O Jeito Prosus de Inovar: O framework de inovação que faz da dona do iFood uma das empresas mais inovadoras do mundo
A maior parte das empresas fala sobre inovação como se fosse um grande projeto estratégico, com orçamento relevante, comitê, apresentação bonita e meses de planejamento. A Prosus parece operar por outra lógica: inovação não nasce grande. Nasce pequena, rápida, barata e testável. O “Conceito de Jet Ski”, descrito por Fabricio Bloisi, é poderoso justamente porque simplifica algo que muitas empresas complicam. Antes de tentar virar o transatlântico, a empresa coloca dezenas ou centenas de jet skis na água. Alguns afundam rápido. Alguns mudam de direção. Poucos encontram rotas promissoras. E esses poucos, quando provam valor, ganham mais combustível, mais estrutura e mais escala.
A lógica central do modelo é simples: não use a estrutura pesada da empresa para descobrir o futuro. Use pequenos times para testar hipóteses com velocidade. Só depois de encontrar sinais reais de tração, leve aquilo para fases maiores. Isso reduz desperdício, aumenta aprendizado e impede que a companhia aposte pesado em ideias que ainda não provaram nada.
O erro de muitas empresas é querer começar pelo transatlântico. Elas montam grandes iniciativas, alocam times enormes, investem muito dinheiro, criam governança pesada e só depois descobrem que a hipótese estava errada. A Prosus inverte essa sequência. Primeiro aprende. Depois escala. Só então integra.
O framework em 3 movimentos
O primeiro movimento é o Jet Ski. Aqui, o objetivo não é ganhar escala. É aprender. São experimentos pequenos, rápidos e baratos, conduzidos por equipes enxutas de 5 a 10 pessoas. O time testa muitas hipóteses, recebe feedback rápido, muda de direção com agilidade e evita gastar muito dinheiro antes de saber se existe algo relevante ali. O sucesso dessa fase não é receita grande. É clareza. A pergunta não é “isso já virou negócio?”. A pergunta é: aprendemos algo que justifica avançar?
O segundo movimento é o Barco ou Bote. Quando um experimento mostra potencial, ele ganha mais estrutura. Recebe mais investimento, mais atenção e mais capacidade de execução. Mas ainda não vira um navio pesado. A equipe continua relativamente enxuta, o aprendizado continua acelerado e a pressão por resultado aumenta. Aqui, a pergunta muda: isso consegue crescer rápido sem perder eficiência? É a fase em que a empresa coloca mais “gasolina”, mas ainda exige velocidade, disciplina e foco. O objetivo é buscar crescimento relevante, algo como avançar 200% nos resultados em pouco tempo. Não é mais apenas aprender. É provar que a ideia tem força.
O terceiro movimento é o Transatlântico. Só depois de validado e escalado, o experimento passa a ser integrado ao core do negócio. É quando aquilo deixa de ser teste e vira operação. Deixa de ser aposta e vira sistema. Entra no produto, na plataforma, na rotina, na máquina comercial ou na infraestrutura da empresa. Aqui, a pergunta final é: isso gera valor real, recorrente e operacional para o negócio?
A entrelinha do modelo
A grande sacada não está apenas nas três etapas. Está na filosofia por trás delas. O modelo da Prosus resolve um dos maiores dilemas das grandes empresas: como inovar sem travar na própria estrutura?
Toda empresa grande tem um problema parecido. Quanto maior fica, mais difícil se mover. A marca pesa. Os processos pesam. A política interna pesa. A governança pesa. O medo de errar pesa. Por isso a metáfora do transatlântico é tão boa. Um navio gigante não muda de direção com facilidade. Mas vários jet skis mudam.
A cultura do Jet Ski permite que a empresa preserve o peso do core enquanto cria leveza nas bordas. A organização não precisa apostar o navio inteiro em cada nova ideia. Ela pode testar em pequena escala, aprender rápido e só depois puxar aquilo para dentro do sistema principal.
Esse é o ponto mais importante: a inovação deixa de ser um evento e passa a ser um sistema operacional de aprendizado.
Como aplicar na prática
Para aplicar esse framework, a empresa precisa começar pela definição das hipóteses. Um Jet Ski não nasce de uma ideia genérica como “vamos usar IA” ou “vamos melhorar a experiência do cliente”. Ele nasce de uma hipótese específica, testável e mensurável. Por exemplo: “clientes que abandonam o carrinho compram mais se receberem uma recomendação personalizada em até 10 minutos”. Isso é testável. Isso cabe em um time pequeno. Isso pode gerar aprendizado rápido.
Depois, é preciso montar times pequenos com autonomia real. Se o time de Jet Ski precisa pedir aprovação para tudo, ele deixa de ser Jet Ski e vira uma miniatura burocrática do transatlântico. O time precisa ter liberdade para testar, medir, errar, corrigir e mudar de direção. Poucas pessoas. Poucos recursos. Alta velocidade.
O terceiro passo é definir métricas de avanço antes do experimento começar. Muitas empresas erram aqui. Elas testam algo sem saber o que seria considerado sucesso. No modelo da Prosus, cada fase precisa ter um critério claro. O Jet Ski precisa provar aprendizado. O Barco precisa provar crescimento. O Transatlântico precisa provar valor operacional. Sem critério, tudo vira narrativa. Com critério, a empresa sabe quando matar, quando ajustar e quando escalar.
O quarto passo é criar uma rotina de revisão curta. O modelo só funciona se o feedback for rápido. Não dá para revisar um Jet Ski a cada trimestre. O ciclo precisa ser semanal ou quinzenal, dependendo do tipo de experimento. A pergunta da revisão não deve ser “deu certo ou deu errado?”. Deve ser: o que aprendemos, o que mudamos e qual é a próxima hipótese?
O quinto passo é ter coragem de matar experimentos. Esse talvez seja o ponto mais difícil. Empresas adoram começar projetos, mas odeiam encerrar projetos. Só que a força do modelo está justamente em matar rápido o que não mostra sinal. Um Jet Ski que não aprende, não gera tração e não revela oportunidade precisa sair da água. Isso libera energia para outros testes.
O sexto passo é proteger o core do negócio, mas não blindá-lo contra mudanças. O transatlântico não deve ser bagunçado por toda ideia nova. Mas também não pode rejeitar tudo que vem das bordas. Quando um Barco prova resultado, precisa existir uma ponte clara para integrar aquilo ao negócio principal. Sem essa ponte, a inovação fica presa no laboratório e nunca vira impacto real.
Perguntas que todo líder deveria fazer
Antes de aprovar um grande projeto, o líder deveria perguntar: qual é o Jet Ski disso? Em vez de começar grande, qual é o menor experimento capaz de testar a hipótese central?
Antes de aumentar orçamento, deveria perguntar: o que aprendemos que justifica colocar mais gasolina? Não basta entusiasmo. Precisa haver sinal.
Antes de integrar ao core, deveria perguntar: isso já provou valor suficiente para entrar no transatlântico? Muitas ideias são interessantes, mas poucas merecem virar operação.
E talvez a pergunta mais importante: quantos Jet Skis a minha empresa tem na água agora? Se a resposta for “nenhum”, provavelmente a empresa está tentando inovar apenas com planejamento. E planejamento, sozinho, não descobre futuro.
O que aprender com a Prosus
O jeito Prosus de inovar mostra que a vantagem competitiva não está apenas em ter boas ideias. Está em criar um sistema que aumenta a chance de encontrar boas ideias antes dos outros. Centenas de experimentos pequenos geram poucos grandes acertos. Mas esses poucos acertos podem mudar a direção do negócio inteiro.
A empresa que aprende mais rápido erra mais barato. A empresa que erra mais barato testa mais. A empresa que testa mais aumenta a chance de acertar grande. Esse é o ciclo.
No fim, a metáfora do Jet Ski resolve uma tensão clássica da gestão: como manter a escala sem perder agilidade? A resposta não é transformar o transatlântico em Jet Ski. Isso seria impossível. A resposta é criar um sistema onde muitos Jet Skis exploram o futuro, alguns Barcos escalam o que funciona e o Transatlântico incorpora apenas aquilo que já provou valor.
Essa é a diferença entre inovar por discurso e inovar por método.
Framework acionável
1. Defina a hipótese. O que exatamente queremos testar?
2. Crie o Jet Ski. Monte um time de 5 a 10 pessoas, com autonomia e baixo orçamento.
3. Meça aprendizado. O experimento gerou sinal real ou apenas opinião?
4. Escale para Barco. Se mostrou potencial, aumente investimento, mas mantenha velocidade.
5. Exija avanço rápido. O teste ampliado precisa provar crescimento relevante em pouco tempo.
6. Integre ao Transatlântico. Se gerou valor real, leve para o core do negócio.
7. Repita continuamente. O poder não está em um experimento. Está no sistema de experimentação.
A frase final
O futuro não precisa ser descoberto por um transatlântico tentando manobrar no escuro. Ele pode ser encontrado por dezenas de jet skis testando rotas, errando barato, aprendendo rápido e mostrando, com dados, para onde o navio inteiro deve ir.


