O Brasil na Mesa Mais Importante do Mundo
Com 135 milhões de clientes e um lugar no conselho da OpenAI, o Nubank se posiciona para ser o que nenhum banco ainda conseguiu: uma big tech financeira global.
A OpenAI, a empresa que criou o ChatGPT, que deu o pontapé inicial na corrida global pela inteligência artificial generativa e que é avaliada, hoje, em mais de 800 bilhões de dólares, anunciou ontem dois novos membros para o seu conselho de administração que governa tanto a Fundação OpenAI quanto a corporação comercial do grupo. Um deles é Robin Vince, CEO do BNY, o banco mais antigo dos Estados Unidos, que assumirá também a presidência do comitê de auditoria, função diretamente ligada à preparação da empresa para um IPO que o mercado espera para os próximos meses. O outro é David Vélez, fundador e CEO do Nubank.
A nomeação de Vince, embora relevante, é mais previsível, uma vez que a empresa que se prepara para abrir capital e, com isso, precisa ter ao seu lado personalidades com experiência em governança financeira, algo que o CEO de um banco de custódia global tem de sobra. A nomeação de Vélez, por outro lado, diz algo muito maior. Porque David Vélez não é um executivo de Wall Street. É um empreendedor colombiano que fundou uma fintech no Brasil em 2013, depois de se frustrar com a complexidade e os custos do sistema bancário tradicional do país, e que transformou essa frustração em algo que o setor financeiro global não esperava ver nascer na América Latina: o maior banco digital do mundo fora da Ásia, com mais de 135 milhões de clientes, com operações em três países e, desde este ano, com uma aprovação regulatória para operar como banco nacional nos Estados Unidos.
Quando se compreende o que a OpenAI é, e o que seu conselho representa, a dimensão dessa escolha se torna ainda mais clara. O conselho da OpenAI, mais do que um board corporativo convencional, é o órgão que governa a organização que, por meio dos seus modelos de IA, influencia como centenas de milhões de pessoas trabalham, pensam, criam e tomam decisões todos os dias. É o conselho que supervisiona o desenvolvimento de sistemas que governos tratam como ativos nacionais, que motivam legislações e que estão redesenhando, setor por setor, a forma como a economia global funciona. Sentar nessa mesa, portanto, significa participar das decisões que vão definir os limites, as prioridades e a direção da tecnologia mais transformadora da nossa geração.
E a OpenAI escolheu, para uma dessas cadeiras, alguém que construiu sua empresa no Brasil.
Esse gesto carrega um reconhecimento que vai muito além do currículo pessoal de Vélez, pois é um reconhecimento que valida o que o Nubank representa como modelo a ser seguido. O setor já não descreve mais o banco como uma fintech que “usa IA” como ferramenta, mas, de fato, como uma AI-first Company, uma instituição financeira cuja arquitetura inteira, da decisão de crédito ao atendimento ao cliente, foi construída sobre inteligência artificial desde a origem.
O Nubank, nesse sentido, já processa petabytes de dados diariamente. Desenvolveu o nuFormer, um modelo de fundação própria que analisa o comportamento financeiro de cada cliente para decisões de crédito mais aceleradas. Adquiriu a Hyperplane, uma startup de inteligência de dados do Vale do Silício, para acelerar essa estratégia. E lançou o que chama de “AI Private Banker”, um conjunto de ferramentas que oferece a mais de 15 milhões de usuários um serviço de orientação financeira personalizada, o tipo de produto que bancos tradicionais reservam apenas para clientes de altíssima renda, estendido a uma base de massa. A IA, no Nubank, já saiu do departamento de tecnologia e passou a ser o sistema operacional do banco.
E é justamente essa construção que posiciona a entrada de Vélez no conselho da OpenAI como algo mais do que simbólico, uma vez que o Nubank é um dos (senão o maior) player que está tentando provar uma tese que, se confirmada, mudará o que significa ser uma instituição financeira no século XXI: a de que é possível construir um banco global, com a escala de uma big tech, operando com uma fração do custo das instituições tradicionais, atendendo populações que o sistema bancário convencional sempre tratou como inviáveis, e usando inteligência artificial como a infraestrutura central que torna tudo isso possível.
A própria meta declarada da empresa de chegar a um bilhão de clientes é uma ambição que, anos atrás, soava quase que irrealista, mas que, quando se observa a trajetória percorrida pelo banco, do zero aos 135 milhões de clientes em onze anos, deixa de parecer impossível e passa a parecer, cada vez mais, uma questão de tempo e execução.
Para o mercado financeiro brasileiro, a nomeação é um sinal que merece ser lido com atenção, pois quando a empresa que está no epicentro da revolução tecnológica mais consequente do nosso tempo escolhe um empreendedor que opera a partir do Brasil para compor seu conselho, o sinal que chega ao mercado global é de que o Brasil produz lideranças capazes de sentar na mesa onde as decisões mais importantes estão sendo tomadas – e não é mais apenas um mercado que consome tecnologia de fora.
E esse tipo de sinal tem efeitos que vão além do simbólico, porque capital, parcerias, talentos e atenção estratégica seguem a percepção de relevância. E relevância, no ecossistema global de IA, se mede pela proximidade do centro de gravidade. Vélez acaba de se aproximar do centro mais importante que existe.
Há, ainda, uma camada estratégica que conecta essa nomeação ao que temos analisado ao longo das edições do Entrelinhas. Quando descrevemos o poder dos ecossistemas, argumentamos que as empresas mais valiosas do mundo não vendem produtos, mas constroem ambientes dos quais é difícil sair. O Nubank está fazendo exatamente isso no setor financeiro da América Latina: conta, cartão, investimentos, seguros, empréstimos, marketplace… tudo dentro de um único aplicativo que se torna mais inteligente e mais personalizado a cada interação.
O Nubank, com 135 milhões de clientes e uma base de dados que nenhum concorrente latino-americano se aproxima de igualar, tem a matéria-prima para construir algo que poucos bancos no mundo possuem: uma experiência financeira inteiramente governada por inteligência artificial, onde o cliente declara o que precisa e o sistema executa, sem fricção, sem intermediários e sem a complexidade que o próprio Vélez saiu de um banco tradicional para eliminar.
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Para quem lidera negócios e acompanha essas movimentações, a leitura mais relevante talvez não esteja na nomeação em si, mas no que ela revela sobre o momento. A IA está saindo da fase de laboratório e entrando na fase de implantação sistêmica, e as empresas que vão capturar o valor dessa transição são aquelas que combinam escala de clientes, infraestrutura de dados e capacidade de execução. O Nubank tem as três. E seu fundador agora tem acesso direto à tecnologia que pode multiplicar o impacto de cada uma delas. A pergunta que resta não é se o Nubank vai usar essa posição. É o que os concorrentes farão quando perceberem que o banco do futuro talvez já esteja sendo construído, e que ele é roxo.




