O Risco das Empresas Sem Alma
A Colgate já tentou vender comida. A Harley-Davidson lançou perfume. A Bic tentou vender roupa íntima feminina. A Cosmopolitan colocou seu nome em iogurtes. A Zippo fabricou um perfume. E a Coca-Cola criou a New Coke.
Nem todos esses projetos fracassaram pelo produto em si. Muitos fracassaram porque a empresa deixou de responder à pergunta mais importante de todas: quem somos para o cliente? Empresas não vivem apenas de marca. Vivem de significado.
Quando alguém compra Colgate, não compra creme dental. Compra higiene, frescor, confiança. Durante décadas, a empresa construiu um território muito específico na mente das pessoas. É justamente esse território que dá valor à marca. Quando ela tenta vender uma refeição congelada, ainda que tecnicamente seja possível, ela invade um espaço onde sua reputação não ajuda. Pelo contrário: atrapalha.
A internet eternizou a história da “lasanha da Colgate”. Curiosamente, tudo indica que a famosa embalagem nunca existiu de verdade. O que existiu foi uma tentativa real da empresa de entrar no mercado de alimentos com a linha Colgate Kitchen, nos anos 1960. A imagem viral da lasanha foi recriada décadas depois. Mas isso pouco importa. O mito se espalhou porque parecia absolutamente plausível. E isso já diz muito.
O problema é que esse fenômeno está se repetindo em escala dentro das empresas Vivemos uma época em que toda semana surge uma nova palavra da moda. IA. Comunidade. Creator economy. Metaverso. Blockchain. ESG. Agentes. Superapps. Muitas empresas passam a correr atrás da tendência do momento sem perguntar se aquilo fortalece ou enfraquece sua identidade.
A obsessão pela novidade pode produzir um efeito colateral perigoso: empresas que fazem de tudo um pouco acabam deixando de significar alguma coisa. No passado, perder a alma acontecia quando uma empresa tentava vender um produto que não combinava com sua marca. Hoje, isso acontece quando ela passa a falar de assuntos que não domina, adota tecnologias sem propósito ou muda de posicionamento a cada nova onda do mercado.
O cliente percebe. Ele talvez não consiga explicar racionalmente. Mas sente quando uma empresa está apenas seguindo o fluxo. Sente quando o discurso parece oportunista. Sente quando a inovação foi adotada para parecer moderna, e não para resolver um problema real.
Existe uma diferença enorme entre evoluir e abandonar a própria essência. A Amazon entrou em dezenas de mercados diferentes. A Apple saiu dos computadores para relógios, celulares e serviços financeiros. A Nvidia passou de fabricante de placas gráficas para uma das empresas mais importantes da inteligência artificial. Nenhuma delas perdeu sua alma.
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Porque todas carregaram consigo aquilo que sempre foram. A Amazon continua obcecada por conveniência e eficiência. A Apple continua obcecada pela experiência do usuário. A Nvidia continua obcecada por computação de alto desempenho.
Elas expandiram seu território. Não trocaram de identidade. Essa talvez seja uma das principais competências estratégicas da próxima década. Empresas precisarão mudar mais rápido do que nunca. Incorporar inteligência artificial, reinventar processos, criar novos modelos de negócio e explorar mercados inteiros que ainda não existem.
Mas precisarão fazer isso sem romper o elo invisível que construíram com seus clientes. Porque marcas fortes não são aquelas que conseguem fazer qualquer coisa São aquelas que conseguem fazer coisas novas sem deixar de parecer elas mesmas. No fim, toda empresa precisa inovar. Mas poucas conseguem inovar sem perder a alma.




