI possuem modelos proprietários comparáveis aos da Anthropic ou da OpenAI, e a aposta de que infraestrutura computacional compensa defasagem técnica em inteligência artificial é uma tese plausível, mas que ainda aguarda validação em campo aberto.
DeepSeek é a Mais Valiosa da China em IA
Há dezoito meses, a DeepSeek era a startup chinesa que “veio do nada” e abalou Wall Street ao demonstrar que os modelos de IA competitivos podiam ser treinados com uma fração dos recursos utilizados por seus rivais americanos. Agora, com US$ 7,4 bilhões captados em sua primeira grande rodada de financiamento e um valuation superior a US$ 50 bilhões, a empresa se tornou a mais valiosa da China no setor de inteligência artificial, consolidando um padrão que temos acompanhado edição após edição por aqui: a construção, por parte da China, de um ecossistema paralelo de IA que possui modelos próprios, chips próprios, data centers locais e uma estratégia de código que constrói uma alternativa global sem depender de batalhas regulatórias mercado a mercado.
Dois detalhes dessa rodada merecem atenção especial. Primeiro, a estrutura de governança: o fundador Liang Wenfeng, que antes do aporte detinha cerca de 90% da DeepSeek, mantém seu controle por meio de uma sociedade limitada administrada por ele mesmo, e cada investidor precisa manter sua posição por pelo menos cinco anos na empresa. Isso significa que, em um setor onde rodadas de venture capital frequentemente diluem fundadores e impõem pressão por retorno rápido, a DeepSeek opera sob uma lógica inversa, que lembra mais uma empresa familiar chinesa do que uma startup do Vale do Silício.
Segundo, a lista de investidores: Tencent, JD.com, NetEase, CATL e fundos como IDG Capital. É o ecossistema tecnológico chinês em peso apostando que a IA será para a próxima década o que os veículos elétricos foram para a anterior, ou seja, um setor onde a China pode competir com, e eventualmente superar, os Estados Unidos.
O capital deve ir principalmente para pesquisa, desenvolvimento e ampliação de infraestrutura computacional, área onde a China ainda enfrenta limitações reais frente ao seu restrito acesso a chips avançados. Mas, como já estamos cientes, as parcerias com da empresa com a Huawei no uso dos chips Ascend 950 estão construindo a cadeia de hardware doméstica necessário que promete funcionar independentemente da Nvidia e da TSMC.
Por fim, a mensagem estratégica por trás desta narração é inequívoca: mesmo avaliada em “apenas” US$ 50 bilhões frente aos US$ 852 bilhões da OpenAI, a DeepSeek não está tentando vencer a corrida pelo modelo mais poderoso, mas sim por uma relação custo-eficiência mais imbatível – que foi o que a colocou no jogo. E, numa indústria onde o acesso está se tornando mais importante que a fronteira, essa pode se revelar uma aposta bastante inteligente do tabuleiro.






