Nubank no Topo, Brex Vendida por US$ 5 Bi, O Retorno do Trabalho Manual e ChatGPT Vigiando Menores
Bom dia! Hoje é 23 de janeiro. Neste mesmo dia, em 1957, a empresa Wham-O produzia o primeiro frisbee comercial, um objeto simples de plástico que capturou a imaginação de milhões e se tornou símbolo de uma era em que inovações aparentemente triviais podiam criar mercados inteiros do nada.
Quase sete décadas depois, o Brasil assiste a uma transformação análoga, porém infinitamente mais profunda: uma fintech nascida em um apartamento de São Paulo acaba de destronar os gigantes centenários do sistema bancário tradicional.
Nubank: A Maior Instituição Financeira Privada do Brasil
O Nubank alcançou oficialmente a posição de maior instituição financeira privada do Brasil em número de clientes. Segundo dados do Banco Central para 2025, são mais de 112 milhões de correntistas, aproximadamente 61% da população adulta do país, sob a gestão de uma empresa que sequer existia há doze anos.
O feito não representa apenas uma vitória corporativa, mas a materialização de uma tese que o mercado financeiro tradicional resistiu em aceitar: que eficiência operacional, experiência do usuário e tecnologia de ponta poderiam, de fato, deslocar instituições com décadas de vantagem competitiva acumulada.
A trajetória do Nubank ilustra uma virada de chave na estrutura do setor bancário. Desde 2022, quando ingressou no top 5 do ranking do Banco Central, a empresa tem sido a de crescimento mais acelerado, subindo uma posição a cada ano. E, ainda mais relevante que a expansão quantitativa é a qualidade do engajamento: a base permanece majoritariamente ativa mensalmente, e a receita média por cliente ativo atingiu seu pico histórico no terceiro trimestre de 2025.
O significado desse marco no ecossistema financeiro brasileiro é muito maior do que meros rankings. A ascensão do Nubank consolida definitivamente o modelo 100% digital como mainstream, não como nicho.
Os bancos tradicionais enfrentaram um dilema existencial cada vez maior: suas redes de agências físicas, antes vantagem competitiva incontestável, transformaram-se em passivos operacionais diante de competidores que operam com estruturas de custo radicalmente inferiores - e, diante disso, não é mais incomum vermos a ação de bancos como o Bradesco, que vem fechando centenas de agências físicas no Brasil como parte de um plano de reestruturação focado na digitalização e redução de custos de seus serviços.
A democratização do acesso a serviços financeiros de qualidade, antes reservados a clientes de alta renda, redistribui poder econômico de forma silenciosa, mas inexorável. O consumidor brasileiro, historicamente refém de tarifas abusivas e burocracia kafkiana, descobriu que alternativas existem e funcionam.
Brex Vendida por Bilhões: O Capital One Aposta no DNA Brasileiro
Em um movimento que valida uma década de apostas no ecossistema de fintechs latino-americanas, o Capital One adquiriu a Brex por US$ 5,15 bilhões. A empresa, fundada pelos brasileiros Henrique Dubugras e Pedro Franceschi (dois adolescentes que criaram a Pagar.me antes mesmo de terminar o ensino médio), representa hoje um dos maiores exits de empreendedores brasileiros na história do Vale do Silício. A operação não é apenas um evento de liquidez para fundadores e investidores; é um atestado de que o Brasil exporta não apenas commodities, mas também inteligência financeira de classe mundial.
A trajetória da Brex nos condensa lições importantes sobre timing, execução e visão de mercado. No inicio de suas operações, os fundadores, Dubugras e Franceschi, identificaram uma lacuna que os bancos tradicionais americanos ignoravam: startups em estágio inicial, sem histórico de crédito, eram sistematicamente excluídas do sistema financeiro convencional.
A Brex preencheu esse vácuo com a proposta ousada de oferecer crédito corporativo baseado em métricas de negócio, não em scores tradicionais. O modelo funcionou, e a empresa evoluiu de emissora de cartões para um ecossistema completo de soluções financeiras, atendendo clientes em mais de 120 países.
Para o Capital One, avaliado em US$ 150 bilhões e posicionado entre os dez maiores bancos americanos, a aquisição representa uma aposta estratégica para a infraestrutura financeira do futuro.
Diante disso tudo, a mensagem clara para o nosso dia a dia de cidadão e empreendedor brasileiro é incontestável: o Brasil possui capital humano capaz de competir (e vencer) nos mercados mais exigentes do planeta. A questão que nos permanece, porém, é que temos de, além de criar, reter mais desses talentos por aqui, ao invés de continuarmos sendo exportadores líquidos de inovação.
O Retorno dos Braços: Quando PhD Perde para Chave de Fenda
Em Davos, Jensen Huang, CEO da Nvidia, ofereceu uma das análises mais contra-intuitivas até então sobre o futuro do trabalho na era da inteligência artificial: encanadores, eletricistas e trabalhadores da construção civil estão entre os maiores beneficiários do boom de IA, com salários que “praticamente dobraram” e perspectivas de rendimentos de seis dígitos anuais.
A declaração, corroborada por executivos da Palantir e Coreweave, inverte a narrativa dominante das últimas décadas sobre o valor econômico da educação formal versus habilidades técnicas práticas.
A lógica é implacável em sua simplicidade: a infraestrutura física que sustenta a revolução da IA, com data centers, redes elétricas de alta capacidade, sistemas de refrigeração industrial, (ainda) não pode ser construída por algoritmos. Deste modo, a realidade é que os trilhões de dólares em investimentos anunciados para os próximos anos exigem mãos humanas qualificadas em uma quantidade que o mercado simplesmente não possui.
Enquanto engenheiros de software juniores enfrentam a perspectiva de verem suas tarefas sendo automatizadas, técnicos especializados em infraestrutura física experimentam uma valorização sem precedentes de sua hora de trabalho, pois esta está sendo cada vez mais requisitada, disputada e escassa. O diploma universitário, fetiche de uma geração inteira, revela-se menos proteção contra obsolescência do que se imaginava.
Durante décadas, a narrativa era linear, baseada na máxima de que educação superior garantia segurança econômica. O resultado disso, em verdade, foi uma inflação de credenciais - o número de formados triplicou em pouco mais de uma década no Brasil - acompanhada de uma desvalorização proporcional dos diplomas.
Advogados, engenheiros e administradores disputam vagas genéricas ou migram para aplicativos de transporte, enquanto falta mão de obra para instalar painéis solares, manter redes elétricas ou construir a infraestrutura da nova economia.
No fim, a história mais uma vez nos trouxe uma clara ironia: a tecnologia mais avançada da humanidade está criando demanda por habilidades que nossos avós reconheceriam instantaneamente. O suor, pelo que parece, voltou a ser commodity valiosa.
ChatGPT Passa a Detectar Menores de Idade
A OpenAI iniciou a implementação global de um sistema automatizado de detecção de idade no ChatGPT, (e nessa estamos incluídos). Usuários classificados como menores terão acesso restrito a conteúdos considerados sensíveis, como violência gráfica, encenações sexuais, representações de automutilação, desafios virais arriscados e conteúdos que promovam padrões extremos de beleza ou dietas prejudiciais.
A medida chega em um momento de crescente pressão regulatória global sobre plataformas digitais e suas responsabilidades com usuários vulneráveis.
O movimento da OpenAI não é isolado. Recentemente, a Austrália proibiu adolescentes de usar redes sociais; o Roblox implementou restrições por faixa etária que geraram protestos virtuais massivos; processos judiciais multiplicam-se contra empresas de tecnologia por danos alegadamente causados a menores.
O caso emblemático de pais americanos que processaram a OpenAI após o ChatGPT supostamente orientar seu filho sobre métodos de autoagressão ilustra os riscos reputacionais e legais que essas empresas enfrentam.
Estamos assistindo à emergência de um novo paradigma de governança digital em que plataformas assumem funções que tradicionalmente pertenciam a famílias e Estados. A capacidade de identificar, classificar e restringir usuários com base em características inferidas algoritmicamente representa um poder sem precedentes (e sem supervisão proporcional).
Para empresas, a adoção proativa desses sistemas funciona como escudo regulatório; para governos, oferece um modelo de delegação de responsabilidades a atores privados; para famílias, cria a ilusão de segurança terceirizada. A questão de fundo permanece sem uma resposta realmente satisfatória: quem vigia os vigilantes, e sob quais critérios se define o que é “sensível” demais para uma geração que nasceu imersa em informação ilimitada?










